quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

espero que não leias até que digas sim

nita, é meio óbvio
que se passa aqui alguma coisa
decente
enquanto dormes nessas
horrorosas novelas
da meia-idade
rodeada do pior que o bairro pode destacar.
sendo franco
o sussurrar duma mão fraca
descoseu-me os sentidos de tal forma
que tinha meio que desistido
da tua cena
depois exististe e
exististe com certeza
fechei a janela
e ficámos a ver os buracos na estrada
duvidando de crenças sociológicas
como intelectuais baratos que somos.

jogaste a franja das repas
e eu virei o chapéu
dedos frios tremiam
por cima de coxas gastas.

cegueira, segui-te
descobri-te num canto
segura ficaste
e segura jurei-te
que ficavas
às tuas comadres
que abençoam esta estrofe
pela calada do apreço.

procuras um homem e eu também
pois bem que tenho tantos
guardo-os debaixo do telhado
e passo por todos de visita
e largo um abraço fraterno
pelos meus camaradas
e todos cederam
o rei e o amigo
tiraram-me o chapéu
dobrando as costas
para o feitiço bendito 
escorrendo
duma ponta dum charuto
na passagem para o próximo
ano
e tu
sabes melhor que eu
partilhando o meu compasso
num sonho qualquer
e tu
manténs a força da fachada
enquanto partilhamos batidas
palpitando ao mesmo tempo
numa noite festiva
e eu
serei quem baste
para servir um vislumbre
para vestir o costume
como um adolescente
acredita na verdade
escrita entre páginas
de romances de bolso?

sim eu sei
eu sei eu sei
que está difícil desse lado
e as curvas são cegas
e o destino desafia
esses pulsos finos
o olhar cansado
as vontades terrestres
parecem ilusões
efémeras, em desespero
agarrando-se ao que resta
de pessoas antigas
eu sei eu sei sei sei
mas acredita que há milagres
em terra 
tudo se verga
nos momentos nobres
de justiça clamando a si
o que importa
os corações trancados
em carcaças sarcásticas
fazendo que feliz é aquele
que o nega em pleno
idiota forma de ser conforme
contando o terço nas espadas
penduradas em ombros
magros e vencidos
como se querer fosse um ímpeto
barato de criança
eu sei
mas tu
podes crer por dois
ou três ou quatro ou cinco
ou seis
ou tantos quanto queiras
e descansar num manto largo
com penas de patos exóticos
e ajudar-me a escolher
as madeiras mais finas
e tirar os engates da roda
que determina o destino
e eu
serei cúmplice
nem que o fogo nos coma
num ardor odioso e justo
de partir o coração
de quem não o mereça.

vamos
regar as flores do mal
que eu tirei-lhe com pratas
fugir das velas castiças
que trilham o passo certo
arrisquemos a vida plena
que eu sei partilhar
com olhos negros brilhando
como os teus
que desejam nas sombras
e tu
provavelmente irás
e ficarão as memórias
duma promessa que fizemos
algures num sonho
eu
e tu
num café ou
entre copos
num bairro perdido
num mundo esquecido
antes de conhecermos
os níveis do inferno
da vida verdadeira.

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