quinta-feira, 21 de novembro de 2024

gestos pra quem te endente

articulando o que quero 
com a empregada ao telefone
soube a intimidade rica
pois entendíamo-nos perfeitamente
nos gestos mal amanhados, ela com a cabeça tombada
prendendo-o entre a bochecha e o ombro magro
a vozinha da amiga mais alta do que nós
e do que a máquina de café
apontando para o que eu queria
para a garrafa de macieira
o cartão entre os dedos como num truque de magia
cortando o ar tipo um maestro que para a banda
e uma pequena vénia de obrigado.
é tão simples falar despretenciosamente
quando sabemos exactamente o que se quer
um objectivo simples como um copo, uma bica
mais do que ser ouvido, ela sabia
e isso foi simultaneamente
sensual e competente.

bebi lentamente o copo
pensando anedotas, ponderando estes versos
não foi apaixonante
apenas um espontâneo deslumbre
e gostava de lhe ter apanhado o nome
para espetar aqui no título.

se ela tivesse sussurrado 
vamos fugir para marrocos
tapando o microfone
para a amiga não ouvir
teria ido
bancado tudo
sorriso na cara
palpitando cá dentro
quimiorreflexos ao rubro
mas depois desligava
e víamo-nos de frente
e a magia se ia
porque as palavras dominariam
por cima da simples vontade
de fazer um pedido.
rogo que não desligues
portanto virei-me de costas
voltei para a mesa
ela continuou a chamada
e eu terminei a bebida.


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