sexta-feira, 28 de junho de 2024
tinder tinker sailor hi
segunda-feira, 24 de junho de 2024
sábado, 22 de junho de 2024
sexta-feira, 21 de junho de 2024
crítica solta
Fazem mais de dez anos desde que partilhei a minha última crítica. Talvez fosse ainda menor de idade. Sabia mais ou menos o mesmo que agora, mas achava que sabia muito mais. Isso revela um pouco como olho para a crítica hoje em dia. Em minha defesa, os críticos nada fizeram para alterar a imagem do gordinho balofo de óculos a odiar pessoas mais talentosas do que ele. Eu nem me vou preocupar em dizer que há excepções etc etc porque, honestamente, ninguém lê estas coisas. Mas resolvi-me a escrever pois se não for aqui, por mim, um pedacinho da Verdade deste mundo vai desaparecer.
Note-se, a minha palavra não é a Verdade. Isso devia ser óbvio. A verdade é que não sei se posso confiar na minha própria posição mental quando se tratam de assuntos de natureza social. Torno-me diplomático por cima da razão e procuro consensos para mitigar atrito. É apenas natural. Talvez este comportamento se torne patológico perante algum episódio mais neurótico ou paranoico, mas aí também encontro muita naturalidade. A mais complexa teia social da História aguenta com todas as bonanças da contemporaneidade, parece até intuitivo que as maquinações da nossa consciência se preocupem mais com a manutenção deste domínio do que com um qualquer deleite visceral em rasgar-lhe a pele e por as cruas mas verdadeiras entranhas cá para fora.
Não, não é com deleito que escrevo. Nem com ódio, nem com curiosidade, nem com interesse. É uma urgência.
Podemos aldrabar a voz na nossa cabeça tanto quanto quisermos, fechar os olhos com força, doutrinar a mente ativa com ideologia moderna. É inescapável: temos um problema muito grave com a honestidade, todos nós. A Verdade e o nosso entendimento da realidade estão descasados a um nível muito profundo e abstrato. O resultado, um salve-se quem puder na melhor das hipóteses, ou então um dos mais tiranos e ignorantes exercícios que já experimentamos. Atchim! Em qualquer caso, sinto-nos num escuro profundo, vazio, minado de obstáculos, com braços estendidos palpando o ar às cegas na esperança de esbarrar numa parede que nos dê uma ideia de finito, de forma.
Isto parece tudo pouco claro, mas aplicado em casos práticos creio que se tornará mais evidente. Por isso, a necessidade desta crítica.
No passado 1º de Maio fui a uma sessão de cinema que celebrava os 50 anos do 25 de Abril, em Almada. Entusiastas da numerologia, calma. Mas assim foi. Doravante não estarei particularmente preocupado com todos os factos, como os nomes certinhos dos filmes e do elenco, porque me preocupo apenas com a Verdade sobre este tema muito concreto. Também não me parece interessante indexar com as palavras-chave apropriadas um texto desta natureza, como se eu fosse um dos "king-makers" à la Público, aprovando ou recusando os filmes como um Senador pesava a vida dum gladiador derrotado. Portanto a minha primeira palavra sobre estes filmes é de encorajamento aos jovens realizadores que fizeram curtas metragens, participaram nelas ou ajudaram os amigos. Qualquer produção artística é um empreendimento movido por dinheiro ou pura vontade, e todos sabemos que dinheiro e jovens... Enfim, isto não é uma crítica social.
Outro assunto que irei evitar sempre que não for pertinente é a componente ideológica/temática das obras. Sendo uma celebração do 25 de Abril, todos os trabalhos derivavam deste tema, partindo sempre dos pressupostos tradicionais do que foi a Revolução, muito em linha com o que aprendemos na escola e na faculdade sobre a data. Como muitos poemas já existem neste blog a ponderar esta questão, não perderei mais tempo com isso.
Absolvendo-me já com esta nota introdutória, deixem-me explicar um pouco do que se tratava esta sessão. Um velho (dito doutra forma, um realizador experiente) recebeu dinheiro grátis (foi patrocinado com uma verba designada para incentivar a arte e a cultura) dos seus amigos (do departamento cultural do município de Almada). Este senhor delegou então a parte essencial (fazer filmes) para cinco jovens e ocupou-se de coordenar os cinco realizadores escolhidos juntamente com o resto do staff. Na prática, o que vimos foram cerca de duas horas de curtas metragens, separadas por vinhetas escandalosamente kitsch a que chamavam de "micro-fábulas": texto corrido em cima de um pano de fundo que parecia efetivamente um pano (pano, tipo trapo), fonte próxima do comic sans e um voice-over daqueles que aprendemos a não fazer nos clubes de teatro do secundário. Primeiro, fábulas são animais a falar. As histórias eram pequenos trechos a descrever cenas humanas, pseudo-poéticas, como "a mulher pendurou as chinelas nos ramos da liberdade". Segundo, as intervenções apareciam como intervalos entre os filmes, e quase todo o público (correctamente) usava estes momentos para trocar uma ideia ou mandar uma mensagem. Era como se na Balada de Buster Scruggs as curtas fossem separadas por cinco minutos de citações e reflexões sobre a guerra civil. Quebra o ritmo e as pernas ao filme que vem a seguir, encaixota-os antes da primeira cena.
O terceiro ponto não está totalmente relacionado com estes separadores, mas sim com a sua apresentação. Antes da sessão começar, o realizador muito experiente fez um "pequeno" monólogo. Apresentou o filme, detalhando o conceito, as temáticas abordadas, a metodologia que ele empregou, o objectivo dos trabalhos... Assim que ouvi a expressão "cadáver esquisito" em francês fiquei a saber que estávamos a lidar com um professorzinho e não com um artista. Pobres realizadores! O grande porteiro cultural a fazer do talento circo de variedades, numa sala grande e digna como aquela. Serei ingrato por achar que seria tão mais fácil simplesmente dividir os recursos em 5 e deixar a malta fazer filmes? Os jovens realizadores aqui cumpriram muito bem o seu papel e mais ou menos ignoraram o tema. Por muito que os "poemas" tentassem puxar a gravidade para as árvores antigas e os cravos pensativos, os filmes foram para ficção cientifica e contemplações íntimas de pessoas bem reais. Houve excepções, mas na maior parte dos casos foram bem mais longe do que "Os 50 Anos do 25 da Brile" TM que nos foi empurrado garganta abaixo com os interlúdios penxativos e a auto-crítica ao início.
Gostava de passar aos filmes, mas infelizmente houve mais palha. No inicio e no fim da sessão tivemos uma saraivada de entrevistas estilo "talking heads" clássicas. A ideia foi no inicio ter os idosos da altura da revolução e no fim os jovens e as crianças, que viveram distantes do sucedido. Como o tema sugeria, perguntavam às pessoas o que eles entendiam por "palavra", i.e. "liberdade", "democracia", "veludilho" (okay, esta talvez não). Para alem da parolice que mais parecia saída dum programa da Fátima Lopes, aquilo produziu em mim uns quantos efeitos frustrantes e aposto que não-propositados. Falando das partes boas, admito que tem a sua graça observar algumas expressões mais cândidas da população. Do povo certamente podem sair as melhores virtudes e lições. Mas compete ao realizador capturar a essência da coisa ao invés de pô-la simplesmente entre a parede e o boom-mic. Mais um ponto positivo: é sempre agradável ver crianças agir naturalmente. Imprime um certo optimismo saber que ainda se pula e se anda de baloiço na nossa margem.
Como se percebe, esta é uma crítica ao evento e não aos filmes. O trabalho dos jovens artistas (estes sim dignos do título) foi esforçado e digno, especialmente tendo em conta a notável limitação no budget. Das cinco obras, gostei sinceramente de duas. Uma delas abordava o tema na óptica dum espaço industrial abandonado, os antigos estaleiros da Lisnave. Ex-trabalhadores sobrepunham os sonhos idealistas da revolução com o desfecho decadentista do seu passado ofício: uma carcaça abandonada, estacionada à margem sul, o chão comido por destroços e lixo. Ouviam-se os passos dos protagonistas, que enquanto contavam o seu passado, estilhaçavam o vidro no chão. A fotografia era bela e fazia bom uso da amplitude e da ambiência do estaleiro e do seu exterior. Sou parcial, pois gosto desta sensibilidade do espaço como um interveniente, mas é inegável que esta curta estava milhas à frente de qualquer conceito que o dinamizador desta sessão tinha na sua cabecinha antiquada.
O outro filme que se destacou tinha uma abordagem quase confessional, e pouco ou nada quis saber do raio da caixinha onde se inseria. Focava-se numa íntima exposição duma personagem feminina em diálogo com um antepassado, a iluminar-lhe o caminho perante as ansiedades da vida contemporânea. A imagem era cândida, muitas vezes filmada com a camera do telefone. À exploração em POV de espaços urbanos e noturnos sobrepunham-se visões nítidas do espaço natural, do mar, do céu, das rochas, pontos imagéticos que serviam de pilar para uma mensagem assumidamente optimista e sábia, como se a natureza se apresentasse como um bastião de segurança intemporal perante estas afrontas aos espírito tão presentes e quase inéditas. O voice-over, aqui bem feito, registava uma pequena nota de advertência, de zelo. No fundo, uma demonstração de amor intergeracional que serve como uma bússola num 2024 filosoficamente materialista, difícil de navegar com a alma. Para além da mensagem cuidada e, acima de tudo, genuína, nota-se também a preocupação da realizadora em manter uma estética contemporânea, inteligente e pessoal.
Não falarei muito sobre os outros 3 filmes. Foram exercícios interessantes e certamente uma boa base para uma aventura mais bem estruturada. Não era fácil escapar da redoma miserável onde eles foram postos. Criticar de forma áspera o esforço destes amigos compete aos seus amigos, não a um blogueiro anónimo no canto refundido da internet. Não posso, é ingrato para eles e mesquinho para mim. Mas encher um texto de brasas, queimar o organizador da sessão? Isso sim, tanto posso que o fiz mesmo!
Dedico esta experiência aos poucos gatekeepers que percebem que o seu papel é criar espaços onde a arte floresça, não impor circuitos radiantes com a sua cara no centro. Capiche, sr. velho de Almada? Já chega de roubar palmas aos jovens. Já chega de instrumentalizar a história para render carreiras ao invés da arte.
rascunho adolescente - Luca na roleta
terça-feira, 11 de junho de 2024
ferro-jovem, poli, esculturas em t-shirt
objecto do desejo, exposto,
seduz à acção na distância irreconhecível
e anónima.
cenas do desenlace quotidiano escorrem entre as paredes finas,
a porta corta-chamas,
as membranas falidas dum blogueiro embalado e ingénuo.
gritinhos e gemidos forçados
num compasso familiar outrora iluminado
agora reluzente e predicado
numa dedicação íntima de plano curto,
cabelo apanhado.
o professor orgulhoso que apela e aplaude
uma bancada de memórias:
pesos, baldes ou ratos,
quando derreter era desperdício
e não refúgio.
ao acaso, sem pretexto,
apanhado pelo espírito como um espirro
mecânico e inconsciente
onde vai? quem se tornará?
a bênção vem da perspectiva
ou do juízo acertado?
instantâneo, imprime uma verdade
Verdade
e dum instinto,
um saltinho peristáltico da vontade,
eis que nada é mais consequente
do que o inconsequente.
mas ambos escondem os olhos num véu húmido,
embalado e ingénuo.
como importa pouco a plumagem!
largado nos ferros, dissolvido na maioria
uma mancha negra e frágil
encharcada do caos que lhe cobre a vista.
imagem fértil e grotesca
certamente inacreditável
mas verdade.
terça-feira, 4 de junho de 2024
titulares do décimo
ou quase, quase-quase
matérias do céu tornam-se
toicinhos-do-céu, bem baratinhos
no mini ou no pingo ou no líder,
pago para que te sentes ao lado
do contentor da roupa humana.
lente suja, amigo afastado,
estórias do tempo
herói da savana.
sábios
prudentes
tudo em um,
arisco e arriscado
certo do destino
preparado para tudo.
assim valeu para ti
pois, que não sou juiz.
tu chamas-lhe SS mas eu não
participo nas tuas fantasias da ideologia.
morre
feliz e medicado.