quinta-feira, 28 de novembro de 2024

para o guecas

a yamaha do gueli azul e branca
tem a idade da kiki, provavelmente
o menor cão que já vi.
ele fala sozinho porque já estourou a mioleira
com compadres que esticavam a linha
em pares e triplas e misturas excessivas
quando a música parou e viu-se órfão
o brilho da consciência pediu um descanso
que durou até agora, já lá vão vinte anos.

a mota quando passa vem pela calada
tem poucos cilindros, está gasta
porque antes de trabalhar na fábrica
ele foi estafeta, um presságio da geração
freeter que espreitava das esquinas de mumbai.
o verdadeiro taxista do cinema
levando bocados quentes de prazer
dos fornos a lenha sujos
ou o melhor pão da cidade
na chuva, nos dias de geada
cruzando os ciprestes sem saber
o vagar da companhia na praça do brasil.
descansava na boca com um fininho
as caras doutros tempos às vezes ajudam
mas não deixam de estar longe
e foi assim que o conheci.

hoje trabalha numa fábrica de lentes
vê-se sozinho na esteira, por sorte
e quando voltou para gastar o almoço
vinha com raiva da senhora
responsável pela segurança na linha de montagem.
suspeito que sei a causa
porque os dias felizes com o irmão
a ver a neve na colina
já se foram
resta a yamaha azul e branca
os olhos vidrados na estrada
os dentes consumidos pelo fumo
e o silêncio.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

fonte da juventude

tomo o meu lugar
e um copo brilhante abana entre nós
em segredo outros tantos, aqueles que me sentam
aqui com quem sejas à minha frente.
eu sou um homem de lugares e quem lida comigo
sabe bem a que me refiro. talvez não.

o trânsito passa, o vocábulo escorre
para cima da mesa, pelos dedos pousados no colo
pingando pelo canto, paciente até cair
nas calças de ganga gastas que militantes do bairro
desdobram e usam e dobram e guardam e desdobram
e vestem nas visitas às ruas mal iluminadas do beira tejo
ou nas margens doutro rio que nos acolha.
assim vão-se apresentando os anos que passam
e as faces que se gastam mais depressa que elas.

somos jovens, não há casa neste beco
que não nos tenha visto pequenos de mãos dadas
com a gente grande que nos fez a folha.
chamas de cronos ao passar da brisa
que fez a barba espessa
eu nunca acreditei nessas supersticiosas
formas de ver fenómenos.
o tempo anda connosco e o subsolo
continua cheio de ratos em silêncio
com as suas famílias, os avôs de poucos meses
respeitam a norma sem medidas que os aflijam.

vê aquele sinal de proibido
ele não obriga a nada
mas riscamos-lhe uma cruz
porque obrigamos nós a ele
que respeitasse a nossa adolescência.
agora que foi outono por dez vezes
ponderamos pedidos de clemência 
de justiça ou paciência, a responsabilidade chamando
pela janela da vossa casa.
continuo a ver um sinal entre as estrelas
um extraterrestre desejo de conhecer as feições do infinito
ontem foi agora
e há dez anos também
e quando nasci já cabia nos meus ossos
os socos que demos aos reguilas
que rangiam os dentes na escola
porque não tinham sapatos capazes.
rapazes sem tento
foi tudo agora
quando piscas os olhos
continua a ser presente.

trago um casio prateado que bate convosco
e ele não se gasta e nem eu
os riscos que leva no visor são medalhas
de honra da guerra. mas ele bate
e vocês são puxados
cada vez mais depressa
para os bueiros entupidos de folhas
e do lixo que a rotina gera.
estou aqui ainda
agora mesmo
vestido por noventa anos
por outros tantos manos
pelo reino do largo dos cães
as durezas enrijaram a mira
e ela áspera aponta no vosso peito
que vai cedendo à mentira que o tempo passa
e o pó se ajunta.

não entendo
vou para o espaço
serei colono na lua
sem peso que comporte
esse túmulo a que chamam face.

a vida é linda
quando o mundo gira
e a gente fica
romanos, cavernocas
batendo com paus
fazendo fumaça
rumo às estrelas
e se ficarem por terra
lamento
lamento mesmo
perderam o compasso da batuta
e como no retrato que envelhece
as barbas brancas fizeram da alma
um jazigo pútrido e infeliz.
quem sofre com a cruz nos olhos
não está proibido a nada
e vive para sempre.

a névoa paira nos banquinhos da costa
e o fumo dos cigarros esvoaça com o fôlego
do povo que ruma daqui em frente, pela avenida sem termo
sentados em calçadas de pedra trocando palavras vulgares
o trautear cinético sintetiza desejos de permanência
e eu pisquei os olhos e tudo foi agora em toda a parte.


a terra gira como humanos na cama

confirma-se, os dias encurtam neste canto
e no breu o fogo arde no céu longe
é o castigo dos que partiram
e levam a tocha para o outro lado.

fitando as estrelas dependurado na janela
vemos a colcha negra se alargando no horizonte
como piolhos numa cabeça coberta num véu grosso
tudo se mexe e nada te explica como.

cobrindo a vista
eclipsando a chama ténue
os vultos do dia
dançam livres de formas.

sombras roxas e douradas
derrubam castelos
determinam castigos
fazendo caminho pela terra virgem
daquilo que não se atreve a aclarar.

é o papel do outro lado
pois quando fechas os olhos
permanece tudo cá 
e confias plenamente nisso.
assim anoitece duas vezes
assim sofres tantas mais
fazes a rota do poço
e tornas ao ponto de partida.



cervantes desengane-se

sancho pança, o tolerante
escoltava borrachos pelo prado
daqueles de hidromel e vinhaça
sem sonhos literários
apenas fermentados.

que romance tão contente
desciam as escadas da beirada
de declives rochosos com musgo
dispondo de espada, selim, escudo
fatiando os montes
mutilando a cevada
mas não se lembram de nada.

as cisternas temiam
ainda mais que os moinhos
os heróis no seu caminho
eram senhores de milagres
e da água brotavam
pesados cantis de bagaço.

livros de receitas
bestiário de castas
iludiam d. quixote
e ele fugiu da corte
um enólogo andante.

assim fica escrito o conto
à luz da grande ciência
consumido por fervorosos desejos
as indigências da vontade
deixam uma grande ressaca.


terça-feira, 26 de novembro de 2024

as gralhas acordaram tarde
ouvia-as do meu quarto
elas chamavam por mim
não será hoje mas um dia
voaremos juntos pelo vale.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

gruesome fin

fugi fugi fugi fugi
e fugi fugi fugi fugi
e novamente fugi fugi fugi fugi
fugi fugi fugi fugi
e mais outras porque o sol pôs-se e eu quero que ele fique lá no aterro onde ele se enfiou
até que um peixe lhe coma os olhos lazarentos 
e os crustáceos façam da sua casca um penico
e os diabos do fundo do mar puxem esse nojo pelas fissuras do abismo
fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi fugi.

a luz apaga-se
as janelas acesas da vizinhança zombam da minha cara
insistindo em continuar como se o fim não fosse certo
tipo um fio solto que puxas e puxas
para comprovar em que momento a linha acaba
se haverá peça que resta
ou se salta um botão
se calhar fica tudo igual?
burro, se fores convicto que chegue
até um vestido bem liado perfeito vai virar um novelo informe
como os pensamentos imbecis que voam quando a lua não chega
ou quando a hora não muda
nem com dois anos de espera
nem com a fé a que te agarras
nem com mil desculpas ao vento.

fugir então torna-se apenas lógico
doutro modo vou começar a jogar pedras
contra a puta das janelas que não apagam
e ainda acerto em alguém que não tem nada a ver com isso.
eu não quero fazer mal a nada
eu só queria que a luz fosse boa
e que a minha pele brilhasse com as estrelas
em qualquer parte da jorna o ouro da inocência
resplandecendo na galáxia em sorrisos tímidos
e de mãos dadas com o destino.
não
é
assim
nunca
seu
labrego
perverso
se ela bate nessa cara pálida e manchada
uma traça pousa para te avisar
que te escapas ao castigo
volta para a toca bicho fedorento.

hoje o amor da minha vida casou-se
e mudou de nome
e tomou-o dum terrone.

um murro sem esforço
sana as vozes da madrugada em destiladas
magias que delapidam os pulsos de plebeus
e pela calada a nova apoteose.

é Deus
que diz toma rumo
juízo
razão em laurear a princesa
dos versos perfeitos
e que se lixe o trauma
que levas na fronha
é só a lição que comprova
que andavas torpecendo sem premissa
por vales sem vida
cultivando degredo.

foge foge foge foge foge
e continua bandido porque um dia serás apanhado
e vai ser dupla a perdição
uma pelas dores do corpo
outra porque levas com elas e amochas
mártir sem causa
engolido no tempo dos dedos tesos
e das memórias fracas.

o homem solitário de Deus.

eis o desfecho
pistolas de dedos
disparando contra o busto
armadilhando o futuro do discurso
se seguires pelos caminhos da força plena
e não das fraquezas da alma que se debruçam
e revelam a busca que nunca
conheceste senão quando a esposa
ex-noiva
se juntou do seu par funesto a quem lanças injustiças
como se fosses parte desse gambito.
perdeste a dama
e fugiste por isso
aceita porque o Senhor dá-te sempre a resposta
e as medias conforme aquilo que precisas
por isso
roga
e põe-te de joelhos
escória imunda.

ahaha.wav

ELA É FELIZ 

apenas um filho Dele
com ódio pulsando
por causa do tempo.

é de noite
a luz incomoda
circulando a cidade
tudo segue
e tu também.
já caíste para o lado
agora odeias cordeiros no mundo das nuvens.
a manhã vai chegar com o peso das pedras
e depois sem promessas
no máximo
eu gosto da minha mãe
mas o amor evaporou
e tornou-se um fim macabro
em francês ou russo ou o diabo que os guarde
lá na fossa onde me leva.
por isso
fugi fugi fugi fugi fugi
e fugi fugi fugi fugi fugi
não digam a quem fica.

errata

ora terão que perdoar a retificação
mas nas observações sobre a taberna do miguel
mandei uma pequena peta, foi inconsciente
só que não posso deixar passar 
fosse burrice ou intencional.

hoje em contrarrelógio (ou contra-relógio)
fui tomar o cafézinho do almoço
e estava lá o irmão do miguel que também toca aquilo
mas tem andado fora porque tem cancro
ele não me disse directamente
também não é preciso ser detetive para perceber
complicou-se bastante na semana passada
felizmente hoje está muito melhor.
prossigo:
a "dona paula" estava a ajudar a pôr umas garrafas
na montra que fica ao lado da máquina de tabaco
e de conversa com um velhote qualquer
ele dizia "ah maria, tu hoje estás cá à noite?"
ela respondeu "não sou maria, sou ana"
"cármen...?"
"então e se eu o tratar por urso?"
bem, imaginem o barrete que meti
com as orelhas para cima.

portanto clarifico
a senhora que treme é a ana
o miguel é o miguel
e a dona paula é a esposa.


domingo, 24 de novembro de 2024

lembranças e um apelo à sabedoria do templo sem respeito

teria um diálogo civilizado contigo
se guardasses a adaga na cinta
deixando soar a lâmina nos seus
claustros de cabedal
descansadinha e sem perigo. 

o mundo tremeu porque
já não nos encarregamos disso.
há jeito nessa loucura avariada
de gente que nunca carpiu?

notifica-me quando voltares
quando os dedos pulsarem por
provocadoras sensações de ódio
que geminam as intempéries
e dão tanta tanta vontade de espetar
estes indicadores suaves garganta abaixo
até o léxico sair num molho nojento
"chama-me nomes
uma besta, duas, 
um porco que fuça
e a porca que o abriga".

sendo cruel como os inocentes
quando dormem e se esquecem
da maleita que cultivam no silêncio
penso em duas estrelas
uma brilha longe e proibida
nos cárceres da fantasia
muito se dança no quarto maçónico
em nome dessa sábia dimensão
que se pinte boaz em mais que cobre
e os cães ao largo mijam
por cima dessa idiota premissa.
a outra carrega nas vestes
medalhas de mérito que certificam
a chama que procuras.
parece melhor
não bom
real e autêntico
melhor.
o mapa do labirinto está aberto
e a lua cheia chega em vinte dias
hora de tomar uma decisão
contra os pilares secretos da ordem.
eu estendo os meus, no meio das mãos
mas olhando em frente percebo
que o insulto que aflijo
é a voz que compele
e erectos se entendem, realmente,
conforme esses desígnios 
sagrados, sarcásticos e efémeros.

os 20s de novembro

na mercearia à frente do meu prédio
um casal chinês muito reservado
sabe bem o que a casa gasta
afinal são eles que acolhem os pedidos
do misterioso chapeleiro da verderena.

devem saber que se trata duma época festiva
os consumos aumentam, há guloseimas e álcool
pesado, nozes e amendoins salgados
petiscos de toda a espécie, enlatados
e granulado, farinha com fermento,
favas, pão de forma, queijos diversos.

é um bom palpite
falham apenas porque festa e rotina
são partilhadas pelo mesmo público.

entendo, normalmente é tinto rasca
conservas, feijão verde
uns rebuçadinhos para a tosse
(na verdade para as bruxas
que rangem os dentes trancadas no quarto)
miojo, como se diz na minha terra,
um pacote de leite singular
fiambre extrafino para a dieta
e mozarela fatiada da mais baratucha.

tratas-te bem quando a hora cai
e as noites entram pela tarde.
assim termina novembro.

caminhas para três décadas
estou cá fazem duas
mais um pauzinho singelo
que marca vinte e uma jornas
entre o sado e o tejo.
qual champanhe, moscata
roxo como as unhas dum marceneiro
que ficou perdido em vera cruz
e que lança sinais de fumo
com a lenha que estala
com as próprias mãos.
um orgulho de homem.
 
venha daí um brinde aos velhos tempos
ferrugentos empoeirados velhos tempos
inconcebíveis e imperdoáveis velhos tempos
nada como viria a ser velhos tempos
prometido herói da nação
soberanas virtudes dum grande líder
prudente e filósofo velhos tempos
ergamos as taças, charutos fumegando
tornam a vista turva àquilo que produziu.
tchim-tchim
brindando um fulano mascarado
um chinês, a dona bagaceira
os gatos perdidos do rés-do-chão
que se deixam estar e sobem as escadas
porque sentem um amor vazio
na véspera dos teus anos.

vinte velas
são as que cabem no maço
e sopras
uma de cada vez
pela noite fora.
parabéns!

mau presságio

eu tenho uma vaga suspeita
que algures nos confins da minha querida
e pouco visitada arrábida
se terá desmoronado uma formação
rochosa bem antiga e importante.
digo isto porque quando
a brisa manda do seu fôlego salgado
os assobios do topo da serra
eu costumo conhecer quase todas
as cantigas, as finas melodias
de melros e trilhos em declives
que metem medo e respeito
os passos dos grupos em excursões
as cénicas curvas sem guardo
serpenteando pela baía.
hoje o tom não era o mesmo
havia um cochicho moribundo
entre os silêncios da sua pauta
um áspero escondido na neblina
as asas de passarinhos batiam ariscas
e longe dos caminhos sinuosos.
parecia coagida à cumplicidade 
por um crime qualquer
nervosa, irrequieta, espreitando pelas folhas
como quem avisa
"não entres
por favor
aqui já não descansam sombras
elas andam por aí 
determinadas
deambulando com as silvas entre os dentes
na cara pústulas de seiva tóxica
de cimento e amargura
por baixo dos olhos, no canto da boca
não entres por favor
contenta-te com as saliências
que encaras ao longe
quando voltas à tua terra
e acena-me quando fores
porque terei saudades tuas"

que arrepio
a tenebrosa sensação
de que nem ela é inocente.
será com culpa
ou será vítima
de patifarias obscuras
cultivadas no seu âmago
com o piar dos mochos
que fogem das labaredas.

queimam-se as efígies e o estalar
da fogueira é o tambor que pauta 
os assobios da colina com sangue nos pés
e os pedregulhos rebolam em direcção
a setúbal.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

um raio optimista passa pela calha no sótão

as cores e as formas descrevem cantos ao abrigo
que se forma antes antes de existir
noutro plano distante, remoto e indiscernível.
pintado, iluminado, obra feita ou abandonada,
gasto pelas rixas entres as gentes que entram
e saem e voltam a entrar,
carcomido pelos fungos em profunda solidão,
riscado pelas patinhas famintas de seres menores,
tudo toca nos seus claustros
revestindo ou despindo as suas camadas
com o fôlego do que há.
nunca muda no seu domínio
só o cartão de visita
quiçá a morada, o número na porta
mas tanto quanto torne o mundo a girar
contemos sempre com o grande lar.

um difícil exercício da consciência
é saber diferenciar entre essa essência
e a sua tradução no espaço térreo
por certo haverá alguma forma
de ligar, ou religar, estes universos tão distintos
mas até aqui, no território da linguagem,
a matéria se confunde
apesar de ser fácil sentir a diferença
uma criança consegue.

esta é a causa do flagelo
que importuna os sensatos
os dados à vida
os dedicados à causa
os convictos
os corajosos
os tímidos
os reprimidos
aqueles que sofrem nas sombras
dispostos a dar a face
pela pele que o próximo habita
e os justos, inseguros,
e todos.

quando terminou um sonho lindo
inspirado em verso e glória
uma intuição gentil dissipou
fruto das unhas tacanhas
agarradas a dedos gordos e possuídos
mas também pela fúria na face
com a rubra cara da mágoa
de sonhadores e poetas
fraternos companheiros na grande aventura
da nossa alargada família.
com esta tendência trágica, mais que milenar,
militarizando as crenças em discursos de poder
e em chamados à acção
a matéria triunfou sob o abrigo
e devorou o seu filho.

seguimos em frente vendados
e começamos a ver cores
fora do espectro sensível
chamam-lhe ilusões, visões 
em mentes despertas.
primo contra primo
irmão contra irmão
tal como no início
assim se afigura o corrente.

temos onde ficar
disso não tenho dúvidas
nem que seja entre as larvas
que rejuvenescem o barro
de onde partiu a palavra.
atenuar o fogo da queimada
que se alastra pelos bosques
na superfície que define tudo
é um mistério que guarda a lua
os céus 
e as estrelas que nos olham
de há milhões de anos para cá.

as cores e as formas destroem os cantos ao abrigo
formado antes de existir
aqui, agora, concreto e tangível.
virá um outro sonho lindo
e como um prisma revela 
do que é feita a luz
assim se juntarão as palavras
em termo único e vinculado
exumando fogueiras onde primatas
comiam e grunhiam e descobriam
a chama eterna 
no bico duma pomba.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

a base e o beiço

um pentágono só é malvado
feito de betão na nova roma
ou no chão duma cave escura
porque, por exemplo, numa face
abençoada pela santa beatriz
a geometria bem preserva
as bochechas de hollywood 
os olhos do nilo baixo
ou os lábios que escondem
caninos afiados e um sotaque arrastado
carnudos, encarnados, delineando
uma clavícula emergindo
em seda fina, pálida e sensível...
enfim
pode ter a mesma forma
e não é ruindade, pelo contrário!
falamos dum sagrado artefacto
que poucos singrarão nas suas vidas.

gestos pra quem te endente

articulando o que quero 
com a empregada ao telefone
soube a intimidade rica
pois entendíamo-nos perfeitamente
nos gestos mal amanhados, ela com a cabeça tombada
prendendo-o entre a bochecha e o ombro magro
a vozinha da amiga mais alta do que nós
e do que a máquina de café
apontando para o que eu queria
para a garrafa de macieira
o cartão entre os dedos como num truque de magia
cortando o ar tipo um maestro que para a banda
e uma pequena vénia de obrigado.
é tão simples falar despretenciosamente
quando sabemos exactamente o que se quer
um objectivo simples como um copo, uma bica
mais do que ser ouvido, ela sabia
e isso foi simultaneamente
sensual e competente.

bebi lentamente o copo
pensando anedotas, ponderando estes versos
não foi apaixonante
apenas um espontâneo deslumbre
e gostava de lhe ter apanhado o nome
para espetar aqui no título.

se ela tivesse sussurrado 
vamos fugir para marrocos
tapando o microfone
para a amiga não ouvir
teria ido
bancado tudo
sorriso na cara
palpitando cá dentro
quimiorreflexos ao rubro
mas depois desligava
e víamo-nos de frente
e a magia se ia
porque as palavras dominariam
por cima da simples vontade
de fazer um pedido.
rogo que não desligues
portanto virei-me de costas
voltei para a mesa
ela continuou a chamada
e eu terminei a bebida.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

para um destino perdido

sonho simples o meu
uma padaria com o ben
e 12 filhos contigo
cada mês uma festa.

quando deixar de ser um compadre trocará os mistérios pelas verdades, no caso o vocábulo, o teu nome (outra vez outra vez outra vez outra vez)

entupo as artérias de sódio
porque quero pô-lo a pulsar 
como se fossem os últimos segundos
da peça da qual toda a terra é um palco.
encho-o de fumaça como a neblina
que torna os retratos lindos
contra a luz da cidade que pulsa
em carros, transeuntes e as montras
das lojas que transcendem quando estão fechadas.
diabos do néon ilustram 
as vontades que palpitam
num coração sedento de vontade
de ver os olhos reluzindo
entre os baços momentos
que guardamos em fotografias.

bafo, bafo, bafo
já disse mil vezes
as paredes quadradas
deste meu claustro se enchem
e ficam amarelas como as páginas
e o fígado de um miserável.

eu quero dizer o teu nome
porque a tua imagem inspira
todos os poemas do mundo
e não posso porque sou...
não sei, amigo do teu amigo
compadre do teu amante
cúmplice de pecados que condeno?
foda-se, que em segredo eu queria
que ele morresse numa esquina
trágico e enamorado de ti
para que o seu legado fosse intocável
assim ganhava ele e ficava eu
e tudo seria feliz
para mim, claro.

já te rasurei o nome em tanto verso
sinto-me um censor fascistoide
a oprimir as volições do coração 
honesto e vitimizado de dezenas de segredos
e centenas de fantasias
com o azul que guardas nos globos
cor de metais raros
que só se revelam com complexos processos
químicos, eruditos mecanismos para replicar
aquilo que nasceu dentro da tua cara belíssima.

devo ter amado umas dez vezes
e o íntimo deste corpo vagabundo 
conheceu metade e gastou a outra
em encontros malvados da fraqueza
do tento, com a cruz ao peito
sendo pilantra pela noite fora.

hoje sonhei com a tânia
foi engraçado
era sobre os declives da carne
mansa, mas por trás das vedações
que davam forma à narrativa
havia um certo prazer onírico
em falhar no objectivo de tal forma
que ela saiu zangada e eu
acordei desperto e feliz
como raramente acontece.

feliz caralho!
finalmente!
os dias são poucos e a espera é longa
quando se vive agarrado às memórias
da paixão verdadeira.
dancei e dancei e pulei
e fui olhar o destino de frente
e voltei e fui ter com o miguel
e bebi um bagaço majestoso
e paguei mais por isso
porque quero que ele viva
tanto ou mais do que eu
que sou novo no corpo
e velho na alma.

venha daí outro camelo
cheio de sede e cheio de palha
e de moléculas que me agarram 
como o sal que jogo cá dentro
e no chão e na cama quando me deito.

escrevo iniciais e vontades malandras
sei que serias feliz, pelo menos nos dez segundos
de êxtase que teríamos em equipa 
se o outro mongo se fosse finalmente.
fogo, estou aqui a dizer tantas vilanias
mal me reconheço, deve ser isto a que chamam
de amor fátuo.

queimei as mãos no calor da tua imagem
que guardo na memória, mesmo mesmo,
foi leve e foi efémero
e eu peço todos os dias
que o amigo volte
e me dê mais uma chance.

amanhã sei que vou acordar
com outra senhora nas pálpebras
e tudo será diferente e as letras
vão ser literárias e corridas e despidas
mas hoje foste tu
acho que vai ser assim durante um bom bocado
e terei saudades de tudo que não foi
e não vai ser porque sou um cobarde
escondido na toca atrás de teclas
que batem com o ritmo dos cigarros.

correr ou morrer
um dia o destino vai responder
e o que calhar será
mas hoje é a filha russa
iberando pela internet
os teus óculos escuros
são heroicos e inocentes
como a iris duma princesa
e a alma duma poeta.

a taberna do miguel

só hoje me apercebi que a dona paula
treme muito as mãos e eu não sei
se é como o resto da gente do café
por causa da pinga e tal
ou se é alguma doença qualquer
mais infeliz. ela é muito educada
e serve-me sempre bem
nunca tive motivo de queixa
acho que até fica feliz quando apareço
porque devo ser a pessoa mais nova
pelo menos por metade da idade
do que o segundo a seguir a mim.
ela deve ter uns quarenta anos diria
talvez um pouco mais, talvez seja filha
dos donos do café, eles normalmente
tomam conta daquilo sozinhos 
mas à hora do almoço a velharia
para toda lá e a dona paula ajuda
no caixa enquanto o miguel
tá na cozinha e a esposa atende às mesas.
visto de fora ninguém diria  
uma taberna como esta
a servir tanta refeição
a verdade é que tabernas
sempre foram pra comer e beber.
pela cara desta gente não me parece
que isto vá aguentar muito mais que dez anos
eu ajudo como posso
peço sempre o meu café, o meu rissol
e ao anoitecer lá vou buscar o bagacinho
mais outra bica, que me serve o senhor
depois de um aperto de mão
que conquistei com a minha fidelidade.
a dona paula a estas horas já não trabalha
mas fica a beber cervejas com os cotas
na próxima tomarei nota 
a ver se ela também treme no fim do dia.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

os perdidos perdidos da história

consegues ouvir os artilheiros?
sussurram canções com um milénio
e os ramos zumbindo ao longe
sabem quem são os primeiros
as cartas que guarda, austero monge
fraterno compadre, latino e arménio.

consegues ouvir os comandantes?
as botas arrastam-se no pântano
é a hora da sorte e é a hora do sul
deslizam no gelo, batem os dentes
com os ventos do mar sem vista azul
escudeiros de um sonho malthusiano.

um coração em rufos baixos
na hora do gelo e na hora da morte
o rufia dos palácios seca o pano
no cadáver de jovens machos
cachorros do mato, o bruto do dano
que sustêm o silêncio tirano do norte.

ouves as gotas caindo nas folhas?
são lágrimas de amigos, as manchas na têmpora
restam os suspiros que enchem a ânfora
e lançam ao ar o som de passarinhos
perdidos e trancados em pias bolhas
que estouram pelos temíveis caminhos
da marcha nobre dos opressores
titulares heróis, mestres, doutores
professores sanguinários sem espinha nem medo
que desatemos com fé os nós deste enredo.

consegues ouvir os sonhadores?
dormem de cima e planam em terra
assim como os vemos, oxalá,
quando a cabeça pousa e os senhores
se extinguem do pesadelo que aqui há
e na virtude do ermo dobram a serra.

um irmão perdido do outro
mouco, de óculos, medicado,
estaremos serenos no potro
até o som do machado
perdido no crescer das vinhas 
nas horas tuas e nas horas minhas
o momento das preces serem ouvidas.


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

para um dilema corriqueiro

o meu problema é que quando jogamos cartas
eu deixo-te ganhar porque senão privas-me
do teu colo, meu abrigo, e durmo sozinho no sofá.
fora das horas em conversa miúda
respondi com desdém para que entendesses
subtilmente o meu desagrado com essa autoridade
natural e opressiva que herdaste há pouco tempo.
fui diplomático e acessível, pouco áspero
dado o contexto, não entendes mesmo assim.

podemos parar de jogar
ou ficar em silêncio
se eu durmo mais vezes na sala
perdes o que resta do respeito
e se dormes tu vira a casa ao contrário.

vês como afinal não somos assim tão diferentes?
amocha pelo amor à santa.

sábado, 16 de novembro de 2024

no soalho do castelo de cartas // fúria a sete pés

largar as braçadas desamparadas
é o advento da prudência na fronha
onde a cabeça quita as contas do outro lado.
balança o que mede são os cochichos
da voz maligna que opera em coro
com milhares de demónios 
no ócio, no medo, na pujança do que apraz
nos pêlos da barriga e nas pupilas gustativas.
para de gemer 
para de tremer
vês cortes nos membros, foi trabalho
sem fiança do descontrolo adolescente
e já não és adolescente. és grande!
que grande!
lê novamente
g r a n d e
como a diversão na feira
que soooobe e desceeee 
pondo a miudagem aos gritos
uma moedinha por uma emoção.

nota que a fachada carrega áureos domínios
que compete à razão sensata reabilitar
(domesticar)
...
não sabes falar sem ser infantil
tipo um bicho que vive no mato
e grunhe com as sombras
chumba no teste do espelho
e ataca tudo o que palpita vida.

ÉS GRANDE, MALUCO
é hora de mostrar a mão
três quinas, dois terços
nada mau
pena que o discurso é uma caixa de dados
e deixas rolar, rolar, rolar 
até caírem da mesa.

esquece, continua a espernear
contra a frente fria
esmurra a secretária com força
da próxima ela devolve-te o troco
e ao invés de abrires um dedo
ela agarra-te as pernas e manda-te pela janela
tão grande no mastro
enorme na queda.

soldador

estas vigas estão expostas
e as soldas são frouxas
foram feitas à pressa
por homens cansados
bem-pago trabalho 
de cancro e queimaduras.

pode não ser problema meu
mas vivemos todos neste prédio
quando ele desabar vamos ressentir
o custo, a desgraça e as mãos alheias.

ferro fraco
liga fina
a chuva persiste
ferrugem mancha as quinas
à sombra.

as velas apagam-se para luís linceu

chegando à cena do crime, o detetive
pousa o sobretudo na haste de mogno
da cor do chão e dos armários no corredor.
sem tirar o chapéu espreita as reacções
à sua chegada, de soslaio, e depois sim
o pendura no mesmo gancho que o casaco. 
perscruta novamente, em tom de desafio
num vagaroso movimento lateral.
os suspeitos estavam no fim do hall 
em frente à sala de convívio
uma das vítimas estava no quarto, deitada,
divisão em direcção oposta ao salão grande.
o mordomo estava preocupado e pediu a todos
que se descalçassem, a madeira era frágil
mas ninguém cumpriu
excepto uma das testemunhas que aguardava
pacientemente à esquerda do detetive.

muito bem
disse, puxando do cachimbo,
parece-me que temos mais um clássico
o crime passional
e todos ficaram chocados.
senhor agente, meu senhor, como pode saber
se mal acaba de chegar? 
ora ora, este caso é na verdade mais velho
do que eu, só estamos perante uma nova
iteração da ancestral fraqueza da carne.
e puxou uma traga pesada
e largou o fumo denso pelo corredor.

os suspeitos desta vez eram uma dupla
bianca cilix e rivaldo agenor, cúmplices
prováveis que estavam cientes das suspeitas
e pouco faziam para mascarar o seu nervosismo.
não há corpo não há vítima não há crime!
disse zangado
ela assentiu com a cabeça.
a testemunha era lúcio belo, ferreiro e amigo
da vítima, luís linceu, que lamentavelmente
não foi poupado desta vez. ele estava acordado
no mundo das bestas mas para sempre recluso
nos confins da sua alma, partida em 50 pedaços
um para cada trago, abraço, carinho,
momento perdido e suspiro das garras que riscavam
a prata fina da casa, pálida pele de heroína.

não é a primeira vez que nos encontramos
diria até nem a segunda nem a terceira
e com todos os benefícios da dúvida
não consegues guardar o punhal na cinta.
rivaldo esboçou uma feição ingénua e malvada
como uma criança petulante que acredita nas suas mentiras.

e tu bianca, mestra deste domínio, que te leva
a atear fogos em palha seca e sem prudência?
a vítima balbuciou que não havia provas
palavras vazias duma pessoa vazia.
o detetive devolveu com um olhar compreensivo e triste
e puxou mais um bafo do seu cachimbo.

lúcio tomou o mesmo lado, acusando-o
de se precipitar em passar juízo.
eu estive aqui, vi quase tudo.
pois, retorquiu, quase
para completar esse quase cá estou.

seguiram todos para a sala grande
sentaram-se nos sofás de pele, sujos de cinzas
e com algumas nódoas de vinho
contrastando com o brio do resto da divisão.
o cheiro a tabaco colava-se às madeiras
misturado com a humidade que vinha da manhã lá fora.

o crime é o amor
os malfeitores amam
e é difícil apurar onde a linha do desejo
acaba e a da paixão começa.
as vossas faces gritam culpa, afinal,
que humano existe sem a força primordial
da tentação flamejante?
o problema é, como muitas vezes acontece,
que o debaixo da toalha é mantido em sigilo
forçado pela vergonha e pela decência que vestem
prontamente quando se tornam transeuntes
na massa indiferenciada que circula pelas ruas.
o meu papel, qual houdini em caça às bruxas,
o nosso papel é jogar as mãos a esse pano
e fitar de frente os olhos negros que operam
quando a noite cai e os inocentes dormem.
um segredo intacto é um pecado que será pago
mil vezes mais nas voltas que estão por vir
e para poupar os impecáveis que ainda não nasceram
compete-nos arcar com as dores da verdade
crua e exposta que arde e no seu fogo
cura os devaneios dos compadecidos.

as lágrimas trancadas faziam os olhos
azuis de bianca embaçarem, brilhavam
como cristais acabados de polir à luz do sol
joias em seda clara. 
é boa a hora honesta, estimada,
e sugiro que acabemos agora com isto.
ela não cedeu, cerrou os punhos nas costas.

tu, rivaldo, filho de reis e plebeus,
com carinho guardo a memória 
de quando servimos juntos
nos velhos tempos de recruta.
já na altura não tinhas controlo
nessa vontade voraz que se esconde
na pacatez e no charme tranquilo
duma pessoa despretensiosa. 
a máscara compete a todos meu amigo
talvez essa que vestes agora esteja presa com afinco
e se do meu intento se escapa, não do Dele 
com certeza. 
noutra vida cometeste o mesmo erro
e foste perdoado
e foste perdoado novamente
e aqui também serás, não sou juiz,
mas alguém tem de pagar pelo espírito 
que se apagou como uma vela ao vento.

o mordomo e a testemunha ficaram em silêncio.
normal, pensou o detetive. 
quantas pessoas querem ver a vida alheia
em cacos? quantas querem assumir a responsabilidade
só porque o destino quis que estivessem lá
e tivessem os sentidos todos em dia?
só o malfeitor gosta de ter a faca na mão
a verdade na outra, como um refém
troca o desgosto pelo prazer de contemplar
o fim trágico dos mortais
que repetem e repetem
os mesmos enredos
por toda a história.

finalmente levantou-se e declarou
o caso está resolvido, os envolvidos
podem agora decidir por que caminho
preferem mediar o juízo.
suspeito que voltaremos a cobrir
a verdade com a manta e seguirá
tudo como dantes.
deixo as minhas notas aqui na mesa
caso mudem de ideias.

o padeiro

o padeiro trabalha a massa quando chega
são altas horas, nem os carros passam
e os vândalos já foram dormir com o peso
da bebida que os compele à acção.

veste o avental, cobre as palmas com farinha
terá que bater, processar, assar, transportar
contar, congelar, fatiar, vender e resistir
à impiedosa rotina do trabalho duro
a pouco ganho, anónimo com as moscas
que descansam em buracos obscuros.
por vezes um ratinho pode chiar em aberto
ou pode o padeiro verter uma lágrima na bancada
mas ambos passam a maior parte do tempo escondidos.

cheira a pão e a maquinaria
os motores da cidade.
ele abre frinchas nas dobras dos dedos 
quase todos os dias
quando joga os tabuleiros na fermentadora
o equipamento já é velho e não desliza perfeitamente.
são mãos rijas as que batem 
as carcaças de cada dia
a gente conta com isso
e ele na madrugada sabe
mas nunca ouve um obrigado.

humilde, o sol ergue-se no teu descanso
o peso das horas e o esforço nos ombros
refletem-se nas bossas por baixo dos olhos
que contemplam sozinhos o nascer de mais um dia.
o presente depende dele
das bactérias
do tempo
do calor
e da água.

obrigado.

estrofes que fugiram do armário

as cuequinhas sugeridas são aquelas que agarram as ancas
num abraço suave de consolo, sossegam o ego e guardam a frescura
do banho quente e cuidadoso que espreitaram com curiosidade
do gancho de sucção onde foram penduradas, como uma bandeira
à privacidade e aos sedutores segredos da higiene.

meias não rotas, por favor, já chega de ser fuinha.
devem ser grossas e quentes e deixar que circule
o sangue sem marcas nos tornozelos
e que fiquem casadas como a carruagem do velho frankie
impar deve ser no máximo o residente, sozinho em ser sozinho.
não é egoísmo, apenas me preocupo com o papel dos objectos.

o resto é uma escolha estética, informal e moderna
expressão de quem figura perante o próximo.
as cores importam, assim como a silhueta que fica
ora misteriosa com as pestanas tocando nas repas
e os olhos atrás da sombra do chapéu aventureiro
ora casual e desportiva, vivendo o encarnado orgulhoso
adornado com bling bling e uns rayban antiquados
o dito equilíbrio do contemporâneo com o nostálgico.

ganga bruta, camisa grossa
pernas finas confeitam os olhos das meninas
que sonham em livros javardos e escondem a vergonha
com tintas e pinturas na cara
blush para que não core
dito doutra forma.

os passarinhos também tem penas coloridas
em tantas formas, e fazem danças nos seus ninhos
e vocalizam descobertas exóticas para impressionar.
assim aperto os botões com confiança
sabendo que a vanidade que reside neste trato
terá por certo uma origem mais genuína
do que a atenção insegura que ponho em palavras.
penso nessas coisas com frequência.
quem conhece as amarras da banal anatomia
melhor do que os tecidos desta casa? querido algodão,
bendita flanela, calças verdes às bolas, largas e arejadas
amigas de guerra, colegas de trabalho, lenço de consolo
nos serões de remoinhos, às voltas comigo
somos parceiros de valsa.

serás
aquilo que te tranca em tons de pele 
rufando os tambores peristálticos
ou aquilo que alcanças 
com os braços abertos e a vista protegida do sol?

olha para baixo
não estás nu
quer dizer, por baixo da roupa estás
mas esse não é o domínio das criaturas
de sangue quente e terreno.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

reza vagabunda

quem quis
senão Deus, Glorioso, em chama eterna
com a vontade entre os dedos.

Pai, salva-nos
salva-me 
eu preciso do teu sopro sábio
como sempre deste nas horas vazias
do desconsolo duma alma idiota
que tenta com a mesma trama
em cada noite de rotina
e que sonha sempre
com ela, todas as noites
porque faz tanta falta
o amor verdadeiro.
eu tive essa paixão
e soube-lhe a espinha
e mãos fechadas nas goelas
entre viver e ser
um cruel malvado.
bach, herói,
dai-me inspiração por feitos poéticos
enormes e grandiosos 
a luta dos que ficam, o som da bicharada
humilde que canta solenes discursos
ao Senhor
e que a gente abafa com nojo e desdém
entre os bicos dos pardais
e os cantos das cigarras.

o vinho verte
pelas almas que olham
a madrugada de olhos abertos.
um, o meu, esquerdino
e matutando com desencontros
das gentes boas que sofrem
os amarros da perdição
dos corpos nus.
e Ele, e Ele
quis que fossem felizes
e eu fico feliz por eles
mas também queria
ser por mim.

o Teu sangue cobre a mesa
pelos risos da comuna da ralé
encantada de ideias vulgares que o abjecto
bilhete da carne encanta nos seus devaneios.
És tudo, o amor da nossa espécie
És a natureza encarnada em todas as cores
que só os pássaros contemplam
merecedores da Tua luz, filhos da morte
em caos e fogo e salubres águas que cobriram
a origem disto tudo. meu Pai
perdoa-me, eu desejo o prazer sensível
por Ti e por mim, um enorme e o outro formiga
que segue a cauda duma fila reta
e ciente na sua sociológica forma de ser simétrica.
Pai, canta-nos em oitavas orgulhosas,
somos herdeiros do Teu órgão.
os bosques clamam violinos de força branda
e fé infinita, entre as notas do ocaso intentando
contra a fraqueza que contorna cada junta
de cada osso dobrado perante o Teu saber
e que recusa ignorante
a glória de feitos Teus.

pianos tocam por todos.
meu Pai, Pai de todos,
é tudo que peço.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

se eu fosse uma estrela do folclore

tuuu-rururu
lembras-te dos passeios pela linha do comboio
quando os meus lábios temiam os teus
e desmanchavas os teus prazeres em francês
porque tinhas vergonha do peso da língua
que desejava e escrevia pelos meandros da noite?

tuuu-rururu
e quando as nossas costas arqueavam
na esplanada dum café que tornou-me no que sou
por causa de um chá mais barato do que a droga
e o cheiro do haxixe que permeava os assentos
de estivadores e sucateiros do nosso bairro?

tuuu-rururu
tuuu-rururu
tuuu-rururu
e eu mal cria
que o destino quis
que eu soubesse o sabor da água pura.
depois tirou
e o cano ficou.

tuuu-rururu
fizemos anos nos óscares
porque éramos móveis e intocáveis
porque o que é de verdade não tem forma
nem cheiro nem horas nem datas nem nada
e acaba de repente como o frio
de novembro que chega e mete
toda a gente doente.

tuuu-rururu
e se eu fosse uma lenda do folclore
nos céus?
voltarias?
acordaríamos lado a lado outra vez
até ao último dia?

tuuu-rururu
é incrível como estás tão longe.
do mundo novo não quero nada.


jangada de papiro

dum homem da guerra nasceu
esta terra embaçada de cobardes
que abanam a cabeça quando o vilão
aparece sem surpresas à porta.
a vigia é um homem que dorme na boca-de-fogo
enquanto a carrinha avança sem saber 
se é missão, rotina ou armadilha
ou quiçá resposta a um ataque
lançado pelo dito do outro lado da fronteira.

derrotem-nos
pensou quando acordou
entreguem o ouro a espanhóis
ou a franceses, vejam se me importo.
venham daí os tanques do nosso fim
é hora de lavar os montes encarquilhados
pútrido chão de bastardos e cães de casa
as rugas no solo são o legado que nunca viu
o encarnado e o verde da bandeira.
guerra aos rios 
guerra aos montes
guerra ao dicionário
guerra ao futuro que nunca veio
os artilheiros esperam um sinal
nunca virá
nunca será
nunca seremos
saltemos para o atlântico
mortos para o mundo
e vivos entre os peixes que habitam
o reino infinito das profundezas.

pátria amada
partiu.

nadamos pelas confrarias daquilo que já não é
entre estátuas e legados que foram lavados
pelo sal e pelas fossas,
agora comida para seres microscópicos.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

cortei a mão
em gestos bruscos
e tingi a parede de sangue
para que se lembrem
que plebeus viveram debaixo
de abrigos da chuva
igual às traças e às aranhas
que vivem na cidade.

para o amor abstrato e vencido

eu prefiro falar de mulheres
do que de temas complicados
sobre o futuro, do que será
das sombras do abismo
as ciscadas dos grandes sonhos
marretando nos seus corcéis de vocábulos
que levam a ideia pelas sinuosas 
contracurvas do que não importa
burro como um urso satisfeito
abrindo portas para fazer companhia
sem vontade de comer.

eu amo-te amiga
qualquer uma
ponto final
ponto reticente, vários
que a linguagem não guarda
competência nem com álcool ou sonhos
para descrever como és princesa
sonho de mil noites de verão
varoa duma torre em cheque
mais mais mais
que vós, que eu
leitores machos pixados
todos os que vão chegar a este ponto
másculos e lindos
LINDOS
o camelo bebe água
por tantos meses né?
estiquei-me
e foi foi foi
assim como a tua silhueta venceu
a carne sem vacilo
deuses e animais morrem na estaca
daquilo que é agora
agora agora agora
e eu farto da ágoras
do agora 
venha ele salvar-me de escanteio
em cinzeiros metálicos duros como a vontade
que não perdeu o fogo do tacto que arrasta as unhas
pela carne sangrenta.
venham, venham bascos asquerosos
de vinhos e cidras requentadas
as lamúrias de gentis 
que não nasceram para isto,
o cheiro a salsicha
tresanda a morte de porcos
seu filho da mãe.

bateu em oiro 
doirando as bochechas sedentas
mordendo a mordaça e o pó
quem sabe do que é feito? 
eu não

fizeste a barba, cortaste pontas
espigadas;
que herói da poesia.
morre morre na beira do que não foi
e de onde não és.
faltam horas para comer
e o solo não brota
ração ressequida
dos vulgos fulgores da vontade 
em ouro e prata
invisível.

calham flores em camisas pálidas
a cara derrotada do ator que já se foi
plumado peito de um homem
e de cabedal peneirado das vacas
que dão o leite que mete o cabelo
lisinho e com vontade.

idiota

tu mesmo, leitor
eu, o leitor
que nunca verga o vidro
nem os vultos que larga
pelas velas duma casa
iluminada pelos canhões
do presto e esperto desporto
das volições que são vilões
e o desejo por uma face quente
que encarne com um punho fechado
em aldrabices, fugazes e de cognac.

meita é a espera
dos desacatos do controlo.

eu guardo segredos do mundo negro e fundo
um coração puxado e esticado
nos benditos arcaboiços
do diabo que é filho Dele
como todos e como tudo
que come sol.

"está... morto!" miou por fim

escolhas infelizes pregam presas no alçapão
das patas de gatos bravos, criados nas ruas
e que vivem de migalhas e ratos que circulam
na alta hora do silêncio, em segredo, e que remexem
os contentores e a cablagem exposta de amanhos e puxadas.

eles cravam as garras em desespero, às escuras
rangem os dentes e berram lá de dentro.
não circulam humanos a esta hora
e eles não sabem jogar em equipa.

então então, que desespero que aqui vai!
arruaceiros malvados, calhou a hora
de pagar as favas, estou a perceber.
salvarei os mais quietinhos
ou os mais lindos?
talvez os mais prestáveis
ou então os mais amigos...

e riu-se do outro lado da porta.
a gataria pôs-se calada à escuta.
mas esperaram esperaram
e esperaram e nada
foi só uma troça de um diabo cruel
que passou ali ao acaso
e o soalho virou uma cova
na indiferença do fulano.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

candeeiros no parque

fala rápido quem pode, quem quer ou quem tenta
pelas tépidas trancas do orgulho e da ânsia
de algum cutelo que se encoste à crina solta
e foge a quimera entre as bolhas de mil cores
nos cortes que palpitam entre artéria e via
felpuda no chão quente. parte do todo
finalmente.

É FALSO
não não é
não é?
É F-A-L-S-O
e isso não é optimista?
só depende do chapéu que usas.

rosas embrulham os faroletes à beira
de parqueamentos refeitos para grandes superfícies
o desejo desvanece na sua intensidade
e as espinhas picam nos cantos roídos
de unhas nervosas que já riscaram o chão,
a cara, as escabujas que enrugam a testa,
costas pálidas que já se foram 
e o serrabulho dos ouvidos.

nem o vento passa
nem os melros se vão
só a noite estacionada com os carros
que corre sozinha por entre casas
de um bairro novo.

foi HONESTO
que se habite em mundos vivos
e desencontrados de relva rasa
o cimento rega o chão
com o cinzento do que é possível
e as flores são as luzes que adornam
um mundo rápido como agora.

sábado, 9 de novembro de 2024

amarelos

os amarelos eram um bairro malvado cheio de gunas
e gente da terra rasa mas também são cores cheias de vontade
como as luzes da rua que fogem das pedras que deambulam
embriagadas pela calçada, os calceteiros que as meteram.
blusas brancas em ruas roxas e esquinas que cheiram a fumo
e aos fritos que a cultura carrega pelos seus cinquenta 
madraços comparsas ligados ao município ou ao que fica
à beira do precipício pressuposto fim dos pesos da luta
e do que é difícil explicar em palavras. o poder, o verbo,
o que foi antes de se pintar o que era, a vista da serra ao alto,
os cabaças varoas de flores de plástico e enfeites que piscam.

turbulência nas camadas
que cobrem o pêlo
de mentiras que são decoro
de mentiras que aprazem
ao ouvinte que se senta
e se sente cansado.
frango frito nas beiças dormentes
de bagaço barato.

pujança e confiança na marcha certeira e ordenada
da matilha faminta que antecipa as sequelas da noite
das mil e uma horas de pura névoa e de puras noites
brancas como leningrado no inverno, invicta e adornada
do Senhor em todo o canto, a estrela brilhando no topo da torre.
fala com eles, lembrando quem és e donde vens
dribla com eles e com elas em jeito malandro sudaca nos poros
e nos queros onde habita uma paixão verdadeira.
as ânforas encostadas à parede, mementos doutros tempos
e templos com sangue e fumo de incenso e glória de batalha
punhos fuinhas fechados em cinta grossa, prosa que encanta
contadores de histórias e putos que seguem a sua voz suave
na cantiga dos heróis mitológicos extintos e amantes
de deusas e pecadoras, seios à mostra nos décors
de antigamente. ralé sem noção, ralé sem ração
morrendo de sede e vontade de planos.

sereno não sóbrio
vendo as turvas ondas dum barco
que se afunda pelos rápidos
da confiança de outrora.

asas para que te quero
sonhos que fogem da memória
as coxas da vergonha
mostrando o orgulho
em ter sido tão bela.