segunda-feira, 29 de setembro de 2025

antibiótico

uma terapêutica pigarra
reclama do fumo
guarda o silêncio.

canta adiante, camarada
assobia uma canção
traqueja no pousio.

domingo, 28 de setembro de 2025

voto de silêncio domingueiro

calmo e indiferente, dia neutral:
foi assim que anotei esta minha última
folga.
a tarde tranquila, a neurose contida
cheira menos a tabaco, anoitece mais cedo
é o único sítio onde não importam as cores,
aqui - escondido do mundo
num descanso partilhado e merecido por ambos.

silêncio desinspirado, palco perfeito
para encenar as memórias em espaço seguro
o baixo contraste cinzento e amarelo
dá um brilho arrastado às primazias do espírito.
como foi? por onde passa o dedo inquisitivo?
sim, imaterial desejo, és tu
no banco dos réus
um processo sem júri ou juiz
só um pau trespassado por um prego
que anuncia a sentença quando bate na carne.

paga-se o crime com sangue
a vaidade com tempo
língua dobrada e o preço do medo
vazio, estúpido e glutão.

se o amor e a verdade são uma só
frequência originária, de passo certo,
então aqui neste meu limbo arrendado
espreita-se da janela enquanto cruzam a avenida
nem assombrado nem ansioso
impávido ouvindo o roncar de carros velhos
quebro o sigilo proclamando a questão:
onde estarão
nestas caixinhas iluminadas que pontilham 
o horizonte?

o eco responde com palavras soltas
que só se ouvem no espírito:
encontrar o Pai,
lavar a alma
e tornarmo-nos um.

imateriais desejos
estão perdoados
autor
renova a vontade com a voz humilde
deixa que o mistério incorporar-se-á quando
for a hora, quando for de noite
tudo será memória, que vestirás com carinho.
a pena é a essência dos seres
noutra palavra, natureza.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

aristogatos doutorados

é um principio vazio, esse do eu.

"eu", alguma coisa que desabrocha
contorce-se pelos rugidos bravos
de leões famintos e raivosos
ou o raio que o parta.
tá.
arrisco que sejam mais gatos lambidos
passeando a verbose nas línguas cortadas
em escrivaninhas maciças e desocupadas
não vá o instinto aventurar um trespasse
às tarefas diárias de arrochar ou ciar.
miau, o esplendoroso despertar da consciência
miau, ele dorme nas caixas que adorna de rótulos
miau, são espelhos cromáticos que adoram o sol
as redomas que travam um querer supetão
um rasgo liberto com os dentes no chão.

dessas crias soturna só mesmo a pelagem
que esvoaça no bafo duma voz papagaia
repetem os nomes remetem aos temas
sabido é dizer que se penteiam neles
puxando dos lados revelam a testa
mais o crânio velado de dentes caninos.

II
há dois sem partida? sim

III
é que as partes tornam as dores mais fortes
o sensível mais fundo, a dureza mais dura
a estrutura comanda e a estrutura expõe
o apreço tão sábio dos fortuitos legados
esses ficam pegados à lomba e aos mil
desígnios que guardam para falar de foda
a estética forma de vestir com vernáculo
desabafos rendidos ao querer ancestral.
esta vírgula é um brinco
vírgula
a outra é um chapéu
traço
esse fica nos cílios, agarrado às ramelas
penduricalho nos pêlos à volta do olho.

como passa vaidoso o senhor desta selva
coroado por normas da escola de chicago!

miau miau
faz-se de alcoólatra
foi ao terapeuta
bebeu uma jola
ó filho de baco
atrasou-se um bocado
esqueceu o cachimbo
do filtro moderno 
protege os pulmões
decora os sermões!
sem ar não há voz
sem voz o rugido
se afoga em catarro
e ficaria despido.

miau miau
copo dourado que comanda a boémia
burguesa vontade da fuga de classe
esquece essas bestas que vivem no tasco
derrete-lhes a vista uma bibliografia.

mas o ouro pôs-se omisso
assobiou uma cantiga esquisita
sem instrumentista
a melodia era bela
mas os seus ouvidos de gato
não entendem a prosa
de um passeriforme. 

V
4 perdido, quartos trocados.

desculpe mas o meu cupão diz
que este é meu e não teu... 
sabes ler não sabes?
tá.
podes vir já que eu não trouxe bagagem.

VI
no alto da lua, minha musa, lúgubre e sã!
fita o teu reino de tinta da china
vê o vaza-barris, guardião do espólio
cantando o porteiro aos teus pretendentes
os algarismos casados que não os poetas
os poetas castrados batendo punhetas.
hã?
os algarismos cansados que não são poetas
os ilustres letrados pousando as lunetas.
(perdão).

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau!
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau.
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau,
miau miau miau miau miau.

miau miau miau miau miau,
miau miau miau miau miau
miau miau miau miau miau!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

miasmas

dois lixos, dois baldes
o grande
onde vai o podre
do que fica por fazer
e o pequeno
a argamassa dos
lenços sujos com cinzas.

fazem as beatas de larvas
famintas
crescem lá no fundo
caixas de cartão o seu casulo.
chegará a hora
da metamorfose
e todos seremos
repulsivas borboletas.

domingo, 21 de setembro de 2025

os dentes

os meus dentes parecem tão frágeis
quando os sinto na ponta dos dedos
o tacto dum homem
grande - grande
homem
da guerra, que trinca
os ossos tépidos
de carcaças cunhadas pelas presas
de seres maiores
meu homem, meu homem
algures virão 
pelo mundo
as unhas, os dentes
as botas que bates
serão o fim
de alguém.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

trotineta

trotineta com vagar pela avenida
vê as vistas, os cães puxando as trelas
de senhorinhas viúvas que já só amam
animais e revistas de fofocas,
os pombos e os melros, mais ariscos,
o reflexo da costa que adorna
a água poluída, para tainhas 
e a populaça corajosa,
homens de chapéu com as suas canas
içadas lá ao longe onde os raios
pescam com eles.

jovens de preto e branco em bando
ziguezagueiam na calçada com os seus
sincopados passos
e os sonoros severos
duma atitude que não lhes cabe na camisa
larga que os cobre até aos joelhos.
um fulano de bigode e uns óculos quadrados
segue atrás meio aos gritos,
uma conversa zangada que atazana
a vizinhança, corta os roncos
das motas e o pulsar dum pistão elétrico
o plástico aos chocalhos, um zumbido
de poste em poste
de poste em poste.

sobe uma rua esburacada 
não cai, mas treme,
vê-se na vitrine duma loja fechada:
um semblante aforme por baixo
duma carapaça de tecido.
endireita-se, espreita, faz-se rijo
contornando os obstáculos
não tem hora de chegada
não tem compromisso que o preocupe
só segue trotinetando
por esse seu barreiro velho
até que os minutos se esgotem.
de quem?
ou os dele 
ou os da trotineta.