quinta-feira, 31 de outubro de 2024
chique / beleza escondida num vestido caro e fanfarrão, não esquecendo que se escapa dos genes e se apresenta em seda fina
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
confissões II
comédia e tragédia e as sombras da babilónia
8º na gago
amigo do dente azul
segunda-feira, 28 de outubro de 2024
abancado no cenozoico
domingo, 27 de outubro de 2024
para a americana no banco alto do pub
que digo que é meu. a fumaça ainda não conseguiu
sábado, 26 de outubro de 2024
a batalha moderna vista em canais do telegram
paciência, nem tudo foi ontem
sexta-feira, 25 de outubro de 2024
para o pistão
e na próxima
as luzes da verderena
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
o meu passarinho azul
ele fazia par
com o outro dentro de mim.
ele tinha um nome, vocabulário,
várias danças, uma música,
quando li que o amor era uma libélula, vomitei
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
as flores na tua casa
mk ultra-sexooo no youtube
terça-feira, 22 de outubro de 2024
a normaleza
como sempre, o cigarro encostado
ao canto dos dentes nas escadas
e atirei contra o sofá o chapéu
e quase toda a roupa, pus-me em
cavas e na cruz que escondi e agora
anda livre contra o espelho.
hoje, um dia grande
seja pelo tempo que passou
seja pelo esforço que foi feito
em misturar-me convosco, normaleza
os filhos do tempo e da destreza
de saber navegar nesta era.
os espíritos das ruas conduziram-me
aos lugares que preciso
os colegas, os amigos, conhecidos
encaixotados no logro do ofício
como desbravámos os cantos
fingidos, a vontade respondendo a lento termo
às preces daquilo que precisas, estalando entre
ser tão ESPECIAL e ser tão NORMAL.
fui de uber, como sempre, com medo
do suor no pêlo de vos ser próximo
e lembrei-me de um mano que assim é
a toda a hora em toda a parte,
e nunca mais julgarei essa
melindrante vontade de escapar.
estavam tantos, em grupos difusos
unos no sítio, incapaz de fazer caminho
próprio pelas luzes que piscam entre os toldos
das esplanadas que cobrem um hotel de luxo.
os herdeiros e uns fidalgos
da normaleza estacionados
com os pipos jorrando um cheiro a gomas
e melão, que nojo, odeio esse cheiro
falso e aceitável.
fomos, comemos, eu não,
só fingindo que esses petiscos
eram bons e eram filhos
das estrelas todas que quedavam
no placar que vi logo à porta.
a massa fria, o porco cru,
cenouras cortadas em trato raro
para a plebe que fascina
com essa comida de resina
valorizada pelos que sabem de comida
de resina.
logo será hora duma chamuça
bem-feita e que apraz às vontades
da prole.
o dia foi labuta, como sempre
mas como nunca, testando
vocábulos numa língua que mal sei.
atrasos são critérios de vontades
medidos por quem não as sabe
e nem as sonha.
feita a obra, treinos para pessoas
que não existem por agora, pessoas
que não existem por agora,
como eu, mas eles não sabem.
a normaleza não sonha, acho eu
e se sonha não são sonhos de gente
mas sonhos de senhores que se escondem
algures entre "tinha que ser de mim"
e "não fosse eu então quem?".
sois plebeus, como eu
e como os meus.
esta foi a parte simples.
o céu e as aves adornam a vista de pessoas
que não entendem nem céus nem pássaros
mas são gente que nem eu, camponeses
como eu, mascarando os seus dedos calejados
como eu, tentando as vontades cheias de entradas
como eu, vivendo a meio gás com toda a pica
como eu.
tirámos umas fotos, jogámos umas piadas
ao vazio desta conversa, sem princesas e
uns duques que na sua sapiência perderam
o juízo e optaram pela competência duma forma
burra e honesta, talvez como eu
mas não tenho documento que comprove.
apetece-me fugir
apetece-me fugir
diz-me a voz no fumo
do camelo.
fumei um, e dois
e três, nas fronteiras
da piscina iluminada
de leds e inglesas
que jogam os seios
contra os ares.
são quatro estrelas, dizem eles
mas mal conheço constelações,
os senões pendurados numa cinza
por bater.
desde que foste isto tem sido muito difícil.
desde que foste isto tem sido muito infeliz.
desde que foste isto tem sido tão... plástico
aprendi tão bem os artifícios da vontade
da normaleza.
pum pum pum pumpum
pum pum pum pumpum
batem corações a quatro tempos.
henry, meu homónimo, somos parecidos
e tão distantes no tempo e na realidade
que eu aceito, acho, e tu jogas contra
as efémeras flores do agora, do agoiro
que encantas em humor e frases vazias
como eu, como eu? não bem
mas é parecido que baste
para sermos primos noutro mundo,
pum pum pum pumpum.
tenho que fugir deste subúrbio
sem filhos. faltam tantas horas.
seríamos quê, uns trinta ou quase
mas quem? magros serventes
da miserável vida da cidade,
uns da malha, uns de gralhas, uns dos tentos
que Deus nos reprime, mas a gente joga
e joga e joga e joga e joga e joga.
pego na cruz, sem desculpas, cada um
sabe os crimes que terá de pagar quando chegar a hora
de pagar os crimes.
eu só queria um filho, o pôr-do-sol admitido
como a morte que sempre foi, a família
na lareira contando as histórias
da nossa sobrevivência.
ainda faltam tantas horas para jantar
eu só quero pôr-me a andar pela estrada
batida que vi do uber que me trouxe.
trago a cruz no peito, escondida porque
não sei se serei medido pelos ossos
deste ofício.
contive-me, guardei com fé
e medo e vergonha, mais uma para pagar
depois do agora.
num passeio a Verdade deu-nos uma luz
daquilo que é e daquilo que sonho.
falei com ela e não ficou nada
só umas letras perdidas na resposta
rápida de ser normaleza.
pum pum pum pumpum.
o rio desafia-me a saltar e eu recuso
porque afinal pertenço aqui
e não nos claustros do caos
que eu finjo que desafio com a vontade
mas são só desejos juvenis dum homem fraco.
falta-me um bagaço, talvez
ou falta-me o brilho dum génio.
voltámos, as senhoras decentes
foram mirar o miradouro mais distante
e eu e o resto da corja fomos virar copos
num assento tão quadrado e feito à medida
dos nossos cus gordos e podres da cedência
de fazer parte da normaleza.
controlei-me, o medo da sombra saltar-me
da espinha é mais forte do que ser honesto
e verdadeiro.
fica na conta com o resto.
laura sois tão prudente e competente
e capaz de desbravar estes segredos
tão normais e tão vulgares
e tão precisos e tão cheios de riqueza.
somos pares mas não sei como fazes a tua parte
de ser normal e fazer arte
que apraz aos espíritos do tempo.
as flores do mal crescem, e disso somos todos
culpados. ninguém vê ou só eu?
serei responsável, sozinho?
a lógica diz que não, a culpa diz que sim.
a normaleza é normal
e produto do tempo e das coisas
todas que constrói o presente
e o fez no passado e determina
no futuro.
farei parte, em negação.
farei parte.
farei, mas não faço
por escolha ou medo ou burrice.
ponho o chapéu, tiro o chapéu
e ponho outra vez, vejam-me a coroa
de fiozinhos que me faz parte de vós.
bebi um vinho ao jantar, mais dois
e fugi para fumar às escondidas.
pus o chapéu.
perdidos em conversas sobre a chuva
e como diferem as nossas pátrias
e os comos do esforço, e os quandos
da família, sorri com a vista
que nem vê. somos iguais, digo eu
atrás da franja que me cobre, todo
e inteiro, da nuca aos pés, prometendo
que nunca saberão disto, o meu segredo
de não ser da normaleza.
uma mentira entre muitas.
certo, tenho que fugir agora
senão a fachada virará fumo
no meio de mais vinho.
adeus, foi muito bom,
diz a voz que comanda a razão
e foge. uma hora seguindo
pelas bermas dum passeio em terra
e riscos, para que não faça vítima
dum pedestre transeunte.
as luzes da estrada brilham
entre as folhas das árvores
cujo nome ninguém sabe.
cumprimento cada uma.
no meio delas, um abrigo:
néon barato, pessoas pobres
e enfoco no resplandecente
consolo de fugir dessa equipa,
a normaleza.
aceite logo, joguei-me numa
espiral de whiskey barato e
café da sanzala, de agora,
sem nomes, sem medos
de fazer dos plebeus
uma casta conforme o que foi.
bebi dois, eis o meu povo.
sou o mais sóbrio neste bar
e estou prestes a quinar.
voltei de uber, tirei o chapéu
e deixei o vento fazer-me honesto.
foi libertador. sou normaleza
mas em negação.
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
remoinho
remoinho roda roda
pelas ruas pelas vias
pelas casas pelas vidas, as suas as tuas
as minhas, as que foram e as que duram
e as que sumiram em becos ou bares.
os encantos bafientos sopram no fundo
da garrafa. a maré é baixa, persistindo
com um nevoeiro denso que oculto
dança com pedras de gelo e vais tiritando
à medida que o descobres, uma volta de cada vez.
remoinho roda roda no calendário sem descanso
há uma voz no seu alcance, um alguém
que tu já foste, pedindo socorro, clemência,
um marinheiro ou um pescador inócuo
e sem ajudas.
roda o mundo
ou roda o barco,
roda roda roda.
vai lançado as memórias
porta porta fora.
roda roda mais,
tudo e todos, todos os dias
e noites.
batendo os dentes te esqueces
e de manhã só um enjoo e a culpa
de ter andado tanto à roda.
sexta-feira, 18 de outubro de 2024
top 100, 10% foi um ganho de 20 cêntimos
under the gun, 3bet
o gajo ficou tilt, é a oportunidade
trago um par disfarçado, só ases
e o flop foi mesmo um flop
para ele.
dizem que os poetas de agora
não sabem jogo nem truques
mas só os da revista maria
dos dentes ou das dores
que escrevem de peixes e pontes
e a serra, tã linda.
eu também gosto muito da serra.
posso ao invés ser de estátua
de toga e sandálias calçadas
os meus deuses com nomes
extensos e protagonistas
de novelas com suave
erotismo. ohh o incesto
e a estética!
os casca-rija, casacos de couro
o robe, o prinz, o godis, a mariasa, o PMESS, o albges
trocando o botão, mexendo fortunas
milhares testando não a sorte
mas a paciência e a lucidez
e um brilho divino, injusto,
que cante vitória uma vez.
nos intervalos vou tirando notas
quando não faço pausas para bicas
ou mijas ou um dourado nas pedras
para descer devagar como a estratégia
que se emprega numa mesa de torneios
com tanta escumalha como esta.
gente da boa, mas escumalha.
pondo as fichas nos meus versos, espero
que se entenda que a chuva quando cai
não faz cinema ou tragédias, só rega a sina
dos pecadores que são todos, dos malandros
e das senhoras que sonham nas manhãs
com os óculos escuros a meio da cara
no parque de estacionamento ou
no sofá, depois de horas e horas
de cromos e gunas e os camionistas
e os taxistas e os filhos do dono
do café, uns trocos a render aqui
ao invés de empurra-los na coca, à deriva
com mais um par de betos estúpidos.
quando perdi já tinha um prémio
de consolação que ao menos cobriu
os custos de entrada e um mcdonald's
mas não o uber de volta para casa,
então voltei a pé e de barco e a pé.
feitas as contas ainda poupei mais
do que se tivesse ido para o bairro
mas fiz menos em amigos.
a gaja que tinha mais fichas quando saí
era muito bonita, tinha um ar espanhol
e o cabelo platina pintado com ares
de bióloga ou de enfermeira nas altas horas,
das que passa receitas por baixo do balcão.
perdi contra um par de noves
vinha de kq casados
mas não bateu nada
pra fazer par com a minha mão.
sobrou umas migalhas que três ou quatro
blinds comeram sem chance de me desafogar
nesta fase avançada do torneio.
já me doíam as costas também.
inocente, um puto descobre mulheres
nas coxas carnudas de mulheres
nas ruas. balançando com o vento
reféns da gravidade, nada de errado
em tirar-lhe um pedaço e servi-lo
num grande banquete para a tropa
da saúde, meninos param a corrida
pelos segredos da vida adulta, simples
e cénica, contida nas glandes que brotam
pela primeira vez a céu aberto.
um toque de midas, o tacto amolece
no suave do tecido que tas cobre,
a ampulheta nas costas
esparramando a areia do ritual de passagem.
como tenta o tempo
e as protuberâncias atrás da vida!
a menina da bola
do real madrid nuns calções largos
que te faziam os tornozelos finos
o cepo enredou-se nos meus
e foi bonito o sonho que sucedeu.
marreco, os estorninhos
voam em bandos como a vida
segue sem tratos de estima
pelos veladores que sozinhos
guardam os cantos ao parque.
nem amor nem desejo
nem carinho nem futuro
a quatro rodas, a tosse
da voz fina perdida
em afazeres mundanos.
nada disso.
a coisa em si, pelo que é
e pelo que foi, a equipa
vencedora molhando a espinha
com um suor nervoso e suspeito
das intenções que um canino
afiado e guardado aguarda
na mirada calada que manda
pelas linhas no jogo.
crimes do ódio
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
ócio e ofício iv
profecia falhada
bing bing bing
glublublublu
ping
ok computer
glublublublu
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
arroio
para um amigo de mau gosto
nem que to atirem à testa.
sentado no coxim já gasto
pernas peludas esparramadas
em cima do tapete da tua avó:
venha daí mais uma tarte de palhaços,
em diversidade representados,
aos trambolhões e risadas mortas
que eu chamo de branqueamento e tu
maquilhas de cultura.
não, isso não é nenhum paris, texas
só lhe sujas o nome
é uma cagada de festival, ainda quente
e direita para os catálogos
de quem não sente os impulsos da volição.
sei que debaixo dos poucos cabelos
que ainda te cobrem o cocuruto
há algo sentido, genuíno em bondade
e eu descanso e fumo um cigarro
e outro cigarro
para ter calma e não te partir
essa tv gigante que só passa merda.
somos amigos mas fazes-me beber para ser mais fácil.
aquelas secas francesas? os nites mudos
na noite, a pobreza bibelots para pensadores
e trafulhas com sorte? cruzes, tirem-me
desse filme e do outro. vou mas é ler
baudelaire e ver south park.
prendas às pombas
no parapeito da janela do quarto.
sois vista e sou todo ouvidos
penas que quebram águas e nos adornam
capacetes,
queria uma em glória e grande
para escrevinhar cantigas de traição e saudade
assim da asa, cinzenta e branca como as noites
das cidades a norte.
a tua dieta de pão e lixo é o trato
que te demos mas não o que sonhamos,
nem agora nem nunca. a tua nuca reluz
contra o sol o roxo real, o verde da vida
e as gotas que persistem.
endividado em tacanhez
cheirando pombinhas amáveis
uma de cada vez.
entre as margens
e a margem norte do sado
e entre sotaques pindéricos
e pronúncias emprestadas do algarve
e de évora. os pescadores nos bairros velhos
entre retornados e recém-chegados.
que toda a arte nesta casa ou é sobre ela
ou é contra ela.
a ambição refém dum complexo cobarde
o tal medo de crescer, de mexer com mais
do que as patetices da vila, novela quase milenar.
a autenticidade joga contra o pesar da idade
dizem, o real está no chão, nos caminhos
de terra já batidos, postos em fotos
a preto e branco.
e como foram batidos? pergunto.
não foram caras lisas
fugidas da herdade da família
seja a sua ou a de onde trabalhavam?
se o que vale é puxar carroças e carpir
então deixem-me puxar carroças e carpir
com a pobreza à espreita num denso matagal
e os animais no quintal balindo pela vedação
que os protege da sua mente simples de rebanho.
não foi para isso que trabalhámos.
muito bem, sabe-se que não,
vergar a mola é produto do desejo
e o que compele no esforço é uma promessa
de descanso, a paragem idílica no comboio
da meia-idade. agora sentados à porta da estação
olham para as margens de dois rios e deixam-se estar
no tal real que construíram. a norte as gentes grandes
e a sul as raízes.
para que não se percam em como cruzaram o mar a nado
e na costa, exaustos, perceberam que estavam onde partiram
e o cimento todo que cresceu entretanto
foram malandrices de gentes grandes
fazendo crer que as terras são um esforço
e não a matriz das mentes sãs.
terça-feira, 15 de outubro de 2024
sobre o amor
especialmente bukowski, que somos parecidos ou assim
pelo menos nas entradas e nas minúsculas, na falta
de consideração pelos inícios sem grandeza.
tá certo, fui à livraria mais conhecida da cidade
verdade que com duplo sentido
e fui buscar uma colecção sobre amor.
uma das funcionárias surgiu-me há dias num sonho bonito
de riquezas e conquistas, amizades verdadeiras
e o triunfo do espírito perante a carne fraca, unidas
no afeto das pessoas adultas que o censor
prontamente avançou-me da vista.
quando acordei foi como se tivesse acontecido
não me queixo
e com isso consigo afogar o que resta da outra donzela
e não me queixo novamente.
lendo o subtexto que criei na minha cabeça infantil e tapada
fiquei uma semana em cafés a tomar, dando tudo,
mas a coragem bebe-se e depois desaparece
como disse um bom amigo
então fiz questão de lá ir, todo narso, e seja o que
Deus quiser.
ela não estava, que miséria.
atendeu-me um tipo magrinho de óculos mas pouco observador
e trouxe-me o livro
e mais outro que eu pedi de instinto
e ainda me cobrou euro e meio pelo saco de papel.
no amor encontrei de tudo,
conas e mamas
e pixas e sexo selvagem e cus
e pessoas a lambê-los,
paixões de esplanada, gastas numa noite
expirando num duche quente.
não vejo as semelhanças
até porque eu nasci quando ele morreu
mais ou menos
mas estou convicto que preciso duma pessoa deste género
para me ajudar a conquistar uma próxima amante nos meus sonhos.
a última vi-a deitada numa cama, em tronco nu
pedindo pouco mais que uma vida honesta
e por favor livra-me de trabalhar.
diário do barreiro I
os olhos trancados a sete charros, que beleza
o silêncio e o tempo a passar rápido.
mais cinco minutos, levanto-me à pressa
e nem tenho ramelas.
divindades descansaram nesta noite
a raiva trocou com a moleza.
desperto e com a espada à cinta
vejo pela janela um buraco finalmente tapado:
acabaram as obras, boas notícias.
segunda-feira, 14 de outubro de 2024
culpados em par, dois tipos de medo: passado (eu) e futuro (tu)
mais violento
suspeito
porque os conflitos desbocam à minha beira
com a facilidade dum fogo que pega uma acendalha.
esta energia suada cansa e um dia
sei que se vai esgotar,
no escuro e num estouro.
ganhos escorços escondidos
atrás de tumbas que plantastes cá dentro,
seus asnos.
perdoo-vos e perdoem-me, dos céus
ou das profundezas do oceano que nos separa.
quando fiz tremer o chão em ira
que apontei para cima
vi-os aos montes suspirando
pela minha perda de paciência
mas um, apenas um, símbolo de muitos
colou à ocasião a sua paixão devoradora
e oculta, e largou um feixe de olhares
endiabrados, coitado, e o nó dos dedos
a estalar, uma raiva que esvoaçou
com um sorriso.
a ocasião foi péssima e abri uma linha
nas dívidas da essência, não cobra juros
mas nunca fica salda. é o preço justo
que paguei mais de mil vezes,
o meu corpo servindo de testemunha.
suspeito que algo aqui está um pouco mal contado.
o sininho debaixo das mantas está a tocar
e o que toca entende mais do que eu destas coisas.
porque fazer fintas quando se tratava dum impulso?
cheira-me ao velho osso contra osso
a tua vontade contra a minha
submissão a regra.
eu detesto esses joguinhos
nunca fui de competir
nem com pares nem com primos,
só fantasmas de tempos primordiais
e mesmo assim sou meiguinho.
agora lanças-me a mão em braço-de-ferro
e quanto mais penso mais sentido faz
eu nem tenho nada a ver com isso
mas vejo-me frente a frente, pendurado
num balcão de madeira, a optar
por ser cobarde ou aceder
às tentações da tua esburacada auto-estima.
eia que estourou o cano novamente
um remendo ao serviço mal resolvido
da semana passada. estouraram os canos
e com um chuvisco ligeiro o quarteirão
ficou uma lagoa castanha, até aos tornozelos.
o primeiro dia passou e deixaram a poça secar
e hoje resolveram finalmente intervir.
os velhotes do bairro agradecem o espetáculo grátis
e circundam o buraco que os funcionários da câmara
fizeram mesmo à frente da minha casa. vejo-os da janela,
os bonés sujos de tinta misturados num mar de lama
e cabeças grisalhas.
já la vão quase 12 horas e ainda ouço as máquinas
brrrr brrrr brrr - escavando e transportando terra
de um lado para o outro.
parece que o arranjo não é final, só um refeito
no remendo anterior, desta vez conforme o que deveria ter sido.
neste bairro não vejo as putas na beira da estrada
nem vejo o crime violento de perto, nem tiros
e as escassas sirenes fugindo do trânsito
são muitas vezes para acudir uma idosa solitária
e não mirabolantes perseguições à hollywood.
aqui não moram carros rápidos nem palmeiras
cobrindo a costa em recortes cénicos
nem atores ou ministros, pessoas públicas de
"respeito".
não é subúrbio nem é metrópole,
a classe média não morre de tédio
os pobres não moram nos pátios.
só um bairro assim, assim-assim
velho e devagar, adultos cansados
e um comércio local dos tempos da expo,
as crianças jogam descalças em campos
sujos mas gradeados. a bebida faz mais vítimas
do que o crack. armas nem em sonhos.
vemos os buracos no chão
e os enguiçados procedimentos da junta
a descobrir o asfalto
que cobre esta terra cansada.
domingo, 13 de outubro de 2024
tenho plantas mortas no jardim
os planos que fiz, uma grande estufa
uma hortinha diversa e composta
em cada raiz a resposta
dos enigmas que fome traz.
o esforço e a disciplina
a rega persistente, preparada
com rigor em tábuas de cálculo
as flores, as calorias e as ervinhas miúdas.
parecia tudo um grande encanto
persistindo nas jornas em canto brando
um assobio suave que se mistura
com o piar dos primos plumados
que se sentam nos galhos da cerca viva.
parecer não é ser
e nenhum dos legumes brotou
e as flores negaram-se a pôr cor
nas suas pétalas, que só apodreciam
em caules magrinhos.
o dia das plantas mortas.
não há rega que salve um corpo
furado, considerei uma queimada
mas temo pela cerca
que dá forma ao quintal.
terei que medir, uma a uma
de joelhos na terra com uma lupa
e assim farei, cobrindo a fuça
com a mão ao alto, testando
o equilíbrio em dificuldade desde novo
como as folhas que tombam com o peso
para o lado, quebrando aquilo que a nutre.
é uma coima do mau presságio
ou do mau ofício, trabalho mal feito.
e uma estrutura em vidro
vazia, que arrelia o tento
em torna-la numa chuva de cacos,
diamantes afiados eutanasiando
os suplícios do pasto, amarelo e de gravilha.
resolvido em acordo e consenso
cobrindo as promessas a curto, médio
e longo termo, as causas da discórdia
resolvidas em trâmites legalistas mui oficiosos
e jurisprudentes na cartilha de responsáveis.
das partes, multilaterais em mesa posta
um andar com janelas sem cortinas
que escondam observadores de causa neutra
a estirpe passiva.
toca novamente pelas madeiras antigas
e a louça de oferta de tratados do passado.
toca uma terceira vez, impaciente
homens grisalhos sobem as escadas que guincham
com as passadas da trupe do direito,
sapateando em couro e graxa pelos séculos
desta casa disfarçada entre as outras.
descalçou-se à porta, sente-se capitão
e sentou-se na poltrona mais perto do bar
serviu-se um cocktail e apressou o jantar
os secretários permaneceram em pé
guardando as portas com malinhas
também em couro e graxa, mas escuras
e vincadas. cheira a tabaco e a velho.
discutiremos o futuro, disse um deles
e escrevinhou a data e o número da ata
no canto de um bloco com papel químico
a tirar o duplicado como se fazia antigamente.
poses de réu em pleno crime, a ocasião
que o permite, é difícil negar. as impressões
unânimes fazem um juízo simples,
poderás pagar em dedicatórias e sendo
outro, ou então um exílio voluntário
que resolva a disputa em silêncio.
é o meu papel, esse?
o duplicado, sim.
entendo, sendo assim que escolha resta
a letra da lei é pesada e cobre-se de pele
dura e calejada, as palmas sujas
de tinta preta, é o que dá
escrever com pena.
resolvido o atrito, garante a paz que faz a noite
ser calma e descanso,
garante o próspero conforto da liderança de amanhã
e salva o futuro da espécie
o arauto da ordem das causas nobres.
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas