quinta-feira, 17 de abril de 2025

cheguei e saí

eu despejo o cinzeiro para um saco
dumas compras alcoólicas
que fiz morto de fome
e conforme enfiei-me 
num petisco barato
umas anchovas 
que guardei até agora.

dancei na entrada com os pés todos tortos.

trabalho, fogos-de-artifício, toda a gente precisa
de alguém que o apoie.
meias cinzentas, corrente de prata, tudo correndo
mandando um abraço e saindo de casa
carregado, armado, toda a gente precisa
de algum tipo de afecto.

amiga amiga amiga
fintei-te na esquina e virtude quis
que olhasses para fora, uma paragem
banal.
haja vontade, fugaz,
movida a certezas que não se puxam
nem em milhares d'anos, genéticos
como os encaixes da nossa grotesca
forma de saudar em silhuetas.

uma peça
um semblante barato
uma espera idiota
onde apanhas a camioneta.

dancei na estrada com os pés todos tortos.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

palito de dente

palitos sem ponta escondidos na caixa
redonda, panóptica, em grupos bem densos
atreva-se algum a cobrir a carola
parte-se! 
logo!
à frente de todos!
lasca maldita, fiapo barato
quando se abana a redoma
cantam todos em coro 
o seu compasso fininho
são dominós em fileiras
batendo os seus contos
uma marcha de guerra
fado útil e frágil.

haja dentes, palito, para sempre
e sempre
que te cumpra essa sina 
preenchendo os espaços do que outrora
fora um ramo selvagem
ao vento, dançando com dedos
que se vergam ao tronco,
a lenda esquecida.

há uma ranhura entre o teu cárcere
e o resto, o perigo, a escuta
de onde operam robôs que carregam gengivas
esse desígnio que te incumbiu o presente.
espreita à revelia 
sem pares julgar-te-ão a indecência
e que ciência essa de temer em silêncio
o vernáculo 
metáforas trancadas em paredes de plástico.

ora ora ora
range a dentição
prepara mais uma lição
de como sucumbe à causa estranha
de pertencer à sua mamífera carcaça.
julga-se fino o palito!
que beleza, esquecido do que fora
quando bradava contra escudos
a sua ponta metálica e sanguinária
apontando morte e desgraça pelo horizonte.
castrato! torna à tua fossa!
e piamente ele baixou a cabeça capada.

instrumentos cruéis de raízes e crenças
os manípulos da peste, heróis do inimigo
são sentenças tão justas, o chocalho que sois
apenas reflete a vossa impura essência.

a sua forma, cada célula pulsando,
maldita a hora que encarnaram
estas bestas tiranas em pele.
feridas foram um pago adiantado
da casta rotina que nos incumbem
e o ódio crescendo
vai-se pegando aos do lado.

coroado, um seu par
discursa de um leito real
cabeça gorda, estrutura ímpar
prega a permanência dos votos
diz que é a sua coragem à qual
todos podem ambicionar.
mal sabe que a coroa que o cobre de vaidade
é o laço da sua punição
o extermínio antes do químico descarte.

perdidos no vento murmúrios de longe
tentam a paciência frustrada
cada vez mais magra
como eles.
maldosos 
só procuram instrumentos
no desgosto desta caixa.

não há memórias
não há respostas
quem foi feito de madeira
serve apenas nas mãos de outrem
e assim foi
e assim é,
consolo profano só cabe às pessoas.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

um cochicho pela chefia

bom dos dentes, sorri com encanto
convida à festa um vulto brando
mas considera impertinente
soluços mansos sem resposta
pois que acene, seja vivo
conforme os traços que rabisca.

é arisca e incisiva
a tirania da bendita.

terça-feira, 8 de abril de 2025

patético

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patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético patético

Pa
Te
Ti
Co
Ti
Te
Pa

és
P A T É T I C O 
OOOOOOOOOO
PATÉTICO 
PTTC
PATÉTICO 

quem sois?
já sabes
patético 
não poético
patético
paaaa
reeeee
riiii
cu!

quem sois senão patético? 
afunda com força a taça nas beiças 
bochecha gorda e unhas imundas
agarradas por sucos baratos e gangrenosos, coágulos nas pontas
que tocam no vídeo.
pá té tí có
pat éti cooo
como um pombo sem a graça
um sapato sem graxa
uma presa sem caça
caipira sem cachaça
saco podre sem carcaça
pivete instalado
pateticamente patético.

boas notícias meu caro barato
ser patético também é ser alguma coisa
ao menos a isso podes-te agarrar
e que bem devias
outrora não foras
por muito melhor que fosse
seria abaixo de patético
logo saúda a confidência!

dr. patético!
sr. patético!
super-patético!

fala mais sozinho
joga mais letras pelo cano
um dia dirão algo que não sabes.
escória 
lazarento
inexorável e plumado de espinhas.

patética amostra de pessoa.

afunilada lição ouvindo a festa da varanda

não são faces que surgem quando se faz mais um ano
não são os degraus da escada corporativa
não é o talento nem a destreza da vida boémia
não és o podre que aparentas
não é a perscruta que a tomas tão certa
não agora e tampouco depois
não é a sede que saliva a querença
não há um comando na fome
não temas
não pasmes com a forma delas
não queiras sem pôr alento.

exige antes da tua jaula
combate o instinto de presa
faz caso dos trunfos que guardam
honesto
mente melhor
insiste pacientemente com coragem
deves olhar a riqueza
poupar mais
comer a sopa
conter o ócio
em trajes melhores
retirar a máscara
pousa o chapéu.

vais bem
entendes
que escassa é a hora
estás a caminho
estás como podes
estás como quer
um alguém que está aqui
agora.

há um novo sol
ao fim do horizonte
e amanhã
as irmãs passarão
a ordem se instalará
e tudo dos sonhos
será um raio no charco
que conta os contos
nesta cadeira de hotel.

galope tímido

calcando uma trave arqueado
ele traqueja, persiste, o domínio
o espera.
há um lavabo na cave
que reverbera o som dos seus passos
tac
tac
é a sola grossa que badala
uma puxada vulgar.
ajusta a guiaca, assente de passagem
e levanta o chapéu, perdido na era
na hora
na correnteza que encandeia
a vidraça baça.

furtivo, desconfia
com coragem honesta
perde-se o som da sua fita
pois cochicha a presença
uma multidão demorada
o perfil renegado.

esse couro gasto e dobrado
é carnavalesco
ou da zara

essa cinta é um costume
só lhe tranca os desejos

uma ganga barata
só lhe adelga nas coxas
e se arrasta no chão.

impávido
jamais
sereno também
jamais
acerca-se do bar
mas não lhe aceitam as balas.