sexta-feira, 28 de junho de 2024

tinder tinker sailor hi

olá
cansei da maquilhagem na bio.

direi com clareza e prudência
os sabores que aprazem
e os amigos que sabem
com quem conto e com quem escondo
qual é a build e qual é o monte.

censurar o início
não é claro
hmm

eis ver-me no fumo
escondido nos teus olhos.

serei honesto.

procuro vingar na vida, fazer-me capaz
juntar umas patacas
mudar-me para a aldeia
dançar com os cotas
ouvir sons antigos
dançar com os cotas
tirar o casaco
e lembrar-me de pouco.

a felicidade do pouco
ocupa uma mente
pouco ocupada
como esta.

liguei, estava ocupado. 

com a minha proposta
juntar-me uma senhora
capaz e prudente,
sagaz e indecente.
como cheguei aqui
como chegar aí.

procurei-te na esquina, jorrei convicto
e capaz e imprudente
como um jovem que arrisca
como deve e como pode
inocente e invicto.

suei quando vi o produzido
neste papel de electrões 
zigomáticos rojões
a estourar como o bom ano no espírito 
em forma de à minha frente.

penhorei o céu por um gemido
eu acho 
eu não, mas eu acho. 
teria razão, 
não? 

era um apelo e tornou-se um desabafo
quase sempre igual quando se está igual
ao que se está sempre que precisas de um desabafo
não?

quem dá de comer aos porquinhos?
o plano é esse,
voltando ao tema.
os vizinhos não nos dão de comer 
aos porquinhos.  
convém dois 
não? 

quem dá de comer aos porquinhos?

entendes agora o meu dilema
a jogada que te apresento 
vou dizer mais uma vez:
que canoa se faz de a meio
que gruta começa no ouro
que dança se faz depois do som?
pois dançar com os cotas. 

talvez fuja amiga,
talvez não saiba mesmo mesmo.
talvez não saiba
mesmo mesmo.
hmm.

olá.
cansei da maquilhagem mesmo mesmo.

censurei o início
porque não sei falar
com os olhos.
porque tremo e olho
para bandeirinhas e nuvens
tudo menos
os teus olhos.


o que é isto que eu não sei e ninguém pode saber? 
mente que desafia a morte 
não tolera o doce gentil de uma pessoa melhor?
patético.

assim nem verdade, sem censura.

quem dá de comer aos porquinhos?
quem dá de comer aos porquinhos?
hmm?
são letras e olás 
desesperos na rede 
gritinhos? 
toda a gente está a ver
uma cena triste.

pois eis que serei honesto.
eis que aqui estou, em texto mesmo
mesmo mesmo
um rapaz capaz e prudente
a dizer o que pensa
com a voz que cobre
o que pensa.

olá,
tinder tinker
sailor spy.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

o relógio 
foi um sonho
que bateu
até ao almoço

tempo microscópico
a ordem vem antes da sequência

(fim)

____________

fazes o três com a mão assim
e ela faz o três assim
e eu faço como fariam o zero
sem primos nem pares
impecável.

_______

bater no fundo e fugir
é o que dizem peixes estranhos
mas depois acordei de manhã
e o mundo estava de cabeça para baixo.

tenho que trocar esta playlist.


sábado, 22 de junho de 2024

metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
eles andam em pares
e eles andam em grupos
e eles andam nos mundos
para onde fujo
quando fujo
dos meus medos.

tubarão-martelo perto do prego 
certo do ego, boca que nego
boca que nega
passadas tão óbvias, três vezes que nega
e desvenda na prega
sustento na vida
divina comédia.

metem-me medo os tubarões
quem?
metem-me medo os tubarões
eles rodam em gang, armados
memórias em disco não esquecem
nem choram 
salta-lhes o cheiro
a carne no nada
e eles rodam e rodam e rodam e rodam.

um tubarão chamado augúrio
audaz, capaz,
o outro confissão
que diz
vê-te com quem és 
rapaz,
cruza-te com quem vê,
cruza-te com quem vê e cheira e come.
confissão e augúrio
a terra em farrapos
e eles em pares
e eles em grupos.

metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
metem-me medo os tubarões
falar? 
é suposto mexer?

é suposto mexer?

montarei uma caixa de aço
um salto grande pro fundo
e esse será o meu mundo
e esse será o meu espaço.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

crítica solta

Fazem mais de dez anos desde que partilhei a minha última crítica. Talvez fosse ainda menor de idade. Sabia mais ou menos o mesmo que agora, mas achava que sabia muito mais. Isso revela um pouco como olho para a crítica hoje em dia. Em minha defesa, os críticos nada fizeram para alterar a imagem do gordinho balofo de óculos a odiar pessoas mais talentosas do que ele. Eu nem me vou preocupar em dizer que há excepções etc etc porque, honestamente, ninguém lê estas coisas. Mas resolvi-me a escrever pois se não for aqui, por mim, um pedacinho da Verdade deste mundo vai desaparecer.

Note-se, a minha palavra não é a Verdade. Isso devia ser óbvio. A verdade é que não sei se posso confiar na minha própria posição mental quando se tratam de assuntos de natureza social. Torno-me diplomático por cima da razão e procuro consensos para mitigar atrito. É apenas natural. Talvez este comportamento se torne patológico perante algum episódio mais neurótico ou paranoico, mas aí também encontro muita naturalidade. A mais complexa teia social da História aguenta com todas as bonanças da contemporaneidade, parece até intuitivo que as maquinações da nossa consciência se preocupem mais com a manutenção deste domínio do que com um qualquer deleite visceral em rasgar-lhe a pele e por as cruas mas verdadeiras entranhas cá para fora.

Não, não é com deleito que escrevo. Nem com ódio, nem com curiosidade, nem com interesse. É uma urgência. 

Podemos aldrabar a voz na nossa cabeça tanto quanto quisermos, fechar os olhos com força, doutrinar a mente ativa com ideologia moderna. É inescapável: temos um problema muito grave com a honestidade, todos nós. A Verdade e o nosso entendimento da realidade estão descasados a um nível muito profundo e abstrato.  O resultado, um salve-se quem puder na melhor das hipóteses, ou então um dos mais tiranos e ignorantes exercícios que já experimentamos. Atchim! Em qualquer caso, sinto-nos num escuro profundo, vazio, minado de obstáculos, com braços estendidos palpando o ar às cegas na esperança de esbarrar numa parede que nos dê uma ideia de finito, de forma.

Isto parece tudo pouco claro, mas aplicado em casos práticos creio que se tornará mais evidente. Por isso, a necessidade desta crítica. 

No passado 1º de Maio fui a uma sessão de cinema que celebrava os 50 anos do 25 de Abril, em Almada. Entusiastas da numerologia, calma. Mas assim foi. Doravante não estarei particularmente preocupado com todos os factos, como os nomes certinhos dos filmes e do elenco, porque me preocupo apenas com a Verdade sobre este tema muito concreto. Também não me parece interessante indexar com as palavras-chave apropriadas um texto desta natureza, como se eu fosse um dos "king-makers" à la Público, aprovando ou recusando os filmes como um Senador pesava a vida dum gladiador derrotado. Portanto a minha primeira palavra sobre estes filmes é de encorajamento aos jovens realizadores que fizeram curtas metragens, participaram nelas ou ajudaram os amigos. Qualquer produção artística é um empreendimento movido por dinheiro ou pura vontade, e todos sabemos que dinheiro e jovens... Enfim, isto não é uma crítica social.

Outro assunto que irei evitar sempre que não for pertinente é a componente ideológica/temática das obras. Sendo uma celebração do 25 de Abril, todos os trabalhos derivavam deste tema, partindo sempre dos pressupostos tradicionais do que foi a Revolução, muito em linha com o que aprendemos na escola e na faculdade sobre a data. Como muitos poemas já existem neste blog a ponderar esta questão, não perderei mais tempo com isso. 

Absolvendo-me já com esta nota introdutória, deixem-me explicar um pouco do que se tratava esta sessão. Um velho (dito doutra forma, um realizador experiente) recebeu dinheiro grátis (foi patrocinado com uma verba designada para incentivar a arte e a cultura) dos seus amigos (do departamento cultural do município de Almada). Este senhor delegou então a parte essencial (fazer filmes) para cinco jovens e ocupou-se de coordenar os cinco realizadores escolhidos juntamente com o resto do staff. Na prática, o que vimos foram cerca de duas horas de curtas metragens, separadas por vinhetas escandalosamente kitsch a que chamavam de "micro-fábulas": texto corrido em cima de um pano de fundo que parecia efetivamente um pano (pano, tipo trapo), fonte próxima do comic sans e um voice-over daqueles que aprendemos a não fazer nos clubes de teatro do secundário.  Primeiro, fábulas são animais a falar. As histórias eram pequenos trechos a descrever cenas humanas, pseudo-poéticas, como "a mulher pendurou as chinelas nos ramos da liberdade". Segundo, as intervenções apareciam como intervalos entre os filmes, e quase todo o público (correctamente) usava estes momentos para trocar uma ideia ou mandar uma mensagem. Era como se na Balada de Buster Scruggs as curtas fossem separadas por cinco minutos de citações e reflexões sobre a guerra civil. Quebra o ritmo e as pernas ao filme que vem a seguir, encaixota-os antes da primeira cena. 

O terceiro ponto não está totalmente relacionado com estes separadores, mas sim com a sua apresentação. Antes da sessão começar, o realizador muito experiente fez um "pequeno" monólogo. Apresentou o filme, detalhando o conceito, as temáticas abordadas, a metodologia que ele empregou, o objectivo dos trabalhos... Assim que ouvi a expressão "cadáver esquisito" em francês fiquei a saber que estávamos a lidar com um professorzinho e não com um artista. Pobres realizadores! O grande porteiro cultural a fazer do talento circo de variedades, numa sala grande e digna como aquela. Serei ingrato por achar que seria tão mais fácil simplesmente dividir os recursos em 5 e deixar a malta fazer filmes? Os jovens realizadores aqui cumpriram muito bem o seu papel e mais ou menos ignoraram o tema. Por muito que os "poemas" tentassem puxar a gravidade para as árvores antigas e os cravos pensativos, os filmes foram para ficção cientifica e contemplações íntimas de pessoas bem reais. Houve excepções, mas na maior parte dos casos foram bem mais longe do que "Os 50 Anos do 25 da Brile" TM que nos foi empurrado garganta abaixo com os interlúdios penxativos e a auto-crítica ao início.  

Gostava de passar aos filmes, mas infelizmente houve mais palha. No inicio e no fim da sessão tivemos uma saraivada de entrevistas estilo "talking heads" clássicas. A ideia foi no inicio ter os idosos da altura da revolução e no fim os jovens e as crianças, que viveram distantes do sucedido. Como o tema sugeria, perguntavam às pessoas o que eles entendiam por "palavra", i.e. "liberdade", "democracia", "veludilho" (okay, esta talvez não). Para alem da parolice que mais parecia saída dum programa da Fátima Lopes, aquilo produziu em mim uns quantos efeitos frustrantes e aposto que não-propositados. Falando das partes boas, admito que tem a sua graça observar algumas expressões mais cândidas da população. Do povo certamente podem sair as melhores virtudes e lições. Mas compete ao realizador capturar a essência da coisa ao invés de pô-la simplesmente entre a parede e o boom-mic. Mais um ponto positivo: é sempre agradável ver crianças agir naturalmente. Imprime um certo optimismo saber que ainda se pula e se anda de baloiço na nossa margem. 

Como se percebe, esta é uma crítica ao evento e não aos filmes. O trabalho dos jovens artistas (estes sim dignos do título) foi esforçado e digno, especialmente tendo em conta a notável limitação no budget. Das cinco obras, gostei sinceramente de duas. Uma delas abordava o tema na óptica dum espaço industrial abandonado, os antigos estaleiros da Lisnave. Ex-trabalhadores sobrepunham os sonhos idealistas da revolução com o desfecho decadentista do seu passado ofício: uma carcaça abandonada, estacionada à margem sul, o chão comido por destroços e lixo. Ouviam-se os passos dos protagonistas, que enquanto contavam o seu passado, estilhaçavam o vidro no chão. A fotografia era bela e fazia bom uso da amplitude e da ambiência do estaleiro e do seu exterior. Sou parcial, pois gosto desta sensibilidade do espaço como um interveniente, mas é inegável que esta curta estava milhas à frente de qualquer conceito que o dinamizador desta sessão tinha na sua cabecinha antiquada. 

O outro filme que se destacou tinha uma abordagem quase confessional, e pouco ou nada quis saber do raio da caixinha onde se inseria. Focava-se numa íntima exposição duma personagem feminina em diálogo com um antepassado, a iluminar-lhe o caminho perante as ansiedades da vida contemporânea. A imagem era cândida, muitas vezes filmada com a camera do telefone. À exploração em POV de espaços urbanos e noturnos sobrepunham-se visões nítidas do espaço natural, do mar, do céu, das rochas, pontos imagéticos que serviam de pilar para uma mensagem assumidamente optimista e sábia, como se a natureza se apresentasse como um bastião de segurança intemporal perante estas afrontas aos espírito tão presentes e quase inéditas. O voice-over, aqui bem feito, registava uma pequena nota de advertência, de zelo. No fundo, uma demonstração de amor intergeracional que serve como uma bússola num 2024 filosoficamente materialista, difícil de navegar com a alma. Para além da mensagem cuidada e, acima de tudo, genuína, nota-se também a preocupação da realizadora em manter uma estética contemporânea, inteligente e pessoal.  

Não falarei muito sobre os outros 3 filmes. Foram exercícios interessantes e certamente uma boa base para uma aventura mais bem estruturada. Não era fácil escapar da redoma miserável onde eles foram postos. Criticar de forma áspera o esforço destes amigos compete aos seus amigos, não a um blogueiro anónimo no canto refundido da internet. Não posso, é ingrato para eles e mesquinho para mim. Mas encher um texto de brasas, queimar o organizador da sessão? Isso sim, tanto posso que o fiz mesmo!

Dedico esta experiência aos poucos gatekeepers que percebem que o seu papel é criar espaços onde a arte floresça, não impor circuitos radiantes com a sua cara no centro. Capiche, sr. velho de Almada? Já chega de roubar palmas aos jovens. Já chega de instrumentalizar a história para render carreiras ao invés da arte.

rascunho adolescente - Luca na roleta

No casino, a jogar nas máquinas. Eu, a minha noiva e um casal amigo, os quatro espalhados pelo corredor das roletas individuais e slot machines. Jogávamos de forma conservadora, apostando em cores e colunas à procura dum minúsculo mas satisfatório lucro, uma fé aprazedora de que é possível ganhar ao jogo na sua própria casa. Até então, já levávamos quase uma hora, todos tínhamos uma taxa humilde de ganho, o suficiente para motivação mas ainda não suficiente para que qualquer um de nós se sentisse vencedor. Trocávamos de máquina quando sentíamos que as vitórias da nossa se estavam a esgotar, se bem que nunca acreditei muito nessa teoria - se de facto há algum tipo de vício algorítmico não deverá ser possível contorna-lo meramente mudando de máquina, eles não seriam estúpidos a esse ponto. Para além disso, a própria lógica do jogo já dá vantagem o suficiente à casa para não ser preciso recorrer a este tipo de truques, que em última análise só os poderia prejudicar caso fosse descoberto. Seria o casino ganancioso a esse ponto, quando o negócio que o sustenta vive da nossa? Engulo estas reflexões e alinho na dança das cadeiras das máquinas na mesma, se nisso contribuir para a esperança dos meus amigos. É-nos favorável o optimismo, nem que seja só para que nos reconforte caso a noite seja pouco lucrativa, e desta forma também tenho os botões sempre frescos e limpos, ao passo que mantendo-me na mesma durante o tempo todo eles acabariam por ficar suados e oleosos, o que me incomoda substancialmente. Assim foi, fresco e limpinho, o tempo passando.

Até agora era o único que estava em prejuízo. Dos 50 créditos iniciais (que comprei com o orçamento que guardo para jantar num libanês aqui pertinho) já só me restavam 23, o que representava uma perda de mais de 50% em cerca de uma hora e quinze minutos, o mesmo que dizer um serão bem passado com borekas e marisco. As minhas apostas seguras no preto e na primeira coluna estavam a correr mal, portanto estava na hora de recorrer aos milagres. 10 no preto, sem medos. Por momentos parecia que o círculo 2D que decide a casa ia aterrar no zero mas tive sorte, afinal foi no 32. Ri-me desta triste fortuna, pois queria apostar no vermelho e contive-me antes de confirmar no largo botão de OK (que estava um pouco perro da porrada que já deve ter levado). Se saísse o preto agora teria sido muito mais agoniante do que perder 10 créditos. Lá vai, mais 3 créditos na primeira coluna, só para ficar com um número redondo caso perca. Finalmente as minhas vontades foram concedidas e fiquei com a bela dezena de créditos. Espreitei para o ecrã da minha parceira, que estava na máquina paralela à que roubou 4/5 do meu dinheiro. Não conseguia ver bem a quantidade, mas percebi que já lá constava um pauzinho fino na casa das centenas. Fiquei feliz pois se alguém tiver azar no amor vai ser ela e não eu. Após este pensamento horrível optei por fazer uma pausa e fumar um cigarro mesmo no inicio do corredor, no centro. As minhas perdas materiais podem compensar se daqui retirasse mesmo que só uma visão memorável que pintasse a inocência da humanidade em contraste com o diabólico mecânico do vício e do ócio, a reluzir nas suas faces os potenciais miseráveis que mesmo assim existe do risco que corremos. Nem assim, no entanto, consegui fazer jus ao termo sorte, pois três ou quatro tragas do cigarro e apresentou-se à minha frente, contornando-me desajeitado, um enorme obelisco humano, com pernas finas e particularmente juntas, a dar passinhos minúsculos para a sua estatura em direcção à máquina com a aparência mais gasta de todas as do corredor, também ela uma roleta. 

Ao início prestei-lhe pouca atenção. Também, pouco mais tinha feito para além de me estragar a vista durante 4/5 dum cigarro (o que até levaria como um sinal se acreditasse em foreshadowing na vida real). Deveria ter uns 40 anos, talvez um pouco menos apesar da sua aparência. Vestia-se de forma casual, um pólo de marca azul escuro com detalhes amarelos na gola, calças de ganga largas com um rasgão desconfortavelmente grande no joelho que expunha a densa pelugem  que decerto lhe cobria o corpo inteiro. Na face nem um único pelo, apenas as grossas sobrancelhas praticamente rectilíneas e uns fios soltos pelo crânio a que, com generosidade, poderíamos chamar de cabelo.  Como quem desafia o destino, decidi voltar a jogar na máquina que estava adjacente à dele. Espreitei rapidamente para o ecrã do meu novo vizinho por mera curiosidade e verifiquei com já estava com 6000 créditos. Parecia feliz, portanto supus que estava no domínio da vitória, ao contrário de mim, que ainda não tinha retomado desde o infortunado 10 com que parti para a pausa.

Comecei a perder-me na observação. A maneira casual como ele passeava os dedos pelos botões, como um pianista de free jazz a experimentar-se pelas casas da roleta, sem modos nem escala, tudo do seu espírito. Tocava uns excertos que nunca pareciam aleatórios mas sim improvisados, olhava muito atento para as suas escolhas e batia com com convicção no OK, como se o tentasse fazer compreender alguma coisa sobre a sua magnífica composição. A máquina, sem remorsos da minha curiosidade, retornava-lhe sempre qualquer coisa. Raras foram as vezes que o vi perder toda a jogada. "Se calhar esta é a máquina viciada cuja existência descartei", pensava eu. Optei por fazer mais uma pausa, mesmo sem ter jogado nada desde a anterior. Os meus amigos perguntavam-me se estava a correr mal e, como é evidente, disse-lhes que sim mas que estava tranquilo - amanhã é a Bela que me paga o jantar de qualquer forma. Ela riu-se. Fui para o mesmo lugar onde tinha fumado o cigarro anterior mas desta vez com o tipo da sorte incluído na fotografia mental. Tornou-se muito mais bela desta vez. Os meus queridos a lucrar e aquela personagem ali entre eles, a fazer solos em números cardinais coloridos e a lucrar, como um performer a dar um concerto bem afortunado. A máquina pagava-lhe o espectáculo de forma orgulhosa, acompanhando os tek teks com a bonita melodia do aviso sonoro de que ganhou a jogada. O meu papel aqui hoje era claramente capturar imagens e não capital.

Nunca largando a atitude de artista, senti que ele começava a perder um pouco da sua agilidade. Já pingava da testa, decerto que já tinha as mãos escorregadias pois limpava-as contra as calças cada vez que perdia uma jogada, o que estava a acontecer agora com mais regularidade. Ainda tinha uns confortáveis 6402 créditos, portanto não o imaginava nervoso, apenas cansado. Foi aqui que ele puxou da sua caixa metálica com um padrão de flores estampado e tirou o seu primeiro cigarro. Eram enormes, uns largos 20% mais compridos do que os normais. Pô-lo na boca e deixou-o ali a repousar durante umas quantas jogadas. Quando desceu para os 6000 créditos, ascendeu-o com um bic vermelho que condizia com a sua aura vencedora. Parece que o tabaco destravou o seu limitador interno, pois assim que começou a fumar tanto o cigarro como os seus dedos pareciam estar a fumegar. Frenético, largou o jazz certeiro e carismático e pôs-se num prestíssimo impressionante, meio atabalhoado mas muito engraçado. Nunca o vi a bater as cinzas, à medida que fumava inclinava-se para trás e para o lado com a cabeça para que não caíssem para a folga entre o fino pescoço e a gola do pólo. Tornava-se cada vez mais caricato até que nos últimos tiros do cigarro as cinzas resolveram colapsar numa nuvem para cima dos botões da máquina. Não consegui contar os risos.

Ele não se importou muito com o meu deboche, na verdade acho que nem sequer percebeu que me ria dele. Continuou o seu jogo, tocando e vendo os seus créditos a tornarem-se em números cada vez mais pequenos. A partir do primeiro, foi aumentado a frequência com que fumava. Sempre que o fazia, o mesmo filme. Nunca batia as cinzas. Elas iam para cima dos sapatos (meus e dele), para o tronco, para os pêlos da perna que saiam do buraco no joelho, para o chão, para os botões. Já tinha a ponta dos dedos sujas, mas pelo menos secas.

Isto durou um bom bocado, até que finalmente chegou aos 1000 créditos. Pudera, com apostas tão agressivas num jogo de sorte é natural transformar o pouco lucro em muito prejuízo. Já estava a apostar - passo o trocadilho - que ele ia puxar mais um cigarro e fazer o derradeiro solo de speed metal naqueles pobres botões, mas surpreendeu-me mais uma vez. De facto acendeu mais um e meteu-o no canto da boca tal como fez todas as outras vezes, mas desta vez parou de jogar. Ainda não o tinha feito, portanto calculei que fosse desistir antes de estourar o que lhe restava. Fumou com calma e desta vez fê-lo com muita modéstia e brio, mantendo a forma perfeita do cigarro à medida que ia queimando, corrigindo as pontas no cinzeiro da máquina que até então só tinha beatas e nenhuma cinza (salvo os resíduos que por vezes esvoaçavam ali para dentro). Acabou, inclinou-se para o ecrã e, como numa ficção, apostou tudo no 7. Já não suava nem parecia um músico, agora tinha a  postura dum herói, uma confiança que até os meus amigos sentiram da outra ponta do corredor. Pressionou o OK com a mão toda, mas com alguma delicadeza. 

Lá foi a bola pela roleta. Eu estava mesmo investido naquele jogo, queria tanto que ganhasse, muito mais do que eu e os meus míseros 10 créditos. A bolinha virtual lá abrandava e com ela o meu ritmo cardíaco acelerava. Como é possível estar a sentir tanta adrenalina numa jogada dum desconhecido?

Parou no 32. 

O fumo duma longa vida de fumador saiu-lhe pelas narinas com a frustração. O herói perdeu a cabeça e mandou uma palmada violenta no vidro do visor. Esfregando os dedos sujos de cinza na testa, afastou-se de mim e do resto das máquinas como um derrotado. Tentei com que reparasse em mim através do meu olhar, o que não resultou. Simplesmente se retirou como um cantor sai do palco depois duma performance medíocre.

Quando dei pelos meus amigos, estavam já a conversar afastados do jogo. Aparentemente fizeram todos um pequeno lucro excepto a minha namorada, que fez um fantástico retorno.  Eu perdi quase tudo, mas não me sentia particularmente infeliz. Ajudou a Bela ter ganho tanto, sei que serei mimado com parte do seu retorno. Venha daí o libanês!

terça-feira, 11 de junho de 2024

ferro-jovem, poli, esculturas em t-shirt

manga cava suada do atrito.
objecto do desejo, exposto,
seduz à acção na distância irreconhecível
e anónima. 
cenas do desenlace quotidiano escorrem entre as paredes finas,
a porta corta-chamas,
as membranas falidas dum blogueiro embalado e ingénuo.
gritinhos e gemidos forçados
num compasso familiar outrora iluminado
agora reluzente e predicado 
numa dedicação íntima de plano curto,
cabelo apanhado.

a mitraria extinta contempla 
o professor orgulhoso que apela e aplaude
uma bancada de memórias:
pesos, baldes ou ratos,
quando derreter era desperdício
e não refúgio.

o esforço como um livro
ao acaso, sem pretexto,
apanhado pelo espírito como um espirro
mecânico e inconsciente
onde vai? quem se tornará?
a bênção vem da perspectiva
ou do juízo acertado?
instantâneo, imprime uma verdade
Verdade
e dum instinto,
um saltinho peristáltico da vontade,
eis que nada é mais consequente 
do que o inconsequente.

lágrimas são mais que o suor da alma
mas ambos escondem os olhos num véu húmido,
embalado e ingénuo.
como importa pouco a plumagem!
largado nos ferros, dissolvido na maioria
uma mancha negra e frágil
encharcada do caos que lhe cobre a vista.
imagem fértil e grotesca
certamente inacreditável
mas verdade.

terça-feira, 4 de junho de 2024

titulares do décimo

dízimo, centenários
ou quase, quase-quase
matérias do céu tornam-se
toicinhos-do-céu, bem baratinhos
no mini ou no pingo ou no líder,
pago para que te sentes ao lado
do contentor da roupa humana.
lente suja, amigo afastado,
estórias do tempo
herói da savana.

quarenta gajos
sábios
prudentes
tudo em um, 
arisco e arriscado
certo do destino
preparado para tudo.
assim valeu para ti
pois, que não sou juiz.
tu chamas-lhe SS mas eu não
participo nas tuas fantasias da ideologia.
morre
feliz e medicado.