calmo e indiferente, dia neutral:
foi assim que anotei esta minha última
folga.
a tarde tranquila, a neurose contida
cheira menos a tabaco, anoitece mais cedo
é o único sítio onde não importam as cores,
aqui - escondido do mundo
num descanso partilhado e merecido por ambos.
silêncio desinspirado, palco perfeito
para encenar as memórias em espaço seguro
o baixo contraste cinzento e amarelo
dá um brilho arrastado às primazias do espírito.
como foi? por onde passa o dedo inquisitivo?
sim, imaterial desejo, és tu
no banco dos réus
um processo sem júri ou juiz
só um pau trespassado por um prego
que anuncia a sentença quando bate na carne.
paga-se o crime com sangue
a vaidade com tempo
língua dobrada e o preço do medo
vazio, estúpido e glutão.
se o amor e a verdade são uma só
frequência originária, de passo certo,
então aqui neste meu limbo arrendado
espreita-se da janela enquanto cruzam a avenida
nem assombrado nem ansioso
impávido ouvindo o roncar de carros velhos
quebro o sigilo proclamando a questão:
onde estarão
nestas caixinhas iluminadas que pontilham
o horizonte?
o eco responde com palavras soltas
que só se ouvem no espírito:
encontrar o Pai,
lavar a alma
e tornarmo-nos um.
imateriais desejos
estão perdoados
autor
renova a vontade com a voz humilde
deixa que o mistério incorporar-se-á quando
for a hora, quando for de noite
tudo será memória, que vestirás com carinho.
a pena é a essência dos seres
noutra palavra, natureza.
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