para quem olha de baixo é brilhante essa sapiência, como ela reluz pelos cantos que não se sabem. o escuro da mente não confere ao pesar benevolente do querer, do crer diria, uma justiça que mereça destaque ou valência entre pares, ou por outras palavras, sucesso. decadente é a cara animal de um homem. a minha, do autor. eu sou o autor.
eu sou o autor desta peça, destes anos letrados que a pesquisa esconde entre os afazeres da gente que sabe que sabe, que roça o sabre na disputa, que mostra os dentes na hora, que conhece o segredo da prevalência do sol quando ele abranda nas cinzas do fim da era. nada é novo, nem o fim nem o começo.
bem haja ao leitor. quantos anos nos separam? décadas, séculos? milénios. eis o registo da decadência. dos tempos que perecem em duches quentes, nos confortos esquecidos que se esquivam da essência em colchoadas sonecas. profano descanso, aquele que vos deixo. nada impede aos sensores desta pele que habito de negar os seus consolos, de bravar pelo frio e pelo medo como o fizeram antepassados esquecidos. saber o negro que esconde a gruta de onde fugimos, tão óbvia ao leitor. sentado na poltrona que não conheces lamento o fim que te cose os trajes, tornando-te mais homem que alguma vez fui.
esta é a prosa vencida dum desistente, sem herdeiros que o clamem, sem chama que o salve, desertando da luz que prega em palavras vendidas. foi o destilado veneno que o bateu, ou melhor, que o consagrou no átrio dos esquecidos. bem sei, a culpa é minha. foram as andanças escolhidas quando era fácil. mas fui enganado. fui enganado pela voz que te conduz a leitura, pela vivência das eras estanques. como fazer ver quem pena de fora? quando os elementos abandonam quem pede aprazer aos doutores, senhores, indecentes e sentados? sou eu, meu caro, a culpa da sombra. o teu começo foi o meu pecado. és o herói dum crepúsculo que foi semeado pelos pares que aceito.
esta é a confissão dum ser menor. debruçado num menir, digital e difícil de explicar. na sua essência, foi a morte do amor. na sua pútrida essência, foi a fraqueza que ainda opera pelos ódios que cultivas. somos irmãos, estimado. somos o fumo que esconde a lua, afastando estrelas no ócio que nos leva aos caminhos do oculto. sei que no teu tempo as sombras operam como agora. os sabores do mistério, o prazer esquelético das silhuetas terrenas. problema para os nossos olhos, separados por eras que não saberão sábios ou plebeus, por muito que nele tentem e tentem e pequem. é a carne dentada que nos une, salivando por consumar o seu desígnio. o passado não fala, ele canta canções que ecoam pelos vales que emergem de nós, dos tempos do vapor e da disputa. é aquilo que sonhas quando não sabes a forma, quando a pele te puxa os pêlos e tos clama pelos olhos. o segredo que não sabes, que não sei, que conduz as falanges por mecânicas dobras esquecidas pelo vulgo "eu". esse "eu" que dita e redita e conduz o verbo por estrofes profanas carregadas de estrogénio.
ESTA É A VERDADE
PERDIDA
O FIM
É UM COMEÇO.
assim dirão as tablas que te ensinam os contornos deste jazigo. a natureza política que nos esculpe a semblante polida que queremos que nos reflita. como lutámos, como desafiámos a liturgia moderna que nos amordaçou os temores. a guerra, a fome, o caos, o desconsolo da ausência de Deus. como olhávamos à volta e sentíamos a maldade perfurando os poros inocentes de pessoas tão sãs e decentes. injusto, dirão. submissos à razão e à volição dos inimigos da espécie. como tocavam vilões com dedos finos a flauta, levando pelos atalhos da carne crua as almas cansadas e ingénuas. mentiras que nascem na volúpia dos nossos órgãos. quando tocaram, curvámo-nos. rastejámos suplicando por um rasgo de prazer. e a culpa é nossa, de braços esticados pedindo que esqueçam. compete-me deixar na pedra funda e riscada que não, não foi impossível. foi uma escolha. foi o querer repulsivo que vos deixa esta carcaça a que chamarão algures de legado. não deixará de ser a essência, mas como escolhes agora, escolhemos e o fizemos em pleno querer. o plano foi beber do barato e deixar-vos a conta, paga na hora que não nos cabe. por muito lamento, se o deixo em lamúria, não ficará salda. nunca.