quinta-feira, 31 de outubro de 2024

chique / beleza escondida num vestido caro e fanfarrão, não esquecendo que se escapa dos genes e se apresenta em seda fina

ricas danças com armani com couro e loro piana,
pondero como cheiram os flatos no átrio
em caxemiras tão finas e as rendas de frança
reminiscente da pompa da carne sem forças
as ancas finas, juventude gasta
nos saquinhos ressequidos de velhotes
de boa casta.
admito, invejo.
quando espreitava entre as cortinas
como corriam essas narinas pelas colheres de prata
mulheres de exemplo, amplas, exóticas,
da beleza que escultores capturavam em estátuas
para mim um porno do tempo
que a vossa laia chamaria de sacro.
o poeta é um burro que sonha
com coisas pequenas, como pessoas
ou como as urtigas espetam
nos traseiros dos pobres.

o poder vocaliza a sua cantiga
em toda a alma vazia, castiça,
amiga, puro no desejo inocente 
o pecado. 
eu sinto-o, no vento e na espinha
e nos encontros à meia luz
atrás de portões cerrados e elétricos,
os motoristas chegando pelos raios do dia
apanhando uma mão cheia de bêbados
em fato e gravata e gente mui gira,
vedando os trapos da sua grupeta
aos sabores variados da alta cultura.

a voz de dentro não me deixa atuar.
a voz de dentro não me deixa ambição
senão a devoção profunda que vai fechando
os corrimãos que vão para baixo e para baixo,
onde as lâmpadas piscam em passos esbeltos
seguindo silhuetas do fundo do lago.

é uma contradição, estou ciente
chamem-lhe desafio ou o presente
cantem as musas de milão
o subtexto profundo da nossa sessão.

maresia, mármore rijo das vossas festas
exclusivas murmurando
as fontes as tochas o hino à alegria
embalado e absorto em pastilhas alquímicas.
raras fortunas de gente bué esperta...
fosse a vontade mais fraca
fosse a vontade mais forte
teria mais versos para contar.

coberta a mesa de cinzas e coisas
baratas e ofertas do supermercado
vivendo as cruzes da ribalta burguesa
numa tela em vidro e cristais da ciência.

as princesas da vossa
o caramulo da minha
considero as jogadas que faria
para ver as polacas em brilhantina
para ouvir o cognac em névoa trufada
para saber os segredos ocultos de proust
para dobrar estas costas
e vomitar num quintal
adornado de linhas e flores do sul.
a sul.

vou-me meter no partido
vou espetar-lhes a faca
nos patrões e mentores que me abrem as portas
entre palavras sensatas e doces e cheias
de lealdade corporativa pelos lobbies de hotéis.
ou então far-me-ei secreto e gostoso
com os cílios batendo nas vossas carteiras
e montarei um embuste, o crime perfeito.
cabeça bandida, a vista sensível
não decide se belos são os montes ou as serras
ou os contornos garridos imbuídos em luxo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

meias verdades

sangro do nariz
porque dancei no duro
e dei com a cara na parede

confissões II

mata-me antes de partires, saedades do verão dos nossos corpos. vacilo com tantas, vou largando as pistas escondidas no meu blog semi-anónimo (este), vou sonhando com outras. foi a ti que joguei as mãos na hora do aperto, minha vontade pulsando no teu sufoco. é uma ideia estúpida e datada, eu sei, mas é verdadeira. quem lê sabe que normalmente este é um dos meus temas favoritos. é mesmo. jaz na sombra um mentiroso do pior, que não sabe ser honesto nem que lhe custe a vida. cada história um ponto extra, cada trama um desfecho falso, não na essência mas sim na estrutura. eu creio genuinamente que a natureza da Verdade, a tal com v grande, é que o ponto transcende ao contexto. não é preciso ser um génio para saber dessas coisas, mas gostava de clarificar duma vez por todas. a essência sou eu e o mundo que apanho pelos fragmentos latejantes do meu olho cansado, vendo as cores todas que consegue ver, que chora e fecha com a luz forte. saedades, mudei-lhe a forma e as letras. és tu. será vã a forma como eu creio que isto está tudo desenhado? talvez, talvez. faz demasiado sentido e a intuição tem sido boa amiga, portanto vou confiando com desconfiança nas linhas que são desenhadas por esta folha em branco de plágio e trágico e claro, bebida, que é o vosso humilde autor.  se me vissem agora saberiam, com umas calças às bolinhas, manga-cava do tamanho dum obeso, pólo negro por cima, cobrindo a brancura que estimo, e um casaco verde do meu avô que uso todos os dias mas só em casa. gostaria de acreditar que sou uma ramificação do seu legado, meu estimado e competente ancestral. ambos amamos mulheres. ambos gostamos de pão. ambos tememos apenas a Deus. estavas armado, eu não, mas isso foi uma questão geracional. a minha mãe acha o mesmo, acho eu, mas ela não pensa muito nestas coisas. é inteligente mas não é prudente. entendo, seria igual na posição dela. mulher sofrida e com cara rija. nas poucas coisas que somos iguais, isso é uma. queremos ser fortes, não é? não somos. 

as estrelas brilham entre a persiana fechada de um apartamento algures no coração da verderena. é de onde vos escrevo. é de onde eu produzo, de onde eu vivo, de onde eu escondo os meus pecados. alguns chamarão a isto de culpa latente dum cristão de mentalidade escrava, eu chamo a isto pura realidade. achas-te tão acima? achas que isto que partilhamos não é trágico e submisso? servo é a cona da tua cota meu puto. claro que somos servos, mas não de palavras que a gente trouxe coxeando pelas ruelas estreitas da história moderna. desculpa o palavreado mas sou mesmo um boca suja de primeira, como a ponta dos meus dedos e as vozinhas que me tentam nesta casa escura. não é a culpa que rege, é a consciência. não a consigo desligar. ela é cruel e às vezes malvada, mais do que os rombos que por baixo da manta vão fazendo frente às consequências do que sou, ou tento. saedades, que tesão. saedades, que solidão. quem me conduz neste teclado? achas mesmo que é uma fraqueza, uma falha no desenho? serias burro, não o animal porque esse é belo, se achasses que sim. mas falas tanto de ti e da tua vida, dizes. é verdade, narciso existe em cada lago. olha como eu me olho. mas olha como tu olhas para como eu me olho. e olha para esta frase. faz sentido, ou não? é possível que não. a história dirá se faz sentido, Deus dirá se tinha razão. é provável que não, mas pronto, como vós, sou burro. o símbolo, o insulto e, gostava de acreditar, o animal. mas escondo-me atrás de penduricalhos. vão-me na cabeça e no pulso e no coração que bate, a custo, porque faço-lhe mal. tabaco e álcool, miséria auto-imposta. a minha ex-psicóloga e o chatgpt concordam que passo demasiado tempo ponderando e pouco tempo agindo. vão-se lixar, eu faço para caralho. eu jogo a pele em todas as jornas, contra a sorte e contra o vento. choro com os pombos, os meus primos plumados, rio com os velhos e dou-lhes sorrisos que levarão para casa e pensarão "ainda há jovens com a inocência da terra". é mais uma mentira que lhes conto mas eles não sabem, e no meu pecado dou-lhes uma paz que vai para a cova com os seus dentes postiços e as suas doenças terminais. eu amo-vos, senhores do café, esposa do miguel, filha de alguém. nós não somos em nada iguais e somos em tudo iguais. teríamos sido amigos em tempos.  talvez família. a minha é igual, sem semelhanças, mas somos ligados pelo laço do sangue na mesma. emerge a noção das vossas doenças e das virtudes. genético desígnio.

perco-me em considerações sobre pessoas que conheço há pouco, mas apraz-me ser parte de alguma coisa. um bairro, eu sei que não é o meu, mas por agora pertenço. conhecem-me pelo bagaço e pelo chapéu. viram-me os olhos poucas vezes, o que faz sentido. sou só um reflexo deles, para eles e por eles. tenho a cruz no peito escondida, primeiro porque a fé é muito mal interpretada, segundo porque não me compete pô-los no juízo. uma vez disse que eu era a fúria Dele. mais uma patetice desta cabeça coberta e sem experiência. só fui para ti, e fugiste. acho que fizeste bem. honestamente, quem poderia aguentar com as consequências turbulentas deste paciente aguardando diagnóstico num hospital onde nunca irá? durante esses seis anos interrompidos vivemos a vida como nunca, ao menos isso temos que admitir. o tritão bem podia ir destruindo as vontades e o resto desta casa, mas vivemos um amor intemporal. a sorte que eu tive, raios, só posso agradecer. quantas pessoas correm esta terra sem saber o sabor da paixão na fronteira entre Deus e a loucura? pecámos também. beija-me antes de partires na próxima volta.

acho que estão agora a entender muito do que se tecla neste canto escondido nos confins da internet, entre os desconhecidos e as tentativas falhadas de fazer parte de alguma coisa. se chegaste aqui é porque sabes quem sou. ou então o destino fez da suas, mas a primeira é mais provável. sorte a minha que letras agora são praticamente gratuitas. gastarei todas para contar a história duma pessoa vulgar, bruta, incompetente, ciente de si e do espaço, dando sermões a passarinhos que já viram isto e muito mais vezes sem conta. cada pena desenhada por milhões de ano, pelo medo do fim, pelo fogo dos céus, pela tristeza do verão, pelos céus chorando em meses frios. desculpem-me, leitores e aves do mundo, pelos ralhetes constantes e pelas observações inócuas duma pessoinha barata e canídea. o que compele é uma vontade de deixar presente que a vida não são só coroas e inteligências raras, sabedores da cultura, colecionadores e outras estirpes de especiais. há gente podre. há gente podre e triste e mentirosa e honesta, como eu. animais sem léxico, poetas sem rimas. gente da letra minúscula, servindo ao Senhor sem saber ao que vão. sou eu, são pessoas do mundo, são os passos que ficam na areia quando a gente anda na praia e vê as pegadas perdidas pelos caminhos escondidos onde ninguém vai. poucos confiam no acaso, mas pelo buraco da agulha, quem passa? experimenta mete-la debaixo de água. algumas gotinhas. escolhidas? duvido. especiais? claro que não. 

jogando à beiça a caneca, estampada pelo meu cunho, venha daí mais vinho branco e quente. outra confissão que certamente não surpreenderia um leitor. quem vos fala é um bêbado como o pai, como o avô, e provavelmente como todas as gerações anteriores. considero isso uma prova da minha casta, a que chamo de "baixa" neste blog. não porque são pobres ou escravos ou serventes de gentes grandes. só pessoas comuns, banais, existindo pelos séculos que desaguam aqui. claro que há nobres, padres infiéis à fé, filhos de violações dos senhores da história, bastardos, herdeiros das mentiras de mães sedentas. mas isso somos todos, desculpem-me pessoas de sangue azul. algures na linhagem espera uma infidelidade que circula nas veias e que te faz ceder aos apegos do sexo. agora que este foi banalizado parece fácil crer num antes e depois, mas a verdade é quase oposta. as regras rígidas fizeram que a tentação desse vida. o pecado é o nosso pai e mãe. agora, com as desculpas prontas e a vontade liberta, eis que o destino nos conta mais uma: não nascerá sucessor! eu acho isto muito engraçado. parte de nós nasceu nas traseiras de um estábulo pelos suores secretos e cheirando a cerveja barata. agora que vale, acabou. é hilariante. chamem-lhe o preço a pagar pela noção, a resposta errada à pergunta, o desfecho correcto, o que for. é uma anedota muito bem feita. o que podemos tirar daqui é: o nosso sangue impuro só responde às fronteiras da nossa capacidade. saberemos isto em mil anos melhor do que agora, mas deixo aqui por escrito. não quero ter razão, só quero que se saiba. 

agora pergunta o leitor: então, qual é o ponto? se o amor corre nas paredes da carne fraca, se a vontade falha, se o pio só existe no bico dum pombinho, de onde vêm estas emoções tão convictas? e eu respondo: saedades são todas, mas ela em si. saedades é a morte menos um.  foi e será a última gota do que aquilo que não sabes pede. saedades foste tu (não me atrevo a dizer o teu nome), a joana, a filipa, a tânia, a raquel, a menina na camioneta, a saldanha (que vergonha do meu próprio nome), a cátia, a beatriz, a maria, as ilustres em 2d, a rita, a rita, a outra rita, a outra filipa, a mayara, o engate duma noite. o poder da beleza, o vergar das costas fracas perante o belo feminino. saedades foste uma, mas ensinaste-me todas. beija-me antes de partires na próxima volta. mata-me se partires outra vez. os teus olhos esbugalhados num clímax a fingir que nos matamos é a imagem que resta duma pessoa fraca, da família perdida, de considerações vazias e de um apartamento escuro algures na verderena onde fomos um.

comédia e tragédia e as sombras da babilónia

nunca deixarei de ser surpreendido
pela falta de fé, pela falta de crença
como estas voltas são todas
tão únicas, tão bem desenhadas
à nossa imagem, à nossa vanidade
ao mesmo tempo rodando nos dados
do acaso do pó e supostos alienígenas
e coisinhas miúdas que não se entendem
e ninguém crê, raios, como?

hoje vi um filme
coisa comum, bem sei
mas foi uma comédia
e a cada dia que passa
aprendo um passinho, uma dobra
das voltas que as pulguinhas
vão dando para explicar
um texto mais velho que o azeite

o mundo existe
entre o orinoco flow
e as aventuras do sean
seguindo os truques de zardoz
percebes, leitor, ouvinte, amigo
que as raízes são as mesmas
assim como a forma
o compasso
as oitavas fugindo de beethoven
pelas mamas de malucas
de los angeles que foram usadas
com respeito, acho eu, para mais uma
historieta divertida e nietzschiana
sobre como Deus morreu, oh não
mas... 
a cruz, o que foi?
quem O matou?
bolas, li passagens do texto
e levei com spoilers

de bissau a milão né?
do café ao moinho, do tornado
à loucura, do vulcão aos peixinhos
o sopro segue
e a gente canta
e bebe e come
e fode (muito pertinente)
e quebramos as regras do jogo
cremos nós, gnus mugindo
pelos vales
cantou a tartaruga:
oh a humanidade!

sou um servo Dele e aprecio
obrigado pelas risadas e pelas lágrimas
e pela vida boa que levo
sentindo no pelo cada espinha
que escapa da dentada faminta
dum glutão como eu

8º na gago

o trânsito vai gaguejando
por baixo dos nossos pés
num dia de pouco trabalho
fazendo tempo com a malta
fugindo do chefe no cigarro
com os cabelos ao vento
com os compinchas de guerra
com gente grande e massuda.

foi daqui, crime numa cena,
quanto te fui buscar para o cinema
e tornaste-te na mão que destrancou
o rumo de centenas de poemas
ou quiçá dezenas, ou dúzias, 
números nunca foram o meu forte
mas contei contigo.

quiseram as sinuosas estradas
debaixo da redoma de vidro
que agora contemplasse de cima
o caminho que terias feito
se tivesses cumprido com o plano.

isto não é queixume, até é engraçada
a volta que os carros fazem
descendo a avenida, cruzando a ponte,
metem o pisca e seguem para o outro lado
aquele para onde foste, rumo ao aeroporto
pelo subsolo. 
observo-o fluindo, o homem da cigarrilha
que vai testando a sua sorte à minha esquerda
deve envelhecer mais comigo
do que tu. já lá vão mais de três anos
e entrámos no mesmo dia
eu a medo, ele não sei,
mais um bancário qualquer
que comia gelados e fazia pouco
como nós, mas menos sensível
à chuva e aos ventos da outra margem.
ele já foi, tu já foste, ficaram
4 marmanjos e uma miúda nova
que na altura não conhecia
e acho que é para ela
esta 301ª entrada n'affalencia.

dia a dia, letra a letra, o passado
desmanchado em linhas curtas
que servem de marcas na via
para navegarem esta história
duma pessoa banal e perdida
num terraço a meio gás
como tantos tantos outros 
que só daqui consigo ver.

amiga escondida atrás dos óculos
de sol, num dia nublado como este,
eu sei que cá estamos
mas não há sol contigo em vidro
atrás de vidro atrás de vidro.
observas quatro malandros
como eu vou vendo o trânsito lá em baixo.
entendo. radias uma força que me obriga
a reprimir a vontade. não é a toa
que os caminhos da rotunda
deram à volta entre tu e a outra.
que segredos esconde este percurso.

começou a chover, jogámos as beatas
no pilarete-cinzeiro. os carros
seguem passando
e faço planos de fugir.

amigo do dente azul

pára, cuidado, para antes que te façam a folha.
a alta patente fez-te tremer nos sonhos
os teus mestres fizeram-te comer pela calada
temer a matemática, o teu talento escondido.
talvez seja a última pessoa que se lembra
de como eras bom com cartas e contas.
deixo-te esta pequena homenagem
os compinchas do bugalho, 
a tua avó contou-te com apreço
como todas as pedras no terço,
e o rufia do teu cota partiu-te um dente,
filho da puta. 
tinhas um sorriso honesto na mesma.

havia muita mágoa e tragédia escondida
naquela turma. podiam ser umas bestas
mas foram cravadas em aço quente
e cintas de couro velando pelas nossas costas
como as unhas do diabo cravando na fruta
do pecado, pingando lágrimas que foram traumas
e que passávamos uns aos outros 
entre sorrisos deprimidos,
escola miserável.
somos rijos, sois rijos
e os que não foram dentro
ou não se conheceram no fundo do copo
vergam a mola com orgulho e família
espero
ou jogam nos prados infinitos da alegria.

uma leitura idiota daqueles tempos
é que havia brutos e minorcas
escondidos. não podia ser mais estúpido
como os professores, coitados, não
entendiam chavo de crianças. o luxo
um pedaço de plástico, os lápis mais baratos
da loja d'artes, o casaco do outlet,
umas barrinhas fininhas de haxixe.
não são desculpas, são reflexos
de como éramos miudagem da casta baixa
agora temos olhos na cara 
e a neblina na vista
e podemos fugir
dos buracos na calçada.
antes não.

lembras-te 
quando a inês roubou a caixa dos valores
sem a conseguir abrir
foi um filme, corremos o bairro todo
e ela acabou por devolver, muito envergonhada,
e nós chamando "cara de peixe!"
porque pecado maior era ela ser feia
que ladra?

lembras-te de como não havia
ódio na sueca
nem facadas de amor
nem drogas ou bebida
só violência natural
gozões e gunões
e alguns dando a parte fraca?

pára, ex-amigo, não sei o que é
feito de ti nem dos teus
mas desejo-te o melhor
mesmo que não tenhas sabido
ter tento na mão pesada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

abancado no cenozoico

o banco do junot estava lascado e tosco
perdido num jardim na alma de monsanto.
achei a metáfora bonita, pus o meu melhor sorriso
e o ben sacou-me uma fotografia.

o que são inimigos 
quando a história não passa?
são os mesmos versos, em línguas distintas
no ferro frio, predadores à caça
senhores das sete quintas
ou colinas.
chamas-lhe quinas e eu devia
mas perdido nas esquinas atrevidas do teu legado
esqueci-me de quem fomos. 
esqueci-me do que somos.

saúda a pátria, marcha nas fileiras
contra os canhões e contra o pó que s'alevanta
mesmo que estejam do teu lado. 

eu não sou de cá nem de lá
tu também não, leitor.
és de ontem, do mesozoico,
os cordéis que te atam ao barro
foram liados por pássaros
com a chama no bico
e o sangue nas penas.
riscos não são heranças
muito menos que os passinhos duma alvéola
no campo a brincar com os irmãos.

és sobrinho dos grandes xás
és o grande soberano
és o filho dos carpinteiros
fugiste das minas de carvão
e da plantação de algodão.
foste castrado
foste preso ao chão que cultivas
foste mecenas e orador
em nome do Senhor.

quando marcharam em nome dum sonho lindo
foste tu contra outro tu
tu tu tu
e tu tu tu
fugiste e lutaste e cantaste e juraste
que a paz seria eterna só depois
de mais um turno na torre.
as tuas pombas serão arruadas
e nada será nem paz nem eterno.
nessa altura seremos fósseis
a carburar numa nave engenhosa
e invisível.
mas o sorriso num banco de pedra
será para sempre: 
nos dedos,
numa memória feliz 
com amigos de sangue
tu e eu e tu e tu. 
nós.

domingo, 27 de outubro de 2024

para a americana no banco alto do pub

cheguei com os meus pés fedorentos ao cúbico
que digo que é meu. a fumaça ainda não conseguiu
escapar deste degredo, nem eu.
puxemos outro, em boa medida.

chamava-se the couch, apesar de não ter sofás
nem assentos a gosto. lutámos para sentar
mas valeu, porque um bar de pessoas agarradas
ao desporto é mais do que uma maré daquilo
que a arte chama de arte, seja o que for
a arte.
amámo-nos num bar de jogo e dardos.

tenho compinchas, fiéis escudeiros das batalhas
contra e com a normaleza, milhares de anos
pingando contra o balcão. somos primos
e família nesta. jogo da vida, as apostas
contra uma placa que roda luzes. golos
contra as lágrimas que reprimes.

dancemos, americana,
o pó será o que resta.
as vossas festas nas coxas
são um consolo elástico da devoção
duma mulher racional. no mundo da vontade
fluímos como crianças, pombos que respondem
às esmolas de gentes melhores.
dançámos sim, para salvar a vida
daqueles que sentem a vida
na pele e na alma e naquilo
que faz a vida ser a vida e não uma conta
de merda e rotineira
mais uma peça na trama da grande
vontade que nunca foi a minha
nem a tua 
nem a nossa
nem a de um porco que estica o pescoço
na matança mas se lembra que foi
filho de Deus
como eu
e como nós
e dançámos por ele
e por nós.

somos crianças
como cavalos no pasto
sem fé, só vontade
de fugir das moscas.
pele grossa, coração que bate
contra a vontade das preces
que a gente seja
da vossa.
nunca
nunca nunca.

filha americana, salvas-me a vida
sendo devota do vosso amor
das ancas carnudas que tu
e o teu rapaz jogam contra bancos
de três pernas num bar de jogatinas
disfarçado de tuga no meio da avenida.
sei os teus passos e sabes os meus
e sabemos o preço do pecado
e da pele rija que a gente
guarda os dois no juízo
de sermos decentes.
fugimos e fizemos família
numa dobra sem resposta
nem retorno. os teus olhos azuis
e os meus, breu como os abutres
na hora da morte, 
a carne à mostra e eles salivando.
coração de plástico
sou teu vassalo
e serei plebeu
até o fundo do poço tornar o desejo
num parasita que consome
a vontade dos bons seres
que passeiam no prado
com nome e elegância.
amei-te por minutos
e fugiste por tempo igual
e fingimos que não
pelos meus irmãos
e pelo teu amor.
pele grossa, tento sensato
de pessoas adultas e
acima das frequências
que são as vidas
de pessoas elásticas.

sábado, 26 de outubro de 2024

a batalha moderna vista em canais do telegram

nas linhas da frente um coronel foge
para debaixo dumas silvas horrorosas
para se esconder do drone que o caça.
o resto do regimento já virou rega
para as sementes do ódio.
em silêncio, sustendo a respiração,
ele pensa nas suas vitórias, no que foi 
feito dos seus tempos de civil, 
os amigos idiotas trocando rodadas
entre si, pobrezinhos que não escapam
de silhuetas despidas e do contorno
da garrafa. foi inútil.
ouve as hélices cortando a folhagem
aproximando-se.
ele tinha namorada, amou
como conseguiu, não bastou
e depois partiu para feitos
honrosos, à espera de consolo
no átrio dos seus antepassados.
ele múrmura o último apelo
aos céus. sem resposta.
um grande silêncio
e anónimo se foi
no meio das silvas
tingidas de negro e vermelho.

o operador celebra a vitória
e risca o nome de outra pessoa
que pode ou não ser ele.

paciência, nem tudo foi ontem

os dias felizes são calmos, desavisados
e passam num instante. as coisas importantes
não acontecem em dias felizes.
podem ser loucos, frenéticos, que abalam
o mundo. terramotos, dias de guerra, uma cimeira,
o advento do profeta. podem ser mágicos, mas nunca
felizes. 

nos dias felizes os melros partem 
e as folhas caem nos jardins,
guardam-se os sapatos no armário
e deixas-te encostar no parapeito
a ver as pessoas passeando tranquilamente.

o fumo e o fogo ficam na ponta
do amanhã à espera que os tumultos
voltem. só amanhã,
porque hoje foi um dia feliz.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

para o pistão

pistão vais prensando as dobras nessa peça
e na próxima
próxima
próxima
próxima
ao infinito.

trocam-se as chapas mas continuas maquinando
com os vapores correndo, abrindo e fechando
os homens olhando, mexendo na placa
e carregando em botões coloridos e arcaicos
que não entendes,
só sabes prensar prensar prensar.

estamos na mesma equipa
a óleo e ferrugem. 




as luzes da verderena

anoitece, bebo um café numa esplanada vazia.
as luzes nas salinhas e nos quartos acendem:
brancas, alaranjadas, algumas roxas, outras piscando
com a tv ou o pc onde descansa a verderena
depois de mais um dia de trabalho, quinta-feira.
ouvem-se os pardais aconchegando-se nos seus ninhos
e o vidro das garrafas batendo meio cheias nas mesas
mas já não se sente o cheiro a bom comer escapando-se
das janelas escancaradas das cozinhas, a água correndo na pia,
só motociclos baratos correndo a via sem potência
com as suas malas amarelas ou verdes, a luz difusa
dos seus travões reflectida na calçada humedecida.
assim foi segunda, terça, quarta, hoje, talvez amanhã
verei alguns jovens passando em grupinhos, bem vestidos,
em terços ou quadras, provavelmente rapazes
às vezes de chapéu, às vezes encapuzados, tímidos
e em preto e branco contrastando com as suas coloridas
ambições de garotos. o meu desespero com eles.

nas portas dos cafés do outro lado da estrada
vejo velhotes tomando a última antes da ceia
já tombando para os lados e cortando o silêncio
do bairro com palavreado alto e incoerente
discutindo uns com os outros sobre temas
que ficarão submersos no grande vazio da memória
que a caixa puxa pelos tornozelos para o seu domínio.
fui buscar um bagaço, mas estou escondido
num canto escuro, vendo o tráfego e esperando
que neste café de mãezinhas retornem as pessoas
que ainda fazem jantares em família.

um morcego cisca as traças que dançam à volta
dum poste agora aceso e que me tirou das sombras,
pelo menos a olho nu. diz-se que eles são tão precisos
mas a forma como mergulham mostra que na cidade
são só amigos fazendo grandes saltos de fé e sobrevivendo
em números mais do que em perícia. pessoalmente
isso parece ainda mais fascinante, como devotos
aos seus instintos eles se arriscam no mar das gentes.

terminei o meu copo e o outro, talvez pegue um frango
a voltar para casa. talvez um vinho e arroz de cenoura
para acompanhar. o passeio informe aldraba o meu passo
torto e vou aos tropeções até casa, rezando que os meus 
desacatos à cidade não passem da minha postura.
acendi um cigarro para ocupar-me a mão direita
e ele aceso parece uma pequena bola de energia
ou uma alma ilustrada que pousada nos meus dedos
vai passeando pelas ruas comigo, vendo de baixo
aquilo que eu vejo de baixo também.

este caminho parece tão grande
visto de baixo 
com uma alma que caminha em segredo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

o meu passarinho azul

eu tinha um passarinho
azul e muito lindo
ele fazia par
com o outro dentro de mim.
esse mesmo que estão a pensar.

ele tinha um nome, vocabulário,
várias danças, uma música,
tocava o sino quando se sentia sozinho
e eu corria pra ir ter com ele
e ficávamos os três
ele no meu ombro
eu sentado no chão
o de dentro espreitando com orgulho.
uma família de quatro, humilde
e desajeitada, em quartos separados
mas ouvindo tudo que passava.

eles dormiam em paz
e eu ia mandando o fumo
pelas janelas para não magoar
os seus pulmões sensíveis.

nós éramos parecidos
filhos sem pai, encontrados ao acaso
o medo uma estupidez, falta de noção,
a mesma mãe: maestra deste lar.
os espelhos fascinavam com uma força magnética
talvez porque nenhum tinha a forma do outro
e os olhos buscavam o calor da semelhança 
que partilhávamos no espírito.
eu espreitava, ele voava contra ele
os dois submissos à reflexão
e o de dentro coçando
as cicatrizes. 

mas estávamos doentes
os quatro
e isso foi o fim
porque nenhum se entendia
de cama
eu com raiva
ela com desgosto
ele sozinho
o outro anémico.

e assim foi o fim.
se eu pudesse escolher
e sei que o de dentro diria o mesmo
se piasse como dantes
continuava enfermo
até as bombas caírem
e fazíamos a conta
todos do outro lado,
a deles mais fácil 
que a minha.

mas o tempo voa
e as sementes ficam
e todos se foram
e fiquei eu
e o passarinho que guardo em mim,
ambos em silêncio
um afogando o outro 
entre o choro e a bebida.



a senhora da papelaria perguntou-me se estava tudo bem
eu nem tinha dito nada
e demorei 1 minuto pra escolher as mortalhas


tudo fraqueja:
a vontade
a perspicácia
a sorte e os seus filhos
a herança
a família
a força dum homem brando
a força dum homem justo
a força dum homem grande
a realeza
a mão na matança
o brilho nos olhos
o dom
o fogo que pega nas folhas secas
o bom
o juízo final
o orgulho
o momento de clareza
o orgasmo masculino
o empenho do atleta
os espelhos desta casa
os amigos verdadeiros
os encontros ao acaso
os braços em esforço
os mundanos
os profanos
os mentirosos
os destros
os tempos de infância
as pingas da chuva
as mulheres no dia da mulher
as acendalhas
as aves e as cigarras
as horas que passam
as vítimas dum crime
as preces aos céus
as máquinas
as cruzes na igreja
as novidades
as histórias desta terra
e eu.

as flores do mal são um livro
e um manga e um anime
e os dias que passam
neste mundo que fraqueja.

quando li que o amor era uma libélula, vomitei

a monumentalidade é oca
ou dito doutra forma,
essas efígies são uma ganda banhada.

maltratada é a nossa escrita
que vive no tempo das carroças
e dos cultos à virtude, vã
e sem peso nem medida.

se eu fosse pelo que corre
nas linhas conhecidas, seja na rede
seja em terra... meu Deus.

ama-se com jeitinho, 
vive-se nos idílicos jardins
dum grande palacete
e a princesa desce as escadas
com as papoilas e as tiaras
e a paixão sorri e voa
nas asas duma ilustre borboleta.
que românticos :)
que contemporâneo S2
é claro que amor é o golfo
que arde na tv
quero dizer, 
fogo que arde sem se ver.

poupem-me.

nem que seja por breves minutos
para beber o white american depois
do turno no editorial da revista
(que acabou mais cedo),
desembacem as lentes desses óculos
e vejam com atenção como seguem
pelas calçadas calcetadas
o que sobra deste povo 
e o cheiro a vinho e a charros
misturado com um pivete a churros,
fritos, mais as tochas eletrónicas
nas esplanadas dos camones.

esse disfarce que andamos a espetar
no presente, como se ele fosse uma
criancinha que os pais desfilam
nas ruas das terriolas na véspera de carnaval,
todo roto e remendado
de tal forma que acho que se pode dizer
que é algo novo, uma paródia
ou uma caricatura de almas mais mansas
que não habitam neste plano há séculos.

os cabeças-de-faculdade também não ajudam nada
andam aí endinheirados q.b., que sérios,
nas passeatas dos seminários
e as gentes do povo, os poetas,
a miudagem com ambição,
fica tudo na calha, entre o cinzeiro
e a porta do bloco.
"mas é tudo aberto e grátis!
não entram porque não querem!"
eca yuck ehhh >:(
tentativamente, matem-se.

eu detesto mesmo mesmo
fazer críticas e apontar este meu dedo roído,
mas quando li que o amor era uma libélula
vomitei-me todo. 
se ao espírito não apraz
as bênçãos da intuição
ao menos considerem os números
e o nível do diálogo que rola
nos outros meios.
é o mínimo que podemos fazer
para nos mantermos pessoas
seja da normaleza seja da casta baixa
o que importa é ser a gosto.

eu fosse um viajante
teria essas rimas em pouca conta
e mandaria um sorriso cínico
"como é tansa esta trupe"
mas não é preciso ser assim
basta teclar com coragem
mais que destreza
como os pintores imaginam o mundo
e o esforço e o tempo numa tela.

desabafo completo
vou buscar o raid e exterminar
o resto desta bicharada asquerosa
e pondero seriamente reformar o ponto
até que ele volte um dia


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

as flores na tua casa

pequenos pauzinhos enfiados um a um
pelos poros, pelas narinas, pelos ouvidos,
pelas entranhas, pelo focinho, pelas feridas
abertas, pelas entradas, goela abaixo, dourando
os cantos obscuros carcomidos de plástico
com luzinhas redondas que piscam quando
inspiram o caminho de flores que foi feito.

rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega

as flores de ontem, a flora de hoje, os prantos fecundos
da glória e da mágoa. 
pauzinhos na caixa, a tabla
toca os teus passos pelo pasto.
as flores da foice, o trigo dança com o vento
que os cobre de pétalas, roubadas ao que foi
ou talvez nunca foi sem ser na cabeça de homens
coroados pelo sol e pela coragem.

enfia-os, acende-os,
a brisa carrega o seu fumo
pelo vale das memórias.

foste uma pessoa em tempos
NOJENTO
mas pessoa
NOJENTO
e de carne fraca
NOJENTO
com as costas arqueadas
sem o peso de nada.

rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega rega

mais e mais e mais e mais 
fechando o quadrado que tranca
tão perfeito os cantos à casa
cujo esqueleto é agora
moscas mortas, mofo,
desejos omissos, segredos plantados
em palitos fininhos que, todos os dias,
elevam as hormonas do flagelo
que chamas e não responde.
NOJENTO
todas as flores murcham um dia
e darão de comer aos bichos da luz
e às almas da noite que vagueiam
pelos contornos do planeta
sem destino, desencontrados,
largados da fé que agarra a mão amiga.

enfia o cigarro dentro desses livros
e rega a estante e joga-lhe fogo
queima todas as partes podres
dessa cova a que chamamos lar.


mk ultra-sexooo no youtube

quando abri o jornal vi uma peça sobre 
hipnotismo erótico.
boa, mais fanfarronices da virtuosa
massa digital. 

que bem sabe acordar com os pêlos dos ouvidos
tinindo e os intestinos aos saltos e um aroma
a enjoo pousado nas paredes suadas do quarto.
a tal prisão do costume, penso para as gavetas
cheias de camisas amarrotadas, mas quando leio
as notícias e vejo que se andam a deixar levar
por cassetes de hipnose, pois... até parece
ridículo o meu drama recorrente.

como conseguem? 
vozes artificiais dando termos
à submissão da vontade, uma proeza que sempre julguei
um truque barato de feira. talvez me faça vítima
do sensacionalismo do clique. seria fácil
encaixotar esse tema assim, 
lamento mas é real.

depois considerei usos práticos
(que grande ironia, desculpa senhores
da cia)
e depois desconsiderei, pois não sou ouvinte.
não serei orador, apesar de parecer
divertido e vizinhança dos talentos
que emprego.

depois considerei usos perversos
e vieste-me à cabeça novamente
e lembrei-me que mal me lembro 
do teu rosto, quando me pediram
uma descrição só sabia dizer
coisas que gosto e não aquilo que és.
um auto-hipnotismo dos rufos
que tocam debaixo das mantas.

voltando ao bambi, é uma leitura interessante,
mas descartarei com zelo estes fetiches
marados de deixar que me caguem
dentro da razão. ou de cagar
na dos outros, já agora.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

a normaleza

cheguei a casa, tombado da bebida
como sempre, o cigarro encostado
ao canto dos dentes nas escadas
e atirei contra o sofá o chapéu
e quase toda a roupa, pus-me em 
cavas e na cruz que escondi e agora
anda livre contra o espelho.
hoje, um dia grande
seja pelo tempo que passou
seja pelo esforço que foi feito
em misturar-me convosco, normaleza
os filhos do tempo e da destreza
de saber navegar nesta era.
os espíritos das ruas conduziram-me
aos lugares que preciso
os colegas, os amigos, conhecidos
encaixotados no logro do ofício
como desbravámos os cantos
fingidos, a vontade respondendo a lento termo
às preces daquilo que precisas, estalando entre
ser tão ESPECIAL e ser tão NORMAL.
fui de uber, como sempre, com medo
do suor no pêlo de vos ser próximo
e lembrei-me de um mano que assim é
a toda a hora em toda a parte, 
e nunca mais julgarei essa
melindrante vontade de escapar.
estavam tantos, em grupos difusos
unos no sítio, incapaz de fazer caminho
próprio pelas luzes que piscam entre os toldos
das esplanadas que cobrem um hotel de luxo. 
os herdeiros e uns fidalgos
da normaleza estacionados
com os pipos jorrando um cheiro a gomas 
e melão, que nojo, odeio esse cheiro
falso e aceitável.
fomos, comemos, eu não,
só fingindo que esses petiscos
eram bons e eram filhos
das estrelas todas que quedavam
no placar que vi logo à porta.
a massa fria, o porco cru,
cenouras cortadas em trato raro
para a plebe que fascina
com essa comida de resina
valorizada pelos que sabem de comida
de resina.
logo será hora duma chamuça
bem-feita e que apraz às vontades
da prole.
o dia foi labuta, como sempre
mas como nunca, testando
vocábulos numa língua que mal sei.
atrasos são critérios de vontades
medidos por quem não as sabe
e nem as sonha.
feita a obra, treinos para pessoas
que não existem por agora, pessoas
que não existem por agora,
como eu, mas eles não sabem.
a normaleza não sonha, acho eu
e se sonha não são sonhos de gente
mas sonhos de senhores que se escondem
algures entre "tinha que ser de mim"
e "não fosse eu então quem?".
sois plebeus, como eu
e como os meus.
esta foi a parte simples.
o céu e as aves adornam a vista de pessoas
que não entendem nem céus nem pássaros
mas são gente que nem eu, camponeses
como eu, mascarando os seus dedos calejados
como eu, tentando as vontades cheias de entradas
como eu, vivendo a meio gás com toda a pica
como eu.
tirámos umas fotos, jogámos umas piadas
ao vazio desta conversa, sem princesas e 
uns duques que na sua sapiência perderam
o juízo e optaram pela competência duma forma
burra e honesta, talvez como eu
mas não tenho documento que comprove.
apetece-me fugir
apetece-me fugir
diz-me a voz no fumo
do camelo. 
fumei um, e dois
e três, nas fronteiras
da piscina iluminada
de leds e inglesas
que jogam os seios
contra os ares.
são quatro estrelas, dizem eles
mas mal conheço constelações,
os senões pendurados numa cinza
por bater.
desde que foste isto tem sido muito difícil.
desde que foste isto tem sido muito infeliz.
desde que foste isto tem sido tão... plástico
aprendi tão bem os artifícios da vontade
da normaleza.
pum pum pum pumpum
pum pum pum pumpum
batem corações a quatro tempos.
henry, meu homónimo, somos parecidos
e tão distantes no tempo e na realidade
que eu aceito, acho, e tu jogas contra
as efémeras flores do agora, do agoiro
que encantas em humor e frases vazias
como eu, como eu? não bem
mas é parecido que baste
para sermos primos noutro mundo,
pum pum pum pumpum.
tenho que fugir deste subúrbio
sem filhos. faltam tantas horas.
seríamos quê, uns trinta ou quase
mas quem? magros serventes
da miserável vida da cidade,
uns da malha, uns de gralhas, uns dos tentos
que Deus nos reprime, mas a gente joga
e joga e joga e joga e joga e joga.
pego na cruz, sem desculpas, cada um
sabe os crimes que terá de pagar quando chegar a hora
de pagar os crimes.
eu só queria um filho, o pôr-do-sol admitido
como a morte que sempre foi, a família
na lareira contando as histórias
da nossa sobrevivência.
ainda faltam tantas horas para jantar
eu só quero pôr-me a andar pela estrada
batida que vi do uber que me trouxe.
trago a cruz no peito, escondida porque
não sei se serei medido pelos ossos
deste ofício.
contive-me, guardei com fé
e medo e vergonha, mais uma para pagar
depois do agora.
num passeio a Verdade deu-nos uma luz
daquilo que é e daquilo que sonho.
falei com ela e não ficou nada
só umas letras perdidas na resposta
rápida de ser normaleza.
pum pum pum pumpum.
o rio desafia-me a saltar e eu recuso
porque afinal pertenço aqui
e não nos claustros do caos
que eu finjo que desafio com a vontade
mas são só desejos juvenis dum homem fraco.
falta-me um bagaço, talvez
ou falta-me o brilho dum génio.
voltámos, as senhoras decentes
foram mirar o miradouro mais distante
e eu e o resto da corja fomos virar copos
num assento tão quadrado e feito à medida
dos nossos cus gordos e podres da cedência
de fazer parte da normaleza.
controlei-me, o medo da sombra saltar-me
da espinha é mais forte do que ser honesto
e verdadeiro.
fica na conta com o resto.
laura sois tão prudente e competente
e capaz de desbravar estes segredos
tão normais e tão vulgares
e tão precisos e tão cheios de riqueza.
somos pares mas não sei como fazes a tua parte
de ser normal e fazer arte
que apraz aos espíritos do tempo.
as flores do mal crescem, e disso somos todos
culpados. ninguém vê ou só eu?
serei responsável, sozinho?
a lógica diz que não, a culpa diz que sim.
a normaleza é normal
e produto do tempo e das coisas
todas que constrói o presente
e o fez no passado e determina
no futuro.
farei parte, em negação.
farei parte.
farei, mas não faço
por escolha ou medo ou burrice.
ponho o chapéu, tiro o chapéu
e ponho outra vez, vejam-me a coroa
de fiozinhos que me faz parte de vós.
bebi um vinho ao jantar, mais dois
e fugi para fumar às escondidas.
pus o chapéu.
perdidos em conversas sobre a chuva
e como diferem as nossas pátrias
e os comos do esforço, e os quandos
da família, sorri com a vista
que nem vê. somos iguais, digo eu
atrás da franja que me cobre, todo
e inteiro, da nuca aos pés, prometendo
que nunca saberão disto, o meu segredo
de não ser da normaleza.
uma mentira entre muitas.
certo, tenho que fugir agora
senão a fachada virará fumo
no meio de mais vinho.
adeus, foi muito bom,
diz a voz que comanda a razão
e foge. uma hora seguindo
pelas bermas dum passeio em terra
e riscos, para que não faça vítima
dum pedestre transeunte.
as luzes da estrada brilham
entre as folhas das árvores
cujo nome ninguém sabe.
cumprimento cada uma.
no meio delas, um abrigo:
néon barato, pessoas pobres
e enfoco no resplandecente
consolo de fugir dessa equipa,
a normaleza.
aceite logo, joguei-me numa
espiral de whiskey barato e 
café da sanzala, de agora,
sem nomes, sem medos
de fazer dos plebeus
uma casta conforme o que foi.
bebi dois, eis o meu povo. 
sou o mais sóbrio neste bar
e estou prestes a quinar.
voltei de uber, tirei o chapéu
e deixei o vento fazer-me honesto.
foi libertador. sou normaleza
mas em negação.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

remoinho

remoinho roda roda

pelas ruas pelas vias

pelas casas pelas vidas, as suas as tuas

as minhas, as que foram e as que duram

e as que sumiram em becos ou bares.

os encantos bafientos sopram no fundo

da garrafa. a maré é baixa, persistindo

com um nevoeiro denso que oculto

dança com pedras de gelo e vais tiritando

à medida que o descobres, uma volta de cada vez.


remoinho roda roda no calendário sem descanso

há uma voz no seu alcance, um alguém

que tu já foste, pedindo socorro, clemência,

um marinheiro ou um pescador inócuo

e sem ajudas. 

roda o mundo

ou roda o barco,

roda roda roda.

vai lançado as memórias

porta porta fora.

roda roda mais,

tudo e todos, todos os dias

e noites.


batendo os dentes te esqueces

e de manhã só um enjoo e a culpa

de ter andado tanto à roda.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

top 100, 10% foi um ganho de 20 cêntimos

under the gun, 3bet

o gajo ficou tilt, é a oportunidade

trago um par disfarçado, só ases

e o flop foi mesmo um flop

para ele. 


dizem que os poetas de agora

não sabem jogo nem truques

mas só os da revista maria

dos dentes ou das dores

que escrevem de peixes e pontes

e a serra, tã linda.

eu também gosto muito da serra.


posso ao invés ser de estátua

de toga e sandálias calçadas

os meus deuses com nomes 

extensos e protagonistas

de novelas com suave

erotismo. ohh o incesto

e a estética!


os casca-rija, casacos de couro

o robe, o prinz, o godis, a mariasa, o PMESS, o albges

trocando o botão, mexendo fortunas

milhares testando não a sorte

mas a paciência e a lucidez

e um brilho divino, injusto,

que cante vitória uma vez.


nos intervalos vou tirando notas

quando não faço pausas para bicas

ou mijas ou um dourado nas pedras

para descer devagar como a estratégia

que se emprega numa mesa de torneios

com tanta escumalha como esta.

gente da boa, mas escumalha.


pondo as fichas nos meus versos, espero

que se entenda que a chuva quando cai

não faz cinema ou tragédias, só rega a sina

dos pecadores que são todos, dos malandros

e das senhoras que sonham nas manhãs

com os óculos escuros a meio da cara

no parque de estacionamento ou

no sofá, depois de horas e horas

de cromos e gunas e os camionistas

e os taxistas e os filhos do dono

do café, uns trocos a render aqui

ao invés de empurra-los na coca, à deriva

com mais um par de betos estúpidos.


quando perdi já tinha um prémio

de consolação que ao menos cobriu

os custos de entrada e um mcdonald's 

mas não o uber de volta para casa,

então voltei a pé e de barco e a pé.

feitas as contas ainda poupei mais

do que se tivesse ido para o bairro

mas fiz menos em amigos.

a gaja que tinha mais fichas quando saí

era muito bonita, tinha um ar espanhol

e o cabelo platina pintado com ares

de bióloga ou de enfermeira nas altas horas,

das que passa receitas por baixo do balcão.


perdi contra um par de noves

vinha de kq casados

mas não bateu nada

pra fazer par com a minha mão.

sobrou umas migalhas que três ou quatro

blinds comeram sem chance de me desafogar

nesta fase avançada do torneio. 

já me doíam as costas também.


inocente, um puto descobre mulheres

protuberâncias para vós
nas coxas carnudas de mulheres
nas ruas. balançando com o vento
reféns da gravidade, nada de errado
em tirar-lhe um pedaço e servi-lo
num grande banquete para a tropa
da saúde, meninos param a corrida
pelos segredos da vida adulta, simples 
e cénica, contida nas glandes que brotam
pela primeira vez a céu aberto.
um toque de midas, o tacto amolece
no suave do tecido que tas cobre,
a ampulheta nas costas
esparramando a areia do ritual de passagem.
como tenta o tempo
e as protuberâncias atrás da vida!

a menina da bola

quando prendeste essa camisola
do real madrid nuns calções largos
que te faziam os tornozelos finos
o cepo enredou-se nos meus
e foi bonito o sonho que sucedeu.
marreco, os estorninhos
voam em bandos como a vida
segue sem tratos de estima
pelos veladores que sozinhos
guardam os cantos ao parque.
nem amor nem desejo
nem carinho nem futuro
a quatro rodas, a tosse
da voz fina perdida 
em afazeres mundanos.
nada disso.
a coisa em si, pelo que é
e pelo que foi, a equipa
vencedora molhando a espinha
com um suor nervoso e suspeito
das intenções que um canino
afiado e guardado aguarda
na mirada calada que manda
pelas linhas no jogo.


crimes do ódio

as besteiras da crença, sorte infeliz
na voz das vigas, coberta de ferrugem,
levanta-se no leito de cola e vime
e canta preces aos céus, o santo d'outrem.

foram dias celebrados, o canto das musas
os suplícios do ermo da canalha que acusas
postos à prova na hora, na cena do crime,
ganha forma conforme o que essa voz diz.

foram dias de luto, no último alento
escapou-se-lhe a alma e partiu-se em mil peças
rendendo-lhe pouco o esforço e o talento
seguirá com a morte nas suas caleças.

sim! 
vesti-me de negro e de um robe rubro
e fugi do convento com as velas acesas
para que visses na noite o trilho das rosas
que morriam nas mãos do senhor de outubro.

sim!
perfídia vontade que atenta em horror
os poetas cantando e dando louvor
o juízo nos olhos, o sangue no bico
perscruta no pasto do alto do pico
caçando as cores que não clamam o fim.

mentiras que baste desse focinho honesto
jaz no exílio, seu filho do barro
pendura a roupagem na ponta da haste
restará um reconto do teu fato funesto
e da tua indolência pouco mais que o tarro.

sim, é o teu fim
traidor!

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

ócio e ofício iv

que preguiça!
um cão velho ladra para as motas dos estafetas
o meu pc chia e ronca com a ventoinha no máximo
a outra eu tive que tirar porque entrelaçou-se com um fio
e fazia um cagaçal que até das escadas se ouvia.
passam carros com turbo e trotinetes elétricas
passa o dia correndo e sem pressas
desde o almoço que estou colado ao sofá
de barriga para baixo com o nariz afundado
no meio de pó e cinzas. meti 3 despertadores
um para uma pausa
outro porque tinha mesmo que ser
e o terceiro como a linha vermelha
entretanto já passaram mais uns 45 minutos.
toque no computador do trabalho

pus-me na escrita a ver se das palavras
desentope a vontade de ser burocrata
nham, que delícia, os ofícios de gerir
e entregar e aprontar e corrigir e apontar
os erros das máquinas e das pessoas 
enquanto uma mosquinha perdida
tenta fugir desta sala de fumo.
toque no computador do trabalho

as janelas da casa escancaradas deixam correr
uma brisa agradável que vai badalando os meus
finos fios de cabelo da franja. olhei-me ao espelho
e parecia muito natural. o ecrã preto do trabalho
reflete a minha sombra. o relógio não perdoa
toque no computador pessoal
isto já nem é preciso, é um vício ou uma nóia
qualquer.

mais duas horas, vamos lá, eu consigo
a chuva vai-se acercando, topo-lhe o cheiro
e lembro-me que ainda preciso lavar a roupa.
tanto me ocupa e eu tenho uma bolha
na coxa que eu nem sinto mas quero tanto
estourar num duche morno. 
não posso, não consigo ouvir o teams da casa de banho
com a torneira aberta e correndo livre
como os carros que cortam o vento
e os guinchos dos seus travões
desviando-se do buraco na estrada que nunca
vai ser definitivamente fechado.
toque no computador do trabalho

que pregui- despertei! 
a correnteza bateu a porta
do escritório ou da sala
ou do jazigo de um burocrata.

profecia falhada

pensávamos que o agora ia ser
bing bing bing
glublublublu
ping
ok computer
glublublublu

mas na verdade foi beats de drum
e vuuuuuuush

rimar, cringe
e quem finge que não é
tem o gosto de um bebé.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

arroio

nunca estudei artes
nem na escola nem fora
a faculdade fi-la porque não tinha desculpa para não trabalhar
e certamente não seriam artes uma justificação digna 
para fugir da loja da minha mãe.

essas memórias, o fim da adolescência e a entrada
nos jovens e magros vintes, bons tempos
e agora com demarco e the smiths
posso largar um sorriso escondido 
já que abandonei essas pretensões
d'artista.

nessa época os arroianos pareciam-me fascinantes
ainda parecem, cínico que sou não posso negar,
mas o encanto dessa altura ainda brilha
quando remanescente a rádio passa
uma memória feliz.

onde estudei jogávamos as facas no mato
para o texugo não nos atormentar o juízo
nunca as usávamos para nada mas dava
uma certa sensação de segurança
quando voltava para casa no inverno
com as minhas amigas de fato de treino.

esse primeiro contacto com a porta da arroio
foi como se o carnaval tivesse antes sido
toda a minha juventude, vestido de preto
e calçado dado pelos amigos que fiz
tornando-me num jovem do ócio e da vida. 
vocês, os exóticos, confiantes na roupa barata
que nunca precisou ser, os cabelos coloridos,
os rapazes judeus, caracóis sem vergonha
fumando as pontas uns dos outros que compravam
em avulso no café à porta da escola
e nem professores vos impediam
de fazer lixo e correr os riscos e tentar nos erros
que a idade exigia. 
era difícil enxergar do fundo do rio
como brilhavam as vossas cores, xadrezadas, 
e a purpurina colada na cara de meninas
atrevidas em palavras e vislumbres.

há uma neblina pura que quando inspiramos
limpa os pulmões e torna a vista mais clara.
são os céus a dizer que sim, essa nostalgia
aconteceu e foi bonita como foi. 
como foi.





para um amigo de mau gosto

tu não consegues ver um filme decente
nem que to atirem à testa.
sentado no coxim já gasto
pernas peludas esparramadas
em cima do tapete da tua avó:
venha daí mais uma tarte de palhaços,
em diversidade representados,
aos trambolhões e risadas mortas
que eu chamo de branqueamento e tu 
maquilhas de cultura.
não, isso não é nenhum paris, texas
só lhe sujas o nome
é uma cagada de festival, ainda quente
e direita para os catálogos
de quem não sente os impulsos da volição.

afastei-me um bocado e apanhei ar
sei que debaixo dos poucos cabelos
que ainda te cobrem o cocuruto
há algo sentido, genuíno em bondade
e eu descanso e fumo um cigarro
e outro cigarro
para ter calma e não te partir
essa tv gigante que só passa merda.
somos amigos mas fazes-me beber para ser mais fácil.

a voz da pretensão aproveita a quebra:

então estimado, cansado? pois, essa gente de carne e osso guarda pouco debaixo do chapéu. se te mexesses nem que fosse por um dia estarias na linha do mais alto gabarito

aquelas secas francesas? os nites mudos
na noite, a pobreza bibelots para pensadores
e trafulhas com sorte? cruzes, tirem-me
desse filme e do outro. vou mas é ler
baudelaire e ver south park.

prendas às pombas

amável pombinha, deixei-te umas sementes
no parapeito da janela do quarto.
sois vista e sou todo ouvidos
penas que quebram águas e nos adornam 
capacetes, 
queria uma em glória e grande
para escrevinhar cantigas de traição e saudade
assim da asa, cinzenta e branca como as noites
das cidades a norte.
a tua dieta de pão e lixo é o trato
que te demos mas não o que sonhamos,
nem agora nem nunca. a tua nuca reluz
contra o sol o roxo real, o verde da vida
e as gotas que persistem.

cão de caça e cão de raça
endividado em tacanhez 
cheirando pombinhas amáveis
uma de cada vez.


entre as margens

entre a margem sul do tejo
e a margem norte do sado
e entre sotaques pindéricos 
e pronúncias emprestadas do algarve
e de évora. os pescadores nos bairros velhos
entre retornados e recém-chegados.

da capital não há mais a explicar
que toda a arte nesta casa ou é sobre ela
ou é contra ela. 
a ambição refém dum complexo cobarde
o tal medo de crescer, de mexer com mais
do que as patetices da vila, novela quase milenar.
a autenticidade joga contra o pesar da idade
dizem, o real está no chão, nos caminhos
de terra já batidos, postos em fotos
a preto e branco. 
e como foram batidos? pergunto.
não foram caras lisas
fugidas da herdade da família
seja a sua ou a de onde trabalhavam?
se o que vale é puxar carroças e carpir
então deixem-me puxar carroças e carpir
com a pobreza à espreita num denso matagal
e os animais no quintal balindo pela vedação
que os protege da sua mente simples de rebanho.
não foi para isso que trabalhámos.
muito bem, sabe-se que não,
vergar a mola é produto do desejo
e o que compele no esforço é uma promessa
de descanso, a paragem idílica no comboio
da meia-idade. agora sentados à porta da estação
olham para as margens de dois rios e deixam-se estar
no tal real que construíram. a norte as gentes grandes
e a sul as raízes. 

essas paisagens são embustes, uma máscara
para que não se percam em como cruzaram o mar a nado
e na costa, exaustos, perceberam que estavam onde partiram
e o cimento todo que cresceu entretanto
foram malandrices de gentes grandes
fazendo crer que as terras são um esforço
e não a matriz das mentes sãs. 



terça-feira, 15 de outubro de 2024

sobre o amor

o leitor mais assíduo mandou-me ler poesia moderna
especialmente bukowski, que somos parecidos ou assim
pelo menos nas entradas e nas minúsculas, na falta
de consideração pelos inícios sem grandeza.
tá certo, fui à livraria mais conhecida da cidade
verdade que com duplo sentido
e fui buscar uma colecção sobre amor.
uma das funcionárias surgiu-me há dias num sonho bonito
de riquezas e conquistas, amizades verdadeiras
e o triunfo do espírito perante a carne fraca, unidas
no afeto das pessoas adultas que o censor
prontamente avançou-me da vista.
quando acordei foi como se tivesse acontecido
não me queixo
e com isso consigo afogar o que resta da outra donzela
e não me queixo novamente.
lendo o subtexto que criei na minha cabeça infantil e tapada
fiquei uma semana em cafés a tomar, dando tudo,
mas a coragem bebe-se e depois desaparece
como disse um bom amigo
então fiz questão de lá ir, todo narso, e seja o que
Deus quiser.
ela não estava, que miséria.
atendeu-me um tipo magrinho de óculos mas pouco observador
e trouxe-me o livro
e mais outro que eu pedi de instinto
e ainda me cobrou euro e meio pelo saco de papel.

então, sobre os poemas do homem:
no amor encontrei de tudo, 
conas e mamas
e pixas e sexo selvagem e cus
e pessoas a lambê-los,
paixões de esplanada, gastas numa noite
expirando num duche quente.
não vejo as semelhanças
até porque eu nasci quando ele morreu
mais ou menos
mas estou convicto que preciso duma pessoa deste género
para me ajudar a conquistar uma próxima amante nos meus sonhos.
a última vi-a deitada numa cama, em tronco nu
pedindo pouco mais que uma vida honesta
e por favor livra-me de trabalhar.

diário do barreiro I

que bem se dorme sem o peso dos sonhos
os olhos trancados a sete charros, que beleza
o silêncio e o tempo a passar rápido.
mais cinco minutos, levanto-me à pressa
e nem tenho ramelas.
divindades descansaram nesta noite
a raiva trocou com a moleza.
desperto e com a espada à cinta
vejo pela janela um buraco finalmente tapado:
acabaram as obras, boas notícias.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

culpados em par, dois tipos de medo: passado (eu) e futuro (tu)

estou mais forte. 
mais violento
suspeito
porque os conflitos desbocam à minha beira
com a facilidade dum fogo que pega uma acendalha.
esta energia suada cansa e um dia
sei que se vai esgotar, 
no escuro e num estouro.
ganhos escorços escondidos
atrás de tumbas que plantastes cá dentro,
seus asnos.
perdoo-vos e perdoem-me, dos céus
ou das profundezas do oceano que nos separa.

um que não é igual aos outros,
quando fiz tremer o chão em ira
que apontei para cima
vi-os aos montes suspirando
pela minha perda de paciência
mas um, apenas um, símbolo de muitos
colou à ocasião a sua paixão devoradora
e oculta, e largou um feixe de olhares
endiabrados, coitado, e o nó dos dedos 
a estalar, uma raiva que esvoaçou
com um sorriso.
a ocasião foi péssima e abri uma linha
nas dívidas da essência, não cobra juros
mas nunca fica salda. é o preço justo
que paguei mais de mil vezes,
o meu corpo servindo de testemunha.

sabes, 
suspeito que algo aqui está um pouco mal contado.
o sininho debaixo das mantas está a tocar
e o que toca entende mais do que eu destas coisas.
porque fazer fintas quando se tratava dum impulso?
cheira-me ao velho osso contra osso
a tua vontade contra a minha
submissão a regra.
eu detesto esses joguinhos
nunca fui de competir
nem com pares nem com primos,
só fantasmas de tempos primordiais
e mesmo assim sou meiguinho.
agora lanças-me a mão em braço-de-ferro
e quanto mais penso mais sentido faz
eu nem tenho nada a ver com isso
mas vejo-me frente a frente, pendurado
num balcão de madeira, a optar
por ser cobarde ou aceder
às tentações da tua esburacada auto-estima.

eia que estourou o cano novamente

mais uma obra nesta rua
um remendo ao serviço mal resolvido
da semana passada. estouraram os canos
e com um chuvisco ligeiro o quarteirão 
ficou uma lagoa castanha, até aos tornozelos.
o primeiro dia passou e deixaram a poça secar
e hoje resolveram finalmente intervir. 
os velhotes do bairro agradecem o espetáculo grátis
e circundam o buraco que os funcionários da câmara
fizeram mesmo à frente da minha casa. vejo-os da janela,
os bonés sujos de tinta misturados num mar de lama
e cabeças grisalhas. 
já la vão quase 12 horas e ainda ouço as máquinas
brrrr brrrr brrr - escavando e transportando terra
de um lado para o outro. 
parece que o arranjo não é final, só um refeito
no remendo anterior, desta vez conforme o que deveria ter sido.

infelizmente para mim, e para si leitor,
neste bairro não vejo as putas na beira da estrada
nem vejo o crime violento de perto, nem tiros
e as escassas sirenes fugindo do trânsito
são muitas vezes para acudir uma idosa solitária
e não mirabolantes perseguições à hollywood.
aqui não moram carros rápidos nem palmeiras
cobrindo a costa em recortes cénicos
nem atores ou ministros, pessoas públicas de
"respeito".
não é subúrbio nem é metrópole, 
a classe média não morre de tédio
os pobres não moram nos pátios.
só um bairro assim, assim-assim
velho e devagar, adultos cansados
e um comércio local dos tempos da expo,
as crianças jogam descalças em campos
sujos mas gradeados. a bebida faz mais vítimas
do que o crack. armas nem em sonhos. 
vemos os buracos no chão
e os enguiçados procedimentos da junta
a descobrir o asfalto
que cobre esta terra cansada.

domingo, 13 de outubro de 2024

qual é o logro?
tenho plantas mortas no jardim
os planos que fiz, uma grande estufa
uma hortinha diversa e composta
em cada raiz a resposta
dos enigmas que fome traz.
o esforço e a disciplina
a rega persistente, preparada 
com rigor em tábuas de cálculo
as flores, as calorias e as ervinhas miúdas.
parecia tudo um grande encanto
persistindo nas jornas em canto brando
um assobio suave que se mistura
com o piar dos primos plumados
que se sentam nos galhos da cerca viva.
parecer não é ser
e nenhum dos legumes brotou
e as flores negaram-se a pôr cor
nas suas pétalas, que só apodreciam
em caules magrinhos.
o dia das plantas mortas.
não há rega que salve um corpo
furado, considerei uma queimada
mas temo pela cerca
que dá forma ao quintal.
terei que medir, uma a uma
de joelhos na terra com uma lupa
e assim farei, cobrindo a fuça
com a mão ao alto, testando
o equilíbrio em dificuldade desde novo
como as folhas que tombam com o peso
para o lado, quebrando aquilo que a nutre.
é uma coima do mau presságio
ou do mau ofício, trabalho mal feito.

resta um campo doente
e uma estrutura em vidro
vazia, que arrelia o tento
em torna-la numa chuva de cacos,
diamantes afiados eutanasiando
os suplícios do pasto, amarelo e de gravilha.


resolvido em acordo e consenso

assinemos um acordo a três tempos
cobrindo as promessas a curto, médio
e longo termo, as causas da discórdia
resolvidas em trâmites legalistas mui oficiosos
e jurisprudentes na cartilha de responsáveis.
das partes, multilaterais em mesa posta
um andar com janelas sem cortinas
que escondam observadores de causa neutra
a estirpe passiva.

toca a campainha do escritório
toca novamente pelas madeiras antigas
e a louça de oferta de tratados do passado.
toca uma terceira vez, impaciente
homens grisalhos sobem as escadas que guincham
com as passadas da trupe do direito,
sapateando em couro e graxa pelos séculos
desta casa disfarçada entre as outras.

entram quatro homens, o sr. procurador
descalçou-se à porta, sente-se capitão
e sentou-se na poltrona mais perto do bar
serviu-se um cocktail e apressou o jantar
os secretários permaneceram em pé
guardando as portas com malinhas
também em couro e graxa, mas escuras
e vincadas. cheira a tabaco e a velho.
discutiremos o futuro, disse um deles
e escrevinhou a data e o número da ata
no canto de um bloco com papel químico
a tirar o duplicado como se fazia antigamente.

ninguém quer que seja grave, mas com essas
poses de réu em pleno crime, a ocasião
que o permite, é difícil negar. as impressões
unânimes fazem um juízo simples, 
poderás pagar em dedicatórias e sendo
outro, ou então um exílio voluntário
que resolva a disputa em silêncio.
é o meu papel, esse?
o duplicado, sim.
entendo, sendo assim que escolha resta
a letra da lei é pesada e cobre-se de pele
dura e calejada, as palmas sujas 
de tinta preta, é o que dá
escrever com pena.
resolvido o atrito, garante a paz que faz a noite
ser calma e descanso,
garante o próspero conforto da liderança de amanhã
e salva o futuro da espécie
o arauto da ordem das causas nobres.

tiradas as notas, vestimos as capas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas
e descemos as escadas