segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

woody allen ao vivo

a bárbara foi a única mulher com quem vi o woody allen
e o tiago foi o único homem com quem vi o woody allen
é muito apropriado.
independentemente, vi o woody allen
e foi muito apropriado.

para a anita escondida, perdida no salão

eu salvo-te
eu salvo-te eu salvo-te
da bafienta incerteza
do conformado talvez
quando os dias se escondem
em lembranças vazias
nas heranças humildes
da casta que pena.

amiga destila
os sonhos em festas
lembremos os dias
que foram no vácuo
quando um desejo melindra
o suor rasurado
pela sonso demónio
da vida terrena
há cordilheiras nos andes
e anos cinzentos
mas o corajoso sigilo
é fortuito no fim.

anita vacila
dá um salto com espinha
o futuro na linha
só apraz numa valsa.
eu salvo-te a rima
num dom em três tempos
cruzamos o tronco
contando até lá
e volvemos num passo
mais um dois e três
sobes a mira
ajustando a perdida
paixão na neblina.

voltas com a erudita

anda ler um malmequer
bem te quer
mal te quer
ele puxa, puxa
os números certos
são pares.

bruta, quero-te
os braços 
a penugem
é uma gema que sinto
com o queixo
rasando
por um celibatário pulsar.

verso supetão na feira das letras

no excesso postulam com caligrafia delgada
clamando ternuras no pátio da glória
o semblante cuidado, os pilares erectos
escolhem vogais que se acerquem das suas.
uma salsada intragável, perdoem-me o termo
nunca é a outra cena, só há vicissitudes
com formato antevisto e doutrinado na forja
o financista do livro encolhe os seus ombros
e coloram-se as lombas em tons prateados.

o dom e a deia passeiam no largo
às vezes acertam um sincronismo oportuno
por certo querenças enganadas no rumo
um través do desígnio de papoilas em plástico
a dionísia sentença fica estampada na fronte
com calor evapora misturando no bafo
odores da lida que se escapam para fora.

travesso juízo, não esconde a certeza
badala rasgos vedados, ele vê e se acerca
batendo claras das crenças amenas que sorvem
os graus bafientos dum conhaque barato
é o desígnio a sentença, a prudência
do mestre bastardo de linhagem difusa
as medalhas custeando com ferro e safira
tutelando os jovens pelo lago dos cães.

chama-se ódio, dureza, carnação espigada
pelos sentidos expostos, exumando o que sabe
a voz doutro lado, das trombetas do anúncio
de feras sem falhas conforme o dever
das eras douradas, vivas e verdes por vir
a mensagem perdida dos dotes letrados.

o jubileu
um felino descansa
sem tranças nem danças
aparta-se o pecado
e murcham poetas
como senhoras a dias.

arranha

gato ruim
cravaste-me as unhas,
é a raiva indomável
do amor habituado.
entendo, sou igual
dois patifes de barriga cheia
calor a mais
e colhões a menos.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

o porquê da bebida

embebedado
puxando vozes do fundo
só pesam
a quem nega ser quem é
ou a quem abusa do que faz.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

as pantufas novas

comprei pantufas no lidl
altamente descontadas
parecem umas lanchas 
cor do alto-mar.

os meus chinelos 
são antigos, estão gastos
largam um serrabulho
muito estranho
vou eu limpando o chão
e eles sujando pelas costas
espalham cinzas húmidas
pela casa toda
que eu não venço nem por nada.

demorei dois meses
para decidir fazer a troca
vou demorar mais um
para retira-los do saco
é assim
sou apegado ao esfarrapado
muito resisto à mudança.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

schopenhauer chop chop

posto à frente da mira
caminho para quem se faz
réu ocupado e 
produto do agoiro quando
o som dispara não há quem
redima esse verso culpado.
à frente da violência
vives eternamente.
o diabo levanta os joelhos
e seguem-se os botes
com pés descalços e expostos
ao vento e às poças que minam
a estrada 
e repete
e repete
e repete
até...

ÉS QUEM EU VEJO

as entranhas conhecem o se
o senão
o sinal
com apitos sentados
no pescoço de estátuas
que batem entre margens
de um mar vagaroso
apresentado com o moer
da voz fina em sigilo
quando o bafo sobe
entre as plumas dum orixá
venerado em segredo
em costas dobradas
e em surdas pisadas
dum chuvisco ameno.

apraz
ver a dor
contornado as costelas
dum homem fraco.
hmmm
é bom
ver-te penar.

resto de carne salva
sã e endividada
fora da vida
suserana leveza de querer
os suores sombreados.

lenda
faz a fita
reza
pela fita.

desterrado

passam quatro horas
numa cave
encostado à quina riscada
amanhece em poucas horas
estás a salivar
aquilo que não podes
não deves
não queres
são só manchas descosidas
saídas da tinta e de bocas
como a tua
como a tua
como te chamas?
passos de dança espalhados pela sala
sabem melhor que tu
homero desterrado
é fácil fácil fácil
as luzes cortadas pelo fumo temem as paredes
refletem a tua sombra 
aí sim sem medo
palavras caiam-se com elas se deixares.

a coca perdida não perdoa
levantas os pés para que a busquem
sentes um leve sossego sóbrio
não perdeste nada
eles dizem que perderam tudo
mas tinham um restinho
observaste como se curvam ao pó
o espelho devolve a pergunta
ao camponês dos 300.

olhos arregalados
línguas distintas
quando se abre a porta
o som escapa para cá.

vamos lá dentro que o irmão entende 
o dilema
está um bafo horrível
existem almas a menos
e boinas a mais
uma saia pontilhada por robôs
conquista o seu espaço
acerca-se valente
o homero desterrado
não está para isso
o querer aumenta
o ponteiro aguarda
não é cansaço
mas põe-se a milhas.

boa noite e acena aos caracóis
do fulano que perdeu a droga
ao menos ele sabe o que não tem.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

o meu cavaleiro

rédeas que são consolo
é a forma da expressão.

amarrado, selim nos ombros
os hemisférios vão falando
e tu arreando bugigangas-
pouca falta fazem.

domado e cheio de justiça
esperando o julgamento
segue o trote lúcido
colorindo as frequências
enquanto se agarra em esforço
com cinco dedos na crina
e o braço no pescoço
forte
mão amiga.

a esperança é o feno
a esperança é o veneno
batem com a vara
apressas o galope.
aperta-se a rédea
é o conforto do abraço
esmagado com amor 
coberto de moscas.

espera
quem é este homem?
ihhhhh
sai-te já!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

tordo-comum

a crença é uma província
alcance o seu governante
a influência faz a fronteira
à qual as almas se amarram.

puxam as rodas dentadas
riscam o chão com um guincho
o templo chega e radia
erecto ao lado do lixo.

um tordo espreita o pilone
nenhuma porta o guarda
a entrada está decorada
com vários homens sem nome.

à fome enchem a boca
com um punhado de terra
é o tesouro do reino
engole um velho profeta.

a banda toca no quarto
ninguém a ouve cá fora
o burburinho do monte
quebra outra pauta concreta.

das mil senhoras sentenças
sai a carroça indomável
e afastado em silêncio
o tordo senta-se à espera.

mercantes e transeuntes
dobram os quatro caminhos
da areia brota o perigo
mas eles seguem em frente.

o mapa não é terreno
o plano emerge do fundo
em cada grão vai um número
guardam pilares de pedra.

onde fostes, quem sois?
fosseis fazendo questões
com as asas desfez as amarras
e seguiu o tordo viagem.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

no baixo saciado

arrebita na linha que é precisa
não desdenhes a peça que só palpita
esse cárdico entrave à rebeldia
a bandida não cresce não mexe 
não acredita
faz que fazes descaso mas só arrelia
essa espera cansada e dobrada
e sem magia
segue mas é para fora
a artéria devora
outro copo conforme o que o desdiga
é uma fantasia
é uma ganda tanga
é uma farsa rica
é uma sinfonia
leva na manga o truque
escreve a terra na peça
e faz o batuque
estás na reta da meta
mas segues com pressa
para quê ciúme?
crê na saúde!
a saudade ao lado só prejudica
não importa se é pobre conforme
ou faz de rica
aos anéis arrojados de duque
digo abdica
é fácil o espaço que não complica
segue-me pela guia
confia nessa dica
mastiga o sono cortado 
é só estrica
faz-te baço na sina que ela afina
quando temes a mina e não dobras o aço
no fugaz rumo dessa bambina
há trinta e tal só numa esquina
a armadilha estica
mais um benzo na bucha
mais um maço na chucha
pois eu não devia
roçando os dedos nas botas
intuindo com notas
mas é a cinta rija
e uma voz vadia
que relembra a prece que fazes
quando é de dia
controla o incauto intuito
e beba uma bica
na mirada esguia
segue um caso fortuito
ela puxa o colar e adivinha
mais uma sina perfídia
sem opções
ignora os botões
eles apressam e querem
mais um camões
pois bem que se fodam
eles andam em pares
tu em multidões
e tens mil perdões
e em nenhum te pões
a estima do baco
é um saco raso e indulgente
de gente que nem é crente
penando com o corpo e a mente
vai tu de frente 
para dez duma vez
assim bem entende
quem quebra na noite
não empresta nem vende.

tuk-tuk tuk tuk-tuk tuk
é a boleia duma fera
que acorda cedo
tuk-tuk tuk tuk-tuk tuk
ela pode ser princesa
mas és da megera
tuk-tuk tuk tuk-tuk tuuuuk
é só uma vela acesa
que não degenera.

carcaça

a ronha fica pronta
atrás de qualquer monte
empilhado na calçada
duas sagres, uma média
a outra mini
as entranhas da poltrona
a mesinha de café
com as pernas para baixo
mas os olhos no chão
umas caixas de cartão
e outras caixas de cartão
coloridas, são a manta
que abriga
do frio e dos cacos
mais os restos de comida 
podre
um banquete para pombos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

por este rio abaixo

quais são os passos 
as flautas
que olham para a lua sabendo
o preço e a certeza
das palavras que dobram
o que dizem na neblina?

põe-te à escuta
ponderando
o que há, qual o senso
que saberia responder
a mantras verdadeiros 
e sigilosos segredos
que não sei
nem os ecos reproduzem.

rápidos
drenam o verso
aquele que não sonhas
junta-te, dizem eles
e o vento engole
nos cantos dum resguardo
salvando o ego e carpideiras
que ficarão desocupadas
tanto quanto temas
os desfechos da floresta.

dizem pelas folhas
olha uma lady 
ela redime
essa fumaça que dissipa
quando compra
mais um tento ao canoeiro.

o rio segue
o rio segue
as raízes dançam 
enquanto oscila uma faísca.

quais são os passos
que muda o vento
e desvendam as etapas
de um insolente
mundo mutante?

há um tudo
bem a leste
a oeste o vislumbre
das vozes que ficam
nas gotas da fonte
ou o apogeu
duma sensação que seja
quando o bosque completa
o paraíso esquecido.

não sabes, o pífaro
soa na cacimba
dum mato engolindo
voraz, implacável
tudo aquilo que a noite pisa.

HÁ UM CAMINHO NO MONTE
TRILHA SOZINHO NA TERRA
AS ESCADAS PARA O CÉU.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

outra noite na verderena

passei a madrugada rebolando no colchão
treinando discursos para uma plateia vazia
na noite passada devo tê-lo feito em sonhos
acordei numa poça suada, ouvidos entupidos
a colcha amontoada no chão, coberto de lençóis
com uma secura na goela que não virou doença
apenas pela injusta resiliência deste corpo castigado.
hoje não fui tão paciente, ou estava menos cansado
assim pela hora do diabo desisti de pretensões
aqueci um leite magro e escancarei as janelas
hora afortunada, tirei o camisão e abracei a brisa
que vazava o fumo desta sala
até que veio a chuva, poucos minutos depois
e por sorte estava em pé e recolhi a roupa.
hora afortunada com certeza.

esta costumava ser a brecha do glutão
caindo em qualquer banal tentação
uns biscoitos, um charuto, bagaços numa taça
sequestros da carne em passinhos leves
a velha cena dos lobos da cidade
vivaços, mascarados de pessoa
com a cruz no peito e a voz dotada
esperando seguidores que não os vejam
enquanto devoram inocentes.
agora emplumam os pêlos, lambem as patas
fazem metas, cumprem planos
colaboram com a presa.

todos querem alguém com quem contar.

com o estendal cá dentro sentei-me novamente
repensei o dia e li um pouco
sobre costumes antigos de carroças enormes
como a casta baixa era engolida pelas rodas
crendo que se tratava duma enorme bênção
coitados
idiotas
não devo praguejar a cultura
mas morrer debaixo da pedra
parece um infeliz fetiche
de quem se queira livrar
da escumalha.

talvez seja hora de sair de casa
a chuva abrandou.

vim cobrindo o medo
com o meu gorro orelhudo
os prédios lançando sombra sobre a sombra
meti-me na estrada
passei pelos cafés, todos fechados
uns pela hora, outros pela morte
quanto mais longe de casa
menos cansado ficava.
passei por uma puta junto à paragem de táxis
parecia ter frio, claro, com a farda que levava
queria trocar umas palavras
mas receei que fosse roubar-lhe tempo
do seu trabalho
e no fundo só queria desembrulhar
a conversa que me pôs aqui para começar.
segui em frente.

no escuro é difícil perceber 
mas havia morcegos, ratos, baratas, carochos, traças,
pombos entre calhas e varandas
solitários à janela, homens dormindo nos túneis
em cartões manchados, a folhagem seca
e eu, policiando a verderena.
sem me aperceber discursava novamente
esperando o retorno com atraso, mil palavras
para te convencer que eu sei o que sabes
vamos fugir
pensava 
só que na pele de verdade eu adoro esta margem
e os malandros com receio de mexer
quando a luz os descobre.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

capacete e ferro pela fila

eu bato bato bato
nesta casca ferrugenta
e ela aguenta aguenta aguenta
como se fosse de aço.

transportava tecidos
fitando o calcário
desafiando a calçada
com os ombros para a frente
e as virtudes tapadas.

os pertences do brio
são deslumbres temidos
dum franzido tépido
indecente no alcance
ruminando as besteiras
da gentil ambição.

tolo
são os membros dispostos
pelo teu corpo são
desenlaça o nó górdio
que o amarra ao chão.

a marcha é leve
pois reservaste que baste
dobra o canal com vigor
seguir-te-ão num só renque
é o imposto da gente,
ela precisa de ti.

bate bate bate
a retaguarda coberta
e é certo certo certo
que nada temas portanto.
coragem capitão
frio é o ferro
que domina o padrão.

amargo malteser

amargo:
leva amar
leva vai
leva má
leva-a.

foi no recreio
cravando à grande
qual saco sem fundo
porco e pobre
trouxeste a oferta
cheia de esforço
tirada de adultos
puxada da brasa
e deste ao colega
duvidando de ti
bateu-te na mão
mandou-o ao chão
ficou para ninguem.

doce de vidro
salvou-te os dentes
a má intenção.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

heróis de barro

os mortos não te vão seguir
sem pena, sem rir ou sair
os largos passos no passeio
vão subir com pressa aos céus
a fita baixa, as mãos nos bolsos
continuarão cerradas, suadas no vazio
tudo quanto queiras vai ficar
o barro não dá sorte nem azar
ele abraça-te os ossos e o pó
é a vaidade que levaste.

erguem-se pedras polidas
marcam o nome dum tesouro
sem chegadas nem partidas
é o labirinto das eras douradas
onde se fundaram heróis em silêncio
e quem perde não ganha
e quem ganha não vence
por muito que pense
em cornetas pairando
nas cercas de rocha fina
adornadas com safiras 
como as lentes duma gárgula
perscrutando o orgulho.

o barulho dos tambores
engole a glória clemente
ficam ossadas em terra
e não te seguem os mortos
quando cai o véu
repousa no brilho grato
que aceita o seu desfecho.

há um reino eterno
pássaros que são o espectro
a vigia da melodia
na casa dos teus antepassados
curva-te
e aprende a sorrir
os mortos não te vão seguir.

domingo, 5 de janeiro de 2025

trigo em solo infértil

eia maluco, quem te vê
nem imagina quem foste
deambulando em lamechices
sobre riozinhos e fiozinhos
e a carinha fofinha das ninas
contra a lua...
pá meu, tens que atinar
alguém quer saber se lavra
a fome e a pele clara
algum grão de decência
nesse pantanoso desígnio
encharcado de desejo?

acorda malandro
cerra a vista desse pranto
e colhe pelo caule
aquilo que bem sabes
a rega maluco
a rega 
as orquídeas murchas
perseveram no inverno
pintadas de negro
cobertas de ouro
brilhantinas duma material
forma de ser.

és excesso
pútrido, agudo
rasgado de querenças
és o veneno das sinuosas
formas do teu anima
o contorno dum sonho 
plantado pela sombra
nas almas doces, sinceras
vampírico e nojento
coberto de vermes
campo do sol sangrando
num amanhecer depois da guerra.

ouves como uiva
o conhaque no cristal
parece digno
fino, de reputada presença
é só o destilar barato
que preenche cartolas
como um grande crânio
dotado de ciência e ocultos
ofícios
prestam em tardes de chuva
quando escurece cedo
mas pouco sabem de poda.

veloz, reza que passe
corre a portada e deixa entrar
a essência árida que pousa
por baixo da moagem.

és o pó
de campos esquecidos
larga-te dessas cantigas
são só superstição.

sábado, 4 de janeiro de 2025

para uma amena cabanita

eu guardo
todos as confissões
que os olhos espelham
assim a tua face
descansa numa palma
e sente o ardor terreno
do aguardado mundo novo.

eu tenho
um canto para mil poemas
e muito chão desocupado
podem ficar os teus livros
e a roupagem por cima 
cobrindo a verdade
com a transiente promessa
da união de corpos leves.

eu quero
que te lembres do rufar
das batidas no estrado
do ranger da segurança
tentativamente quebrando
a esperança dum passado
que não veio por fortuna.

eu sei
as dobras na coluna
querem unhas que as cruzem
fazendo caminho pelas sombras
e quando palpitar
uma saudade perfídia 
seremos um 
pela última vez.

música para os teus ouvidos

olha como treme
o nylon nesta terra
soa o frio de janeiro
pelo braço da guitarra.

a ponta dos teus dedos
dá frequência ao casco gasto
e segue cego de memórias
encarnando as vibrações
que chamamos de vontade.

canta uma voz doce
os objectos do apreço
os convexos vislumbres 
ingénuos e esquecidos pela brisa
que os vai levando para a beira
e torna à água da corrente
os esforços de quem dorme
com a nuca deitada no nunca
ou nas correntes geladas do sempre.

vai
tenta a nota firme
azul
rogando o desfecho
que complete essa pauta.

vai
tudo será melhor
se a música tocar
se o verbo voar
nos lábios do artesão
todos os ritmos se cruzam
entre os versos da canção.

manda vir o tempo em terços
baptizado de termo ou tento
seja cínico o compasso
sirva o fogo pelo aço
enrijece o querer louco
e darás um passo largo
de três silêncios e uma breve
resposta que a guarde
numa noite nada branca
como esta e outras tantas
junto ao tejo endiabrado
torpecendo a escuta altiva
dos renegados da certeza.

o nevoeiro mascara
a melodia sigilosa
de um rosto repousando
depois de anos repetidos
mas nunca em pleno resolvidos.

vamos
sente a acústica nas ondas
corações cruzam-se na valsa
e batem contra as cordas
conduzem a batuta 
de pessoas que por fim
são pura sintonia.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

espero que não leias até que digas sim

nita, é meio óbvio
que se passa aqui alguma coisa
decente
enquanto dormes nessas
horrorosas novelas
da meia-idade
rodeada do pior que o bairro pode destacar.
sendo franco
o sussurrar duma mão fraca
descoseu-me os sentidos de tal forma
que tinha meio que desistido
da tua cena
depois exististe e
exististe com certeza
fechei a janela
e ficámos a ver os buracos na estrada
duvidando de crenças sociológicas
como intelectuais baratos que somos.

jogaste a franja das repas
e eu virei o chapéu
dedos frios tremiam
por cima de coxas gastas.

cegueira, segui-te
descobri-te num canto
segura ficaste
e segura jurei-te
que ficavas
às tuas comadres
que abençoam esta estrofe
pela calada do apreço.

procuras um homem e eu também
pois bem que tenho tantos
guardo-os debaixo do telhado
e passo por todos de visita
e largo um abraço fraterno
pelos meus camaradas
e todos cederam
o rei e o amigo
tiraram-me o chapéu
dobrando as costas
para o feitiço bendito 
escorrendo
duma ponta dum charuto
na passagem para o próximo
ano
e tu
sabes melhor que eu
partilhando o meu compasso
num sonho qualquer
e tu
manténs a força da fachada
enquanto partilhamos batidas
palpitando ao mesmo tempo
numa noite festiva
e eu
serei quem baste
para servir um vislumbre
para vestir o costume
como um adolescente
acredita na verdade
escrita entre páginas
de romances de bolso?

sim eu sei
eu sei eu sei
que está difícil desse lado
e as curvas são cegas
e o destino desafia
esses pulsos finos
o olhar cansado
as vontades terrestres
parecem ilusões
efémeras, em desespero
agarrando-se ao que resta
de pessoas antigas
eu sei eu sei sei sei
mas acredita que há milagres
em terra 
tudo se verga
nos momentos nobres
de justiça clamando a si
o que importa
os corações trancados
em carcaças sarcásticas
fazendo que feliz é aquele
que o nega em pleno
idiota forma de ser conforme
contando o terço nas espadas
penduradas em ombros
magros e vencidos
como se querer fosse um ímpeto
barato de criança
eu sei
mas tu
podes crer por dois
ou três ou quatro ou cinco
ou seis
ou tantos quanto queiras
e descansar num manto largo
com penas de patos exóticos
e ajudar-me a escolher
as madeiras mais finas
e tirar os engates da roda
que determina o destino
e eu
serei cúmplice
nem que o fogo nos coma
num ardor odioso e justo
de partir o coração
de quem não o mereça.

vamos
regar as flores do mal
que eu tirei-lhe com pratas
fugir das velas castiças
que trilham o passo certo
arrisquemos a vida plena
que eu sei partilhar
com olhos negros brilhando
como os teus
que desejam nas sombras
e tu
provavelmente irás
e ficarão as memórias
duma promessa que fizemos
algures num sonho
eu
e tu
num café ou
entre copos
num bairro perdido
num mundo esquecido
antes de conhecermos
os níveis do inferno
da vida verdadeira.