quarta-feira, 28 de maio de 2025

repouso confiante

a pátria, a causa,
tudo em tumbas
que silêncio de vizinho!

esse bafo sonsinho
picado e moribundo
oxigena-me as raízes.

bem te disse bem te quis.

olho para cima
nuvens por fim
roçando nesta copa.

terça-feira, 27 de maio de 2025

calçada portuguesa

tive uma visão, foi boa
e montei-me nela certo e seguro
que por muito que esfumasse
de incertas fianças
seria o rumo dum homem barato
rodando por bermas
que ligam aldeias.

vislumbres da minha classe
batendo sola contra calçadas
que são buracos e um resto de pedra
dum corpo qualquer.

é um verso bagaceiro
é um terno bulir
um qualquer tremer
quando bate um passo neste
rijo e calcado chão pálido
vai e vai e vão
pela beirada contrária.

há uma chave tilintando
entre almada e o barreiro
ferrugenta, rija e cívica
na sua peculiar força,
sapateando entre outras contagens
baratas, sem peso,
ditos órgãos de algibeira.

caindo da graça
a prudência da noção
nas asas de mosquinhas
mortas no húmido duma
sagres mini, composta de corpos
os mesmos doutra alma
as ditas que se ficam,
os calceteiros doutra era.

e eu sonhando com amor verdadeiro,
burro burro burro.

um braço forte
como diriam na torre de vigia
e uma mão amiga.

de onde és
se não deste chão que te segue
atlântico adentro?

quarta-feira, 21 de maio de 2025

fio de poste

no telhado das calçadas
fios negros às camadas
são pousio para a vigia
muito atenta neste dia.

permanecendo na certa e banal forma
de fulminar os desgostos em letras
de máquina,
assim opera o vosso estimado
poeta.

rimas, benditas
quantas fitas cabem num verso
fácil?

ágil, entre sílabas e o fumo livre
dos que não respondem
caso não se saiba
é destra a folga de quem habita
em terras mendigadas por pessoas
benditas.

e segue a lua perfeita
encaixada em postes e candelabros
certa dos desagrados
que nos ocupam a alma frágil.

devia roubar um rubro dia
da tua calma chefiada
dum resguardo que confere
aos teus prazeres um leve tom
de permanência sem querer.

assim fomos
entre cabos negros
rumo aos céus.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

entre notas de yann tiersen

as saudades que eu sinto
de um amor verdadeiro
são apenas fracas lembranças
duma cicatriz que rasga
quando se lembra o espelho
que o devo contemplar.

vita

nominal e noctívago.
são salubres os traços
que demarcam prazeres
verbalizados, luas cheias
cobertas por sonho e solidão.

apraz
memória vaga, desbocada,
vertendo de transtornos alheios
certos que o par transcende
a fraca força de ser prudente.

rijo cigarro de parede
branda, contra as costas
que se tentam em silêncio
quando a mão joga por dentes
afiados e sem rumo.

minhas são as noites que desejas
na culpa
na oferta absolvida
em quem pouco teme
a paga.

habita nesta sina
evita, evita
és cabrita no abate
da vontade que arrebita.

vita, vita
vita vita vita
és a causa
que me habita.

vita vita vita
és um rasgo que acredita
minha causa tão bendita.

amor e família em tempos de crise

chamam-lhe a diplomática forma de ser
família
palavra pesada de trâmites confusos
distante, amarrado à árvore de ser
como se negam esses apegos baratos
armados pela sentença que toca
aos devedores dos seus cabeços
atados e vergados com resiliência
negando ser mais uma rocha do percurso
encrustada no trilho de vir atrás.

és filho da tua raça, atroz,
primo, irmão, parente
semblante em caule posto
dum vigor que não te coube
compensa
entre querelas e querenças, invariável,
vislumbre duma cobra que cobre apenas
quem foste
em diurnas promessas esquecidas
és alguém, como és, meu caro
família 
um vocábulo que cabe na ponta
da caneta e pouco mais que isso
vedado, incolor,
um fruto da sua espécie.

regredindo que chegue pelas vias do
que foi, há sido não fosse
o destino um rumo obscuro de quem foi
conforme feito, vielas emplumadas de certezas
que conferiu a vaga via dos tentados
quando cobrem de certezas as presas
afiadas
afiadas como sempre na vingança dos
dias temperos,
rasgo de pecado pedalando pelas peças
desse mundo expositivo e vendado
de si mesmo
encoberto no suor duma rasga vista
de olhos claros, pecados que se pagam
quando persiste na linhagem.

tapado de culpa
tapado de brilhos
que aclaram a mentira
persistente e verosímil 
pérolas que escorrem pela face
duma pessoa perdida nos seus apetrechos
baratos de ser possesso.

fraca de cara e farta de cores
os dias borram um quadro
a que chamamos de ética
assim persistem sombras:
chamam pessoa ou um vislumbre
de alguma coisa meio humana.