sexta-feira, 21 de novembro de 2025

meta...

eu sei que estás aí
sabes que 
 estou aqui
    logo deixo
     no fim da linha
         o   desafio:                                                                                            
                                                                                            cerra os olhos contra a luz.

torto porque doutra forma
        não consigo.

conquistar uma nação

no combate
boa parte do que me cabe
faz-se um disfarce comedido
ou
a alquímica forma de ser difuso.

os dias do fim serão negros
caindo o véu antes da hora
ou
então não.

depende da gana
da fé dobrada
da travessia quando os punhos cerram
e tremes e tremes
e olhas nos olhos
e vês um novo brilho.

sobre a guerra e a paz não posso mais
a vitória não conta 
com tanto silêncio,
josefina.

rasguei a seda fina da tua face
com os arames que prendem
o chapéu e a farda.

estoura uma ordem de andadura
e as cores se cruzam
no compasso dessa marcha
evidência dum lance de passagem,
uma bênção que perdura.

agora depende
do sigilo
do querer da providência
de tomar punho com certeza
um olho no topo
intuindo das fileiras.

comando é a consequência
do intemporal - 
considerações da guarida, junto
ao canhão, à cruz, ao caderno
com os rascunhos de um nome
que não ousas recitar.

fica escondido na folha
de rebordo escarlate
que ele saiu da sua torre
com bafo a homem suado
e dentro do suspiro 
ficou telegrafado
em 21 letras, que é 12 ao contrário:
je veux que tu m'embrasses.

ancorado nessa crença
domou o mundo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

sobre ser um piadolas

esboças um radiante
branco sorriso
estampado pelo desígnio funesto
que cá te trouxe.
a quem cabe tanta sorte?
desce cantarolando pelos tascos
uma estátua milenar
mais os trapos que são levados
pelo vento.

rotina rodada, capaz e nada enfermo

é que vamos ou melhor dizendo
vou com os braços arregaçados por
este passeio calcetado com vislumbres
ou grandes ares, arretado por minúcia
tuta-e-meia, curioso e certo do destino
mas
nunca do caminho, seria muito muito
arrogante.

denuncia-se pelas folgas na palavra
conhecido e gritado da varanda desejo
encarnado com verde cintilante, o veneno
oculto oculto oculto -
três vezes é revel.

modera maninho
modera no caminho
porque todos os dedos
fogem das letras
que soletram um nome
sabido.

é sabido e conhecido
os membros e a forç-
alto!
alguém que importa
está à porta.

domingo, 16 de novembro de 2025

sobre a cegueira das flores // erva-da-fortuna

arrimei, aconteceu
percebi com discrição 
por outras palavras, com reserva
espera, prestando da visão
e dum fato da minha igualha, deleito
duas vezes meu
um teu, grosso e farto
cortado com forragem seca
vulgo palha e muita erva.

descobrir não é saber mas sim chegar e
cheguei, chegaste, chegaram
quem? além
além do cacém
dum sopro sincopado cruzando
a via láctea, que memória:
os fotogramas contra a luz
são prova que o bicho existe
ora terréu, ora fértil.

só me pus a mexer
e esguichou uma purulenta e emotiva
música que me enche a cabeça
algures sóbrio, agora não.
perdoa-me a quebra
hoje tive tempo e pensei
no jogo, na regra e na rega.

o som não hidrata, não trata
só reitera.
o texto não hidrata, não trata
só reitera.
a voz não hidrata, não trata
só reitera.
a imagem não hidrata, não trata
só reitera.
tu não?
acho que não.

uma corte de corpos celestiais
orbita em quatro por quarto, simples,
uma desculpa qualquer para fazer uso
da matéria.

assim se fez a ordem nova
que fechou os olhos das flores
que secaram nos meus poros.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

quadras por dezembro

os anjos no caminho do parque
dançando à volta da cidade
entre as folhas das árvores
aquelas que te faziam alergia.

são brancos como a neve
noutros lados mais altos
e são translúcidos por dentro
mas que natal tão secular.

pessoas pastam nas calçadas
olham para baixo conformadas
espreitam os reflexos nas montras
de clínicas que só sanam carapaças.

cheira a pão e frituras
depois a fumo e castanhas
na noite perfumes, casacos
e por fim a fumo novamente.

o oculista tem umas luzes
pontuando mais um ponto
e brilhando sem fronteiras 
esbatendo a percepção.

venha a ginja, mão erguida
pelos que estão de partida
por muitos anos de vida
pela memória imbuída.

um abraço a todos e boas festas do barreiro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

passageiro

essa adolescente forma que assumes
quando caem os panos e é a sombra
dum canto recôndito que faz de vera
vera vera vérité, visível e reconhecida
dos que testam e tentam, arrisco
um tento desse V
grande e descomprometido V
gra-an-an-de
assumiste, vestiste, foste, exprimido
e sem palavras, o perfil do ideal
contra luzes difusas de postes
mal estacionados, manos no parque
fumegam das janelas, é fácil perceber.

assim que topas e topas, como quem sabe
ai, ei-los, em duplas, em plena noite
falam, são quem são
é difícil ser-se mais lindo que um
par honesto parado num canto.

mas sou um gajo
gaja.

mas sou um mano
mana.

e a seda pálida foi um palco,
um cénico espanto que diria
eis
digna e jovem, eterna 
sem percalços fraterna, um rasgo honesto
duma mana, mano
d'alguém da vida, e é alguém
mano
os filmes vivem sobretudo nestas pavimentadas
a contragosto passeatas
o cristalizar do instante
mana
mas eu sou um gajo
mana
peço que te lembres desse real
carnívoro
animal e carcomido de fome e querenças
mana
ciente, presente
como todos.

há dúvidas - naturalmente
pisados pelo castigo dos contos não existirem
e o cínico, os ascos da nossa volição
constantemente insistem em oscilar entre
um sonho
um sono
um apreço pela simpática
bondade de ser ou estar
presente.

fugaz ser-se um...
filho - comandado
uma pergunta:
pai do seu verso
pai do querer honesto
desdém pela fácil forma como
dilatam essa cura, curva
apertada
volvendo-se nos seus poros e pêlos
de expressar o que não conta
os códigos - tão fáceis
lábios trancados
desafiando o verbo entre pontes
que cruzar seria
tirar a magia.

porque eu sou um gajo
mana
nos meus sonhos
somos um
nunca seria, nunca creria. 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

gládio: fachada e vislumbre

clarks na mesa. castanho no branco
os óculos mais a hora, acessórios 
por quem me tomas.

soberanos contornos estampados na farda
do leite materno ao leito que expira.
fecundidade, predileto alvo nos peitos dos homens
predadores a monte, predadores a norte
predadores que rasgam os trevos da sorte.

conflito por um adorno trocado
trocadilho trocado
muito bem, que engraçado.

pouco mais é que um passeio por pertences
aqueles por quem me tomas
teimarei tantas vezes
em subtrair-me no lar.

isento e nu
mestre ancião
coberto de tinta
deitado no chão.

ira contra o oponente!

faz-se a máscara armadura
os sapatos batidos, o relógio folgado
cobre-se a vista de riscos dentados
segue:
o embate, gáudio golias
contra o incauto autor
palavreado manso e tirano
mano-a-mano.

temo, treme o disfarce
humano por dentro
e não uma bruta besta errante das caves.

volta por fora

rodam rodam na rotunda
a toda a hora em toda a parte
ela nunca se mexe
nem eu
nem os dias desta gente.

melindra
vendo os olhos na via
é periferia - vai a vida
vagando vertebrada
uma voz viúva 
volta à rotina.

vestes a verme forma
da vaidade.

olhos na estrada
roda roda como um vórtice
na cidade.