segunda-feira, 30 de setembro de 2024

confissões

agora que fechei a porta de que falei tantas vezes posso reflectir em voz alta, pensar com os botões das camisas todas que me deram. é, mesmo mesmo. mesmo mesmo mesmo. três vezes, como a bênção. duas, como o par da vida plena. o teu nome, marca do destino no notário. amor, como pode, não é? fugi do que me ligava àquilo que parecia seres tu, mas em verdade um espelho maquilhado e projectado, por ti e por mim, respectivamente. eu nunca posso confessar, porque cada passo é riscado e traçado e só na verdade do veneno que me vai jogar à cova consigo admitir. foram os teus olhos, primeiro. ironicamente, foi na incompetência inocente de não saberes o que fazer que me agarraste pelo único olho que vê. há algo mágico na incapacidade de fazer o que se quer, ainda mais em tentar algo que não é suposto, como uma prego que para a pista. ilustrações mal amanhadas, que percebeste com a idade, tudo jogado fora porque és inteligente. isso levantou-me ainda mais o espírito. puxei da caneca do meu cunho e dum vinho barato e bati muita tecla que nunca tive coragem de meter aqui. é meio verdade. costumo ser transparente, mas a convicção que algum dia lerias as memórias deste traste fez-me esconder algumas imagens em leitura difícil: como eu disse, "em nome do teu nome" ou as "figurinhas que me guardam o couro" (ou algo que se assemelhe, não estou em condição de ir reler isso tudo). puxei outro cigarro, dei mais um golo. puxado, pesado. o meu único amor depois... ainda não me cabe coragem, pra ser honesto. mais um golo. se calhar cabe. o meu único amor depois da joana. pronto, tá dito. não é preciso ser bruxo, especialmente se leres este canto. sois quantos, quatro? sete se eu tentar? e todos sabem. se calhar melhor que eu. a verdade custa em texto e ainda mais dentro desta cabeça chata. para que conste, eu tento. eu tento e tento e tento. haha, percebes? eu numero as coisas a toda a hora, e meto duplos entendimentos a toda a hora e rezo que alguém entenda e diga algo a toda a hora. e pesco do passado, como se fosse um grande plano. mas não é. o grande plano compete a Deus, maiúscula única neste blog. mais uma confissão, mais uma pista que vos deixo. o espírito e o erótico jogam dentro desta alma depravada a toda a hora. uma dinâmica complicada, porque pensa bem: o meu desejo é fruto de um corpo sedutor, da beleza que apraz a partes que não controlo. pouco intelectual, pouco poético (nem por isso). certamente nada fruto dum espírito transcendental. em contraponto, um elogio, quiçá barato, sem dúvidas autêntico. casámo-nos em espírito antes de saberes o meu nome. um amigo suspeitaria que isto é parte do meu narcisismo adolescente, uma crítica verdadeira e honesta como poucas. cabe-me fazer esse juízo. ele teria razão se soubesse, mas eu sou parte do meu próprio rumo e as palavras declaram as pisadas que largo pelo chão. és tu, filho de yishai. bom amigo, vizinho do pecado e pessoa que perdoa. os sinos cantam pelos céus e não por mim, bem sei. uma das grandes lições que me deste na esplanada. contraponho com uma parte, que no desenho do futuro a estrutura nasce do meu projecto, em parte, conforme a vontade Dele. aceitamos ambos, mas agora preciso muito dessa crença. amor amor amor. filha dum autor. posso ser mais óbvio? posso ser mais claro? debochando do destino, escondo-me. sois um casal capaz, aquilo que idealizo. e censurado fui, e devia ser, por isso. quero ser mestre do destino. feiticeiro com a palavra, quero que o mundo se vergue perante a minha vontade. pelo menos nos pecados que sei, não serias vítima. promessa perigosa e imprudente. celine. pronto, disse. fica disfarçado na minha confiança que ninguém lerá isto até aqui. é um palpite bem sólido, na verdade. mais um golo. tantos antes, senão nunca teria coragem. o teu sócio teria toda a legitimidade em vir a este prédio miserável onde vivo e pegar fogo ao cheiro a gás que se sente logo à porta. eu faria o mesmo. se calhar acordo com a goela exposta, sangue do meu erro. chamariam justiça, mas meio que desejo um destino assim. cinemático, estético. um fim digno e sem culpa (porque não me joguei duma corda, inimigo sempre presente). levem-me à igreja de que fujo, católico barato e de imagem. queres amor e com Deus, que o oferece, aceitas como um remendo. relendo escondo o teu nome. seleciona o texto e verás, é uma estupidez. só não quero ser fotografado em texto. por mim leem três: eu, tu e o branco. ele porque me entende, eu porque leio sempre isto tudo mil vezes. tu porque és o meu sonho maior. uma poeta, sensível, filha e mãe capaz, à espera. Ele olhando de cima, que aprova, claro. não a esta prosa. desejosa e rancorosa prosa. texto de vinho e solidão. como sempre. vimo-nos uma vez, uma coincidência à qual já agradeci muito. meti-te em três lugares: na vontade, na coluna e no dinheiro. desejo, gato e galo. a minha mão no teu queixo, um olho fitando dois, injustiça material. o meu desejo na mesma. queria dizer o teu nome mil vezes. posso esconder de tantas formas, e assim faria, queria tanto que fosse honesto. é, no desejo e no tempo eterno, mas compete-me proteger-me e proteger-te. sou um hostil obstáculo numa vida feliz e estável, incapaz de aceitar o platonismo em mais do que um nível. toca uma música pop que me fala de espresso. mais um golo, fala de nintendo, e mais uma memória de ti que não tenho. acabou o copo. encho-o a meia, como o investimento que faço neste plano. sendo demasiado zeloso, o retorno será igualmente conservador e inconsequente. pelo menos uma mão cheia de poemas, isso ninguém nos tira. estou certo que consto aí algures, nem que seja pela parte podre. e o reverso, ainda mais. e pela parte boa, claro, porque sou superficial e és linda por dentro e em fotos e em rasgos de memórias que cobri com whiskey. eu sonhei com a outra hoje. era uma bruxa a agoirar um retorno com o meu padrasto. isto é o dia a dia. a minha mãe reprova. mais um golo. ela sabe lá. dei-lhe tantos perdões que nunca cantarei. as pessoas que deviam saber são as que eu quero que leiam este... poema? confissão? tu, eu, o daniel. os outros três, a tropa de labutes e de queluz, carregam uma inocência que sentimos os três. não merecem este peso injusto dum autor dúbio como eu. farão certamente parte dos sete. talvez Ele os proteja desta mensagem. se não, em honestidade, já terão sofrido com as consequências. carregado o meu corpo drogado e inconsciente por ruas perigosas e desenhadas da cidade. todos anónimos no comum do seu nome, filhos honestos da nação. daniel, sérgio, martinho, serafim. e nós, exóticas flores da vida. costa e celine. o nosso nome junto parece surreal, um sonho que eu gostava de ter. mas a mim só me competem casas babilónicas e triplos significados. sois honestos, sois verdadeiros. amigos de verdade. eis a minha pequena homenagem, afogada em tudo que me sai do cepo. amanhã serão mais dois, a seguir mais um, e no desejo perco-me entre mulheres sedutoras que aceitam a fraqueza do meu espírito. não precisavas de nada, o dinheiro é uma manha que eu entendo. seriamos nós, tu no desespero dos meus traumas, salva do acervo dum burocrata qualquer. nem eu sei se aceitaria essa proposta. mas joguei o teu nome contra o meu, em honestidade. talvez em cobardia de saber que ninguém virá até aqui. destino, escolhe-me. destino, faz-me teu filho heroico. compete-me ficar numa trincheira, sou duro como as rochas que o vento tornou em terra. se isso não for possível, faz-me pai de filhos. eu amo animais e crianças. e por esse desejo quase que se torna óbvio que não será nenhum. somos a maioria, a geração solitária. os novos filhos do comboio da meia noite. sem rumo, história longa. batendo prosa, tentados todos pelo físico duma princesa, filha do amor, que badala entre a prudência e fantasias do futuro que é consequência do fácil. como todos, mas com menos desculpa. eu penso muito nestas coisas. o meu pecado. uma pessoa disfarçada de pessoa. mais um golo. vinho barato como a renda e como a rua, traças cobrindo a parede, à espera que eu desperte. matei milhares. matarei mais? é possível. um homem sozinho, fugido em vinho, só presta para a linha da frente. serei um corpo a caminho, um pedaço masculino que serviu o seu ponto. Deus que me receba. assim quero, nada seria melhor. tirando ser um par contigo. e ser absolvido pelos meus quatro amigos. meus amigos, daniel, sérgio, martinho e serafim. meu amor, cujo nome está escondido algures num bloco de texto inútil como este. e o outro, malvado, antigo, que me assombra todas as noites e tardes. 

p.s.: fui obrigado pela vergonha a retirar o texto, originalmente publicado no final de setembro. agora republico com os nomes todos aldrabados, muito mais sóbrio e tremendo as chinelas. 

serra de arriba, tiros de baixo

o monte e um bico-grossudo atrevido
destemido em pouco mais que meia hora
os três capangas, os herdeiros desta barraca
abandonada e coberta de lagartos, largados
ao que sobra do lixo duma trupe de carochos.
o meridiano cruzando-nos o peito
o sinal da vida, o sinal da cruz
ha ha ha
abençoados, crendo
apadroado dum destino
que escolheu pela arte.
ha ha ha.

talvez seja um rasgo da prudência
desmanchada em chuva e algo
como o álcool ou ser minguante
perante a lua e a mata, arruma
a caruma, cisca a ave essa alma
vazia e roxa.

mais uma noite
mais uma
noite
as estrelas entre as linhas e entre os postes
escondidos do sol e dos bosques
que apelam à vida pelo que precisa.
sentes o que vem?
sentem o que vem
de ser o que vem?
o futuro, nós
as pegadas da troça debruçadas no que resta
do espírito que chamamos de alma.
traço, mais um,
corpos mortos da guerra
que sentes na espinha
e escondes na rotina.

15 minutos

recordas-te quando era antigo
o tempo dos cantinhos, no recreio
que te escondias entre os blocos
a amizade provável, os desejos
da adolescência, os montinhos
colinas de conquistadores e heróis
os miúdos do agora, nós, de fora
mas no todo, o equilíbrio que a idade
desmontou em vinho e costumes 
brandos, dizem eles, duros e 
manhentos como uma rebeldia
que virou certezas imprecisas
da era, do ser e dos tempos.

palavra gasta, o intervalo que espera
brilhava na aula de boca certa
e pingando o saber com a intuição,
raro em disciplina, um traço genético.
ensinou-me a amar e a ser a forma duma coisa
que a gente chamaria de algo, pessoa
lacerando voz à toa, ritmos
que nas mãos mostravam um talento
que atirámos ambos pelo ralo.

encandeiam-me as luzes deste sonho
o fogo posto no mato, brincando
às escondidas e ao apanha.

vai um golo, tamos next
primeiros com primeiros.


padrasto

na toca filho e pai emprestado
acende um cigarro, o canto da boca
salivava do conforto da visita
a vista era frouxa, filha de feiticeira
a voz combinava com as cinzas
e a nuvem que se aprontava nos cantos
pai emprestado, uma figura doente
um buraco na terra o espera
e esse buraco não tem fundo
para quem finge que não vê.

tampas em estanho sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

rodopia rodopia, o acervo das marés
uma mulher de ancas vivas e o filho de visita
acenando
mais uma centena de fulanos, todos em bate-pé
descendo as ruas em carreira
trato como um auto de fé.

cómico e cómodo, excepto nos sapatos.
os pombos dançando por cima fugiam
do caos e do ruído, a timidez o seu viés.

pregos na estrada e uma obra parada,
à esquerda a meia idade aplaudia 
vendo-nos lavar as suas mãos
sujas e tocadas do perverso e do conforto.
fossas, capelas, tuna sammy for a thirty
umas com ar de donzelas, outras com ar de vexame.
chumbei no exame e o ar estourava nas velas
enquanto mastigava a língua depressa.

também nem sabia canções, o assobio do mundo
não me caia na poupa, coberta de musgo
e escondida da história
uma filha,
a ilha do canto profano.

rodopia rodopia, o chantel duma descrença
peças em barro uniforme e uma tesoura de papel.
rodopio rodopio, sou mais um filho da mãe
quando vimos o mar baixo
quando o cruzei em bagaceira:
sentado, em pé, andando, em pé, ouvindo, parado, sentado.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

quintais entre espécies e a manhã de sexta-feira

as amarras vão-se soltando lentamente
das estacas desta tenda
a humidade enrugando-lhe o sintético
outubro na goela, pressionando à acção
pelo ar rarefeito do espaço enclausurado.
no jardim oitavo, deitado e bombarda
os miguéis da minha vida, uns certificados
e os outros em placas. iguais no registo
da memória, são considerações
matinais, como um bocejo
ou o sonho com os andes, descrito numa pauta.

ponho ordem, sento-me no chão de terra
esfriado como onde moro,
o amarelo nas paredes e nos dentes
e olho para a serra, a missão por cumprir.
é com vagar que a névoa sobe
eu sigo-lhe as pisadas com timidez
fervo a água que o ajuda
um coador, o vapor, 
o grão moído que fumega 
e o cheiro conhecido
mais um início de jorna.

a obra incompleta, rasgo laranja na cabeça
será chuva e serão quente, misturas alquímicas
de plantas lembranças e do cenário.
passeriforme, a vizinhança em melodia
por cima de carros e tratores e os gritos
das pessoas que nos fitam com suspeita
a siringe como a vida, em mim dedos e teclas.
são as medalhas doutra era, fósseis do destino
poupados na fé e na persistência do contínuo amanhecer
a evidência, a meta, a única coisa que importa.

descartei o passador e com o silêncio cá dentro
é a hora da muda. as borras pelo chão, comida
que brota para vós, filhos do futuro que persiste
assim como nós, que contamos as fibras
das cordas que estouram.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

o lar nos anos 20

teto, abrigo, o mar a respingar
nas arcadas de um tasco, o meu lar.
quebra a onda contra rochas
num jantar à luz de tochas
o dilúvio desta era, um desgosto que debochas.
pudera, foram mentes, caveiras
e a opinião de charneira
são retalhos na manta da fera.
espera, a virtude alcança
uma mão que descansa
e a outra no cutelo, matança.

fastiento e sem pudor
o ardor da falta de tento
jogam-se todos ao vento
e permanece a dor.

casa minha, para que te quero, senão para me esconder?
casa tua, onde a queres, senão em contramão?
nascer, viver sem crer
crescer sem nascer,
uma só vez.

marcha a prole pelas ruas e fala e fala e fala e faz e faz e joga e joga e dança e dança e mata e mata e morre.
o lar que reclamas são as paredes que nos trancam
nas correntes do crime e do castigo.

percebo e percebo
e concordo pelo sebo
que escorro pelas botas
salva a vida do acaso
por uma mão cheia de vigotas.
todas plantadas pelo outro
bateis o pé eu bato o couro.

casa minha, para que te quero, senão para me esconder?


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

palavra & permanência

massagens no ego, malícia composta
da ignorante imprudência de se achar pertinente
ei-lo, no jusante, esperando que caiam as gotas
como folhas num outono da cidade
o chão pegajoso
temperamento perigoso
as barbáries da espécie.

é a faca nos dentes, com um sorriso sonso
bicho de ares, espelha o nada quando nada vale
tudo pode, das poucas vezes que brilhou.
tampa em alumínio, ferrugem da ausência
foi o descarte fugaz, brilhantina da memória
posta em causa numa lupa, encarnada
encontrada e com os indicadores roxos.
a raiva e a ira, pergunta e resposta,
a cabeça exposta ao céu nublado
e chuviscando no império em terra.

deambulando segue a linha, entre carícias
e encontrões, desconfiança que brota 
da consideração que vacila
no momento que precisa.

três sermões, se é que posso
bisquei o poço lamacento
um perfeito que lamento no deboche
tirando a capa que sacode
com o vento no regresso.

trepadeiras morrendo em verso
contornando um vidral antigo, baço
raso, crasso, craveira incerta
e una apenas em si.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

fora da mesa

despimo-nos num sonho cedo e curto no quitinete do meu pai
uma janela, o cinzentão, mesa redonda sem toalhas nem rodeios
descansavas no leito que algures na memória foi o nosso
branco e sujo que esconde nas mantas a adolescência, os ais
de estendais e bandeirinhas, sexo nação e umas galinhas
brisas na fresta entre o pecado e a tentação, agora guardando-me o couro.

uma sala-cozinha apetrechada com saudade e vontade
misturamos a sede com a fome, explosivos corroendo
a resiliência duma porta bem fechada, trancada noutra dimensão
um senão, sois a minha animação e talvez por causa disso
faço furos no resguardo e penduro tantas faces
quanto as que consigo convidar.
o convívio, uma conversa amena e banal
sem te levantares trago-te a marmita meio morna
mas duvidando dessa escolha ofereci-te uma fatia
da minha, que rejeitaste porque preferes a tua.

em menos duma hora acordo só e tressuado
cansado às cinco da matina, a cama feita sem coberta
esta casa nem existe
casados de auguro e esferovite.  

cantiga de setembro

a paixão pelas sombras
tem o seu pico no poente
e o meu trajar doente
compras pela sucessão.
é o enlace do encanto
pôr o anel na tua mão
mais um sonho inconsequente
nem na manhã fazes de santo.

é que tanto quanto sei
vivo os prazeres de um rei
mas não vejo bem de onde
pois que a riqueza esconde
o que hei de desejar
n'sei, uma família um lar
ou o manjar da terra santa
é acordar que o galo canta.

troca a fronha e vira o disco
e o isco lançado, contraponha
chamas a isto escolha
numa manhã de terça-feira
fiquei de cama na ronha
na beira rolha e garrafa
o cobarde de castigo
certo que agora se ponha
no caralhinho que o acolha.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

cavalo sem trilho

sensato em observar que no deserto 
não se nomeia nem se registam histórias
é preciso mais que um
e as vozes da noite suspiram um caos inconsciente
que fica ancorado no desespero da solidão.

viagem longa, compadre velho
em tempos como numa casa humilde
cujas paredes rugosas do tempo e da chuva
guardam segredos felizes e histórias da juventude.
sem memórias é apenas uma ruína.

as pegadas do rancor trilham o caminho daí
até ao sol quente e ao fim dos tempos
(agora)
passadas passadas do passado
ateadas ao fogo pelas estrelas e pela loucura.

cada grão de areia uma conquista
impar nas origens parcas do esqueleto
a miséria, os insetos, pequenas formas de vida
sem maldade, só confusas, mas em paz
reino amplo e jovem.

como as cobras, desmancho a pele que habito
renascimento ou escaldão, a vista encarnada
dos raios que o claro devolve de baixo.
como as cobras, que também sou de carne
e osso, não devo temer o veneno na língua.

quatro caminhos a céu aberto rodando como uma mistura bem feita:
a sul, o passado que guardo em lágrimas
a norte, de onde vinha e de onde chego
a oeste, as ruínas e os seus fantasmas
a este, a imensidão da estrada, o caminho infinito. 

rodando, procuro subir 
sem nome nem coisas
nem memórias nem conquistas
só a paz que fiz bem
ou o melhor possível.



sexta-feira, 20 de setembro de 2024

ilha-terapia

morto vivo ou medicado
um pedaço de pessoa estirado 
nos braços de uma mãe alheia
a clareza do argumento suspensa
submersa em ouro e cristal
líquido, puxados do sal da terra
eu, uma poltrona branca numa clínica
com sorrisos agarrados à cifra.

trocado, agarrado, traçado de enxofre
e cinzas, rugas que brotam da alma
e pintam-me o corpo com a idade
as termas do zelo borbulhando.
uma mensagem na garrafa
parte desta ilha, com cheiro forte
uma promessa que faço, numa palavra
fraco 
o desenho dum sorriso decadente 
estampado em vincos atrás dos olhos.

menti menti menti
sem ti e sem muito, corda amarrada no poste.

desperta, um pequeno divã acorrentado
à resposta, ao retorno, uma mancha de areia
no sertão de mar e sal, atlântico 
como os tempos da luneta, lente riscada
a pega podre de escorbuto, púrpura
a realeza dum senhor guardando a terra
e o palácio-solitude. algures
um mapa dirá o caminho.
fim da minha hora, o sol posto
e morto, afogado,
pago o pecado, seguro cobrindo.

o revolucionário

acorda, cama coberta e limpa
as figuras transmutando pelo sistema
incorporando em si a revolta
do revolucionário.

levanta-se, vista cansada do ontem e da manhã
o vazio pairando no teto do quarto húmido
o vazio cortando a luz que entra pelas brechas da persiana.
acende um cigarro ou um charro ou um charuto
acende os neurónios ou a vontade ou a volição
que nega no nevoeiro composto de nada e algo.

horas passam, a metalicidade do que é inabalável
lentamente corroída pelo tempo, é relativo.
procura na marcha um encanto, uma meta
tudo sendo como é, o suposto um mero sonho
ou embuste duma crença.

foge o fumo do quarto na sua ausência
pela folga entre chão e porta
e entra-lhe pelas narinas impuras mas jovens.
o tráfego cantando as suas melodias atonais
o tráfico balizando o desespero intemporal
um tubo de escape em ambos.

sendo bondoso é uma acção involuntária,
no cinismo, uma dança bem presente
que só me custa compreender.



quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Rascunhos II

Recebi a bola. Não sei o que levou o mister a pôr-me aqui à frente. Sou defesa, foi ele que me descobriu a posição. Treinei para isso. A resistência nula, a ocasional explosão de velocidade, muita antecipação, passe rijo e sem magia. Atributos típicos da defesa, mas um par de pés esquerdos num número 9. Talvez a retidão do meu controlo seja útil para não inventar demasiado ao ataque.  Pouco importa, compete-me fazer um trabalho digno. Sou eu ou estaremos sem ponta, mesmo havendo um natural no banco. Coitado, ele já não aguentava, a verdade é essa, e não havia muita escolha entre mim e os rapazinhos do meio, baixos e velozes. 

Olho em volta, vejo o 10 a abrir pela minha direita para fazer o 1-2. Os meus passes podem ser retos mas não são assim tão precisos. A defesa deles está motivada pois sabem que conseguem ganhar a bola com uma pressão forte. O desafio está em conseguirem fazê-lo cedo que baste para não estoirar o que resta da energia logo numa jogada. Como previsto, o gajo pediu bola. Um central e o lateral descem contra nós em velocidade, mas se o meu passe sair na profundidade certa o meu colega chega lá antes dele. Não deixa de ser um passe arriscado. Ouço o meu trinco a arfar atrás de mim, criando linha pelas costas. Se o ala subir o mais aberto possível, eles conseguem fugir por ali. Nem sequer o estou a ver, mas seja o que Deus quiser. Recuei a bola de calcanhar sem olhar, qual Neymar do Alto da Guerra. O Pedrinho recebeu bem e mandou um jardão pela direita, bola bem jogadinha. Infelizmente o lateral deles percebeu o nosso esquema e foi-nos pressionar ainda estava eu a vangloriar-me do passe fabuloso que fiz. Karma, diriam alguns, mas eu não acredito nessas coisas. O defesa intercepta a bola e desvia com o peito para fora. Seria aqui que eu tomaria o meu fôlego e recuaria lentamente para a linha do meio campo. Lamentavelmente para os meus pulmões, hoje sou o avançado. Vi que o ala se preparava para um lançamento rápido e tive que correr pela vida até à entrada da área. Ele lançou a bola alta, apostando na minha altura, uma boa escolha. Dei-lhe um toque como quem desafia um compadre na sueca, levantando a cabeça e jogando ligeiramente para trás. É o segundo recuo que faço e só toquei duas vezes na bola. 

O nosso defesa que devia ter recebido e devolvido, já com a vista toda cinzenta da estafa, atrapalhou-se e um miúdo da equipa deles foi-lhe lá roubar a bola. Saiu em velocidade pelo meio e ninguém nem uma falta conseguia meter. Eu teria conseguido. Mais, nem sequer teria perdido a bola. Quero dizer, fresco como estou agora. O cansaço extremo é o meu pior inimigo, e é por isso mesmo que só entro no fim do jogo. Suspeito que duvidava mais da decisão do treinador do que necessariamente da competência do meu colega. Nenhum desses pensamentos é útil agora. Não estou acostumado a ter tempo para pensar quando estamos na iminência de sofrer. 

Um contra um, frente ao nosso grande redes, o miúdo mandou-a alta, fora e longe. Os defesas da equipa dele fizeram uma careta ao mesmo tempo, até eu senti-lhes o vento do suspiro. Faltam 15 minutos para acabar e ainda ninguém conseguiu meter uma que seja lá dentro. Isto não é comum na nossa divisão: ou estamos todos a ser estrelas, ou está a ser um jogo particularmente miserável. Pela cara do público, que está maioritariamente concentrado no bar, diria que é a segunda. O pai do Veiga está a ver o jogo da linha contrária aos técnicos, mas isso é só porque ele quer criar confusão com o árbitro. Hoje tem estado calmo, possivelmente porque ainda não sofremos golos. Tenho que ter cuidado com o fanatismo meio bêbado deste homem agora que estou cá à frente. Normalmente jogo no centro com o filho à defesa, e em casa não há partida que não seja maioritariamente este senhor ali ao nosso lado aos gritos com tudo que seja possível: chamar nomes à arbitragem, recomendações táticas, uns grunhidos que servem para nos motivar, chamar nomes às mães dos adversários, ralhar quando os nossos avançados falham golos, chamar nomes às mães dos árbitros... e se a bola cai-lhe perto, nunca se impede de dar uns toques, meio embananado, que acaba com o esférico no proverbial quinto do caralho. Eu até aprecio o senhor, deve ser o único que poderíamos considerar como claque. O resto fica ali nas mesas do café, à espera que o jogo acabe. Sei que faltam 10 minutos para o fim mais rapidamente pelo fumo da churrasqueira do que pelo relógio eletrónico.

Todos os jogadores em campo estão exaustos, o dia seco e quente é certamente o grande vencedor de hoje. Ouve-se o pai do Veiga a gritar uns impropérios lá do fundo, o barulho da estrada e os velhos a amanhar os sacos de carvão. O nosso redes demora a por a bola em jogo, dando a todos uma oportunidade de apanhar ar calmo. Vencer foi um par de segundos para descansar.

A verdadeira história do Euro 2008

Ao início era o Euro 2004, um filho meu (Deco) e do Ricardo Carvalho. A ideia era simples, responder à indústria carreirista e chupa-pilista com uma magazine verdadeira e sem qualquer tipo de influências externas, como dinheiro, fama, acesso, drogas ou qualquer outro tipo de subornos e patrocínios. Via-se que até na menor publicação com algum alcance um desses cancros se esgueirava inevitavelmente, criando barreiras de entrada que para nós eram escandalosas, principalmente quando falamos de uma forma de arte que se democratizou tão rapidamente com a ascensão e massificação do computador. Surge então o Euro 2004, como tantas outras, fruto de alguma inocência e ingenuidade da nossa parte. Não deixava de ser nobre por isso. O meu papel era de crítico, e o Ricardo Carvalho escolheu a trupe e fazia reportagens.

Antes de prosseguir, uma nota sobre nós. Conhecemo-nos à pala do João Moutinho há muitos anos atrás. Eles amigaram-se antes de os conhecer, em eventos de música. Nessa altura ainda estava muito longe desse meio, mas já escrevia. Fui crítico de videojogos, eventualmente jornalista, e forumeiro batidíssimo. Cultivei os meus gostos de forma insular, e cheguei a um ponto de convergência com o Ricardo Carvalho que nos fez clicar à primeira vista, tornamo-nos bons amigos imediatamente. Também eramos ambos estupidamente pobres, o que criava ali uma solidariedade implícita. Com o passar dos anos, ele com uma bagagem muito maior que a minha, fomos cultivando as nossas identidades à volta da cena musical. Eu preocupado com o agora, ele com a história. Personalidades e sensibilidades complementares mas bastante distintas debaixo duma lupa. 

Naturalmente, aquele primeiro impulso criativo não tardou. Eu comecei a mexer mais com o PC, aprendendo os básicos da produção com uns fones de 15 paus e o computador da minha mãe ("da casa", dizia ela). O Ricardo Carvalho foi sempre muito investido em participar no que quer que seja, mas muito raramente (até hoje) embarcou no processo de criar. Pelo menos que eu saiba. À medida que dava os meus primeiros passos como criativo, ele abordou-me para arrancar com o Euro 2004. Nas suas origens, era pouco mais que uma página numa rede social que entretanto já está em vias de extinção. Fazíamos daquilo um depósito de links do Youtube com música obscura, recém-lançada ou não, no máximo a ocasional posta de pescada com uma opinião qualquer. Com os nossos chegados todos seguindo a página, vimos um pequeno crescimento pela primeira vez. O logotipo feito pelo meu bom amigo Quaresma aguentava-se na janelinha da foto de perfil, as nossas recomendações contaminavam os feeds dos nossos amigos.

Entra o site. O Ricardo Carvalho com o tempo foi recolhendo uma grupeta para nos ajudar a levar o Euro 2004 para o próximo passo, e investimos em algumas pessoas com vontade de escrever e também experiência. Embarcou também o primeiro (e quiçá o único) vilão desta história, o Pauleta. A ele competia ser meio que o gestor do site, encarregando-se inclusivamente da parte mais informática e dos custos do servidor. Relembro que eu e o Ricardo Carvalho éramos estupidamente pobres.

Agora, com uma cara bem oficial e toda uma equipa de jornalistas, críticos, fotógrafos e tudo que era preciso, a coisa cresceu e bem. Mas nem sempre crescer é bom. Tirando o eventual texto épico (em extensão) do Petit, a página focava-se cada vez mais em cobrir a "actualidade", especialmente a cena dos concertos do país. Notava-se também um certo viés para certos tipos de Rock em detrimento de... todos os outros géneros. Não liguei e não ligávamos, creio eu, mas isto levou-nos a um certo afastamento do projecto. As postagens crípticas de links no Facebook começaram a ser reprimidas por serem pouco "profissionais". Eventualmente os meus textos deixaram de ter protagonismo na página, ficando ali num cantinho de castigo junto das outras coisas mais interessantes. O Ricardo Carvalho já só cobria o pontual concerto a que mais ninguém ia. A nossa dessatisfação e perda de controlo começava a aumentar exponencialmente.

O clímax não tardou. O Ricardo Carvalho apresentou uma crítica a um disco de Kuduro (mainstream) que foi simplesmente rejeitada pelo Pauleta, que neste momento já se comportava como o grande manda-chuva do Euro 2004. Isto levou a um grande debate no balneário. Porque caralhos havia o site se tornado numa publicação de Stoner? A matriz original era o ecleticismo e a liberdade total das garras da "cena". E agora, ironicamente, eramos uma revista que cobria coisinhas populares dum nicho ao qual nem pertencíamos. E era tudo branco. Digo: o público, as bandas, o staff e a página. Eu nem gosto de incorrer muito neste tipo de observações, mas na altura ainda não era parte do pensamento colectivo a sensibilidade quanto a este tipo de questões (sobretudo em Portugal). E não deixa de ser verdade.  Quando a crítica de Kuduro foi rejeitada, não me consegui conter e disse ao Pauleta que ele era um racista no armário. A ofensa foi tomada muito a sério e eu fui expulso do meu próprio projecto. O Ricardo Carvalho ainda se aguentou, mas percebeu que o Euro 2004 já não era o que tinha sido, certamente não era o que tínhamos imaginado. 

Afastados do nosso primeiro bebé, agora crescido e uma grande desilusão, partimos para outra. Certo dia, o Ricardo Carvalho pergunta-me "bora fazer outra vez uma magazine? desta vez sem emplastros". E assim foi. Originalmente "Euro 2008 pela vingança", encurtou-se o nome e nasceu o Euro 2008. A equipa seria vencedora, tudo amigos próximos de ambos. Novo logotipo, feito também pelo Quaresma, com um ponto gigante no centro, o ponto que fugiu do Euro 2004. Planeámos uma revista em papel, com separadores feitos na altura pelo Simão Sabrosa. Mas éramos miseravelmente pobres, e coisas físicas custam dinheiro e muito grind. Eis que o Ricardo Carvalho decidiu transformar a revista numa editora de música. E eu compus a primeira edição, e a segunda a meias.

A filosofia manteve-se. Uma grupeta sem chefes e caciques, amigos, e editar música obscura e boa (espero). O meu papel desta vez foi reunir o grupo e efetivamente fazer os sons, nas primeiras edições. O Ricardo Carvalho faria de manager, fazendo uso das sua super-sociabilidade e personalidade carismática para abrir novas portas, fossem elas para concertos, promoção da editora ou recrutamento de novos artistas. As decisões paradigmáticas eram feitas em unanimidade, a comunicação era directa e num grupo desorganizado. 

O primeiro obstáculo foi logo com um dos primeiros outsiders, o Paulo Ferreira. Depois de ter editado o 4º lançamento do Euro 2008, arrependeu-se por um motivo qualquer e pediu para o removermos de todo o lado: da numeração, da página, da "loja". Ameaçou-nos com advogados e tudo. Custou muito, principalmente ao Ricardo Carvalho, que tão cedo via a legitimidade do nosso projecto em causa por causa dum Paulo qualquer que não sabe cumprir compromissos. Acabamos por atender ao pedido e retroactivamente relançar a 4ª edição com outro jogador, o Cristiano Ronaldo. Muito melhor, também. Ficou o assunto tratado.

Depois deste pequeno incidente, o crescimento continuou. Vínhamos já com umas 8 ou 9 edições, uma melhor do que a outra. Os concertos para os artistas da editora cada vez mais frequentes. Mesclávamos lentamente com a "cena" da cidade.  O Ricardo Carvalho era o ponto de contacto de todos com o resto do mundo, e não havia coisa que não lhe passasse pela vista. Talvez por isso o seu prato foi-se enchendo demasiado depressa, e rapidamente percebemos que tínhamos um gargalo aqui, o que limitava o potencial que cultivámos. Começam a surgir as primeiras sementes da discórdia.

Outro ponto de tensão era a continua fricção entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho. Na altura justificada com "o Simão tem alguns traços erráticos", era comum estes dois colidirem fosse por que motivo fosse. Isto criava uma dinâmica complicada, cada bola um traço a cortava. Muitas vezes eram até argumentos compreensíveis de cada lado, mas pontualmente revelava-se que havia um qualquer toque de ego aqui, nos dois. Muito tempo depois soube, pelo Cristiano Ronaldo, que havia um contexto subconsciente relacionado, claro, com um esquisito triângulo amoroso. A vida, hilariante como sempre, desapareceu com esta senhora em menos de nada. Hoje um deseja-a longe e morta, o outro deixou de acreditar na monogamia. As sequelas não desapareceram, no entanto. Atribuo muitos dos problemas que sucederam e o escalar desta relação tensa no balneário a este subtexto manhoso.

Vi-me obrigado a tomar a posição do jogador que me era mais próximo. Primeiro porque partilhávamos uma certa ética de trabalho e uma qualquer visão do futuro do Euro 2008. Segundo, um dos principais nomes dentro da editora era o nosso trabalho em conjunto. Assim, tornei-me meio que um advogado do Simão Sabrosa, geminando numa espécie de dupla polícia bom e polícia mau. Fosse o Sabrosa demasiado impertinente, competia-me mitigar as dores dos dois lados. Não havia ainda uma clara divisão faccionária dentro da editora, mas esta não tardaria a revelar-se.

Entra o mister Felipão, aqui conhecido como Scolari. Vencedor e com um registo quase imaculado, apercebeu-se dos nossos afazeres cedo na vida da editora. É o seu trabalho e o seu talento, diria. Perceber o que é bom antes dos outros. Aproximou-se do colectivo primeiro através do Ricardo Carvalho. Ficou extremamente impressionado com alguns dos trabalhos que já tínhamos publicado. Reiterou a sua primeira impressão indo a um par de concertos que correram bem. De opinião feita, a sua jogada inicial foi ajudar a aumentar a escala dos espetáculos, abrindo-nos portas a casas maiores. Em seguida, ofereceu um meio-que-estágio ao Ricardo Carvalho. Note-se, estamos a falar dum treinador que provavelmente teve debaixo da sua asa uma série de estrelas nacionais, e indo mais longe, agenciando grandes referências internacionais. Uma oportunidade de ouro. Em retrospectiva, sinto que havia muito mais em comum entre ele e o Ricardo Carvalho do que eles achavam, mas a realidade é que eles não se deram assim tão bem. Talvez a falta de disciplina, talvez a falta de noção. Seja qual for a explicação, houve aqui uma pequena oportunidade que estava a escorrer-nos pelos dedos. 

Mesmo assim, o Scolari deu-nos mais um prémio, talvez o maior até aqui: uma grande reportagem em jornal mui nobre e conhecido, talvez o maior do país. Não fizemos capa mas fomos o foco da edição. Nós, a nossa chapa (colectiva e individuais) e um extenso artigo que navegava pelas origens da editora, o nosso contexto e as nossas influências pessoais. Um momento impar na história do Euro 2008. No entanto, a sombra tornou-se cada vez mais óbvia depois deste feito. Na altura demos-lhe pouca importância (considerando a escala), mas olhando para trás não dá para negar que por esta altura já estavam estabelecidas duas claras equipas dentro do plantel. O Scolari da nossa, mas o Euro 2008 da outra.

Devo admitir aqui uma certa responsabilidade. Os meus problemas pessoais, especialmente com relacionamentos, tornaram-me menos disponível e algo distante do coração do projecto. Um lar complicado fez-me uma pessoa complicada no lar, uma história mais velha que o Novo Testamento. Baldei-me a momentos chave, dei prioridade a outros assuntos em detrimento da equipa. Não foi por mal, mas foi um erro que cometi várias vezes. Quando dei por mim, já era um suplente na própria equipa que criei. Acresce ao drama a rivalidade entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho, por esta altura já absolutamente inevitável.

O ambiente era mau. Eu mais preocupado com a minha situação em casa, o Simão sabotando tudo sem ter consciência que o fazia, o Ricardo Carvalho enfiando-se no mundo da noite e das raves cada vez mais. Depois de uma sequência de encontros falhados, foi num festival/showcase com o nosso nome que o comboio descarrilou. Era suposto ser, para além da grande mostra a editora, a festa de lançamento do dito disco que viria a substituir a tal 4ª edição do Pauleta. Tudo correu mal. A toxicidade sentia-se no ar. O Ricardo Carvalho chegou bastante atrasado, o Simão Sabrosa estava piurso, os donos do espaço estavam insatisfeitos com a nossa desorganização. Eu até estava... okay, mas pouco investido em todo o desenlace. Uma série de más decisões de todas as partes, e o sucedido foi: no nosso concerto, o Sabrosa passou-se e teve uma completa quebra emocional a meio da primeira música por causa duma falha técnica qualquer (e eu feito urso continuei a tocar como se nada fosse). Fora isso, a noite atrasou-se tanto que o principal evento da festa, o lançamento do disco do CR7, foi encurtado para menos de 20 minutos. Ninguém saiu feliz. Nisto resultou que o Ronaldo nunca mais tocou ao vivo, e o ponto sem retorno estava cada vez mais próximo para nós.

Eventualmente fomos convidados (eu e o Simão) a fazer uma edição muito mais profissional por outra seleção. Ou melhor, era o que parecia na altura. Falou-se numa parceria entre estes novos editores (na verdade eram uns velhos) e o Euro 2008, mas rapidamente isto virou mais um ponto de desacordo. Escalou e escalou, sem contar com todos os filmes que já tinham corrido até aqui. Finalmente a corda rebentou.

Fui convidado para aquilo que mais parecia uma comunicação formal de divórcio. Aparentemente uma reunião "normal", fui arrastado sem o meu parceiro de banda para um face a face com o resto da editora. A parte que estava do "meu lado" já tinha basicamente desistido do Euro 2008, mas estavam lá na mesma. Sem qualquer tipo de cerimónias, o Ricardo Carvalho, sentado ao meu lado, virou-se de frente para mim e despediu-nos da selecção. A mim e ao Sabrosa. Tecnicamente não era algo aplicável a mim, sozinho, mas era óbvio o que isto queria dizer. Estava a ser novamente expulso do meu projecto. Ainda me tentei defender, dizer que não era advogado de pessoa alguma e tal, mas o bicho estava cá fora e não havia forma de o meter novamente para dentro. Competiu-me aceitar o desfecho e sair pela porta das traseiras. 

Eles nunca tiveram coragem de resolver o seu drama. Encontraram-se algum tempo depois, um para um, mas já a merda estava consumada. Esse encontro pouco mais foi do que um raminho de paz do Ricardo Carvalho e do Simão Sabrosa um para o outro. Fico feliz por se tolerarem, mesmo que num véu de educação superficial. Não deixa de doer ter que largar mão da minha segunda criança.

Depois deste fatídico momento no centro de treinos da Alameda, o que sucedeu foi relativamente previsível. Por uns tempos a selecção andou sem rumo. A "minha" parte da equipa, que incluía o Scolari, afastou-se totalmente do Euro 2008. Eventualmente a editora ganhou rumo novamente, e encontraram uma mão cheia de talentos que deram nova vida à coisa. O Ricardo Carvalho começou a ver os frutos nas suas aventuras pela noite, e estabeleceu uma série de contactos importantes que ajudaram a pôr o Euro 2008 em bom porto. Hoje em dia são sem dúvidas uma das mais importantes do país, com todo o destaque que merecem, fruto principalmente da resiliência do Ricardo.

Eu desencantei-me lentamente com todo esse mundo. Pendurei as chuteiras, fiz-me invisível tanto quanto podia. Perdi a família, um par de gatos, a editora e vários amigos no processo. Agora tenho uma pequena mágoa que me impede apreciar plenamente as raízes da música. O que faço é para mim, desapareci do radar e dediquei-me antes às corridas. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

ócio e ofício II

leitor ou leitora
quantas vezes faz a cultura
do ócio virtude
fungando pelas tarefas para que te amanhes?
será profissão escrita e arte e sonhar
ou o ofício está em torna-las concretas
e comunicáveis?
dilemas para vós, claro,
só na fuga do que sou
encontro o que quero
só na fuga do que queres
encontras a minha estória
escrita entre pausas
e pautada pelo escape.

pedras ao charco, chapim real
e retirado antes do almoço.

duque peralta discursa

o peralta fez-se cacique, naturalmente
tanto quanto formos verticais
um reflexo cortado, metade sonho metade vivinho.
armadura bem janota, sapatilha cascuda
veneno lento cobrindo a lâmina
sangue atrás dos olhos, nova vista
como bandeiras num parque de nações.

reluz lança que apontas adiante
brilha para cima e para baixo
e para todo o lado, menos em frente
que golpeia na sombra e ilude o seu alvo.

o janota, envergonhado,
pousou a espada e no discurso
desabotoou a túnica que lhe cobria o tronco
e falou com imagens hormonais, normais.
fiquei incrédulo e confuso
e fui pastar com o gado,
eu, uns malandros, vários pombos, um cãozinho
e a memória de um peralta.

intervenção exterior

um turbilhão invertido chupando pela janela 
as cinzas em partículas pousadas na mobília da minha sala
a vizinha de cima trancou-se cerrando portas e persianas
e eu vi-me aflito para fazer igual.
em baixo a idosa vociferando mais alto que a tv, um som que cobre a rua
junto com a manta de pó que ventilamos para fora da minha casa.

o sol peneirado pisca como uma lâmpada velha de um retroprojector
e os detritos fazem sombras intermitentes 
acanhados e jogando-se aos cantos
atrás de telas e estátuas que colecionei até aqui, na cabeça dos santinhos
que guiam um qualquer tipo de leme do topo duma estante elevada.

pedi que deslocassem a maquinaria antes do fim do dia
que os afazeres aprontam-se só com o reflexo da lua
o requerimento tardou em deferir 
assumi que fosse por entre o cá dentro e o lá fora
ser apenas breu e lances de escadas
e as aranhas que as guardam. 




segunda-feira, 9 de setembro de 2024

duty free

um canivete duty free entra comigo a bordo
foi o meu ar inocente e tranquilo, naturalmente
protegido da suspeita, inofensivo,
nem o desprezo da cara franzida a meio
nem as baixas da tripulação
nem o meu broche discreto dos anos noventa
agarrado à minha malinha de mão, preta
e descaracterizada
nada
passei insuspeito e nas margens de tolerância das máquinas
tanto e tanto, a sorrir com a ponta da língua pousada nos dentes,
até podia ter trazido impresso na carteira
uma cábula ou uma trapaça de mirim traficante.
será fácil
ou é fácil porque?

trago mais crimes que vontade
mas também trago mais maldade que suspeita
um equilíbrio mais simétrico que o sorriso
deste segurança fardado à minha frente.
eu tenho um grupo, é o disfarce
vamos a trabalho ou a prazer
digo
como se fosse numa frase tão simples
dizer pra onde se vai e o que se quer.

tenho libras, euros
dólares ou dollars
e um canivete suíço
encarnado e com uma cruz na pega
trago um chocolate para a minha mãe
e um disco para um amigo
também.
confio na minha suspeita que este fulano nem me está a ouvir
só a bater o olho, se pareço nervoso,
um procedimento eficaz vendo as outras escolhas
que ele faria se fosse livre.
tirei o tabaco do bolso a medo
o instinto tomando a decisão certa
fazendo-me crer pela razão errada.
muito simétrico e dutiful

a bordo, uma avioneta minúscula
encaixotado contra uma família,
com a criança e a mãe ao lado, junto ao corredor
único.
a criança com toda a naturalidade entrou numa ansiedade
de estar ali trancada tantas horas, 
encaixotada contra um fulano
que escolheu o assento mais barato.
a filha cada vez mais nervosa
a senhora espreitando pela janela uma fumaça sem forma
o fulano a fingir que dorme.

a inofensiva arma-saca-rolhas dormiu a viagem toda
despertando apenas em casa, para dentro duma gaveta.
dizem que aqui nem mesmo um canivete pode ir no bolso de qualquer jeito
é verdade
e eu trouxe isto numa viagem mui longa e controlada
com cada passo gravado e arquivado conforme os regulamentos
ainda assim temendo mais um acaso da rotina,
a parte infiel do nosso rosto servindo melhor
quando cremos nos nossos próprios esquemas.
depois acordei e esqueci-me de tudo.

sábado, 7 de setembro de 2024

arrogam-te

sou imbecil
quando amando as migalhas pelo chão
vejo uma trilha de meus pares
dos meus primos.

sou imbecil
franzindo com desleixo 
das aras erguidas em cimento lerdo
onde suborno é alcance.

apanhei-te duvidando
da pedra suja a que chamas de casa
seu imbecil ousado
de botas e fardo usado.

paga, pega o que cabe numa taça 
e enche-a até à boca
e até aos dentes 
pingando tinta pela camisa branca.

medalha de mérito, troféu de presença
filhos dum pau e da descrença.

esquina do meio bairro, os bravos matadores

vide, os heróis! ahhh, como velharias numa montra 
o estofado completo, um de chapéu da cruz campo
vários em cores descondizentes, rodando vagarosamente
pela via pública que CONQUISTARAM, os bravos,
sentadinhos em couro antigo e com cheirinho a pinho 
do wc pato, agarrado à cinta escondida atrás da barriga.

desvia-te,
desvia-te que as tuas solas não valem uma ponta de um bigode
dos corcéis destas lendas vivas, os senhores da madrugada
as marias amarradas à cómoda, batendo pó e palmas
quiçá o próximo sinal seja no goucha
e por isso andam todos com a telefonia no máximo
não seja hora de partir em heroico desenlace novamente. 

ohhh juventude herodiana, acho eu
devorando criancinhas com mais de meio século
mal sabeis o que é ligar um rádio, como era difícil
importar e fazer da terra chão que se habite
agora no paraíso das máquinas (whodunnit?)
o que é feito do cante da andorinha
onde anda a moagem de um sol simples
amizades de tempo e espaço, cravadas na areia
e com raio menor. circulais com essa pressa
com os chinfrins na vista, seja o verde
ou esse ócio a que chamais solidão.

vede, evidilha presa numa memória
vimo-vos nas massas pousadas em sorriso 
agora um pretexto para jolas e uma pequena dancinha.
vide, a caixa da tia, abriu o presente e 
desapontou: a lança, o rumo e o sentido.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

homínimo

el pueblo s'alevanta cuntigo, compadre
sobreviva ao consolida
sobre a vida, sobre a vida
sopas de crias, minha crida 
querida, menina de rosas negras silvestres.
póneis chifrados por presas mansas
doméstico menor,
amoras se ajuntam e sujam-lhe a ponta dos dentes caninos.
brigas e intrigas
qu'el gran pueblo s'alevanta
e liberta o tibete
aberto, coca e cola
remendos de farinha na oficina
garras felinas em toxinas meninas
mantidas a finas unhas compridas
ffffffalei-te do gás da quinina
ffffalhei-te vagas cominas
valência frequente, pé frio
pé quente
passo
passo
passo
longe
e o eco, desembrulhando-lhe a sina
affalência.

bandeira amarela

o vulto das gaivotas passa entre os raios de um sol se pondo
doente, cansado, à espera de um amanhã que sempre vem 
mas nunca muda.
baixei a viseira, a gravilha cuspindo-me na cara com desdém
a pretensão de gostar sem saber
e com o sol escondi-me atrás do baço e do riscado
e fiz-me ego e volição e noite.
muito acima deste plano, o valente da humildade plena
rodando veloz, voltas intemporais, filho de um carpinteiro
quando nasceu? será o seu apreço e a sua estima
uma virtude emprestada da carcaça despida duma espinha
que a ligue a céu e chão?
terá fugido para o abrigo último ou simplesmente antecipado
o resultado desta prova? em ambos, obviamente vencedor.

a coragem enche-me os pulmões e circula em si
nariz trancado, beiço rijo, vista parda 
levanta um fumo misturado de tabaco e óleo
um melro pousado no meu ombro esquerdo
vai-me dizendo verdades bonitas, mentiras precisas
virado para a frente, uma flecha certa 
aponta para onde vamos, seja qual for a rota.
saltam roncos como erupções, o vulcão da fé
acordado na turbulência correctora
o medo prende-se no acrílico e faz-lhe um risco
a barreira, um quisto sistino e guerreiro
marcas na estrada por onde passam.

o melro pia, abre a viseira
sente o ar por onde passas, o pó que se levanta
como curva a dor perante a voz.

o punho cerrado como no adeus, vontade expressa
e pendurada no peito de cabeçudos, brilhando
por um mar deserto com manchinhas verdes e azuis.
vira, vira,
volta rápido
a armadilha donde fugiste tranca-me no mesmo turno
e o ouro do fim da era deita-se lentamente sobre todos.
nunca tão rápido.
a vontade de vencer, emergente
sentes o tremor da fraqueza no pulso exposto
sentes o tremor da fraqueza nos ombros leves
o melro pia, cautela, perseverança
mas bati o pé com força e enxotei o meu compadre
decisão de um pavão,
e acabei na parede, coberto de pó e espuma
que não foi fruto do meu labor.