domingo, 27 de outubro de 2024

para a americana no banco alto do pub

cheguei com os meus pés fedorentos ao cúbico
que digo que é meu. a fumaça ainda não conseguiu
escapar deste degredo, nem eu.
puxemos outro, em boa medida.

chamava-se the couch, apesar de não ter sofás
nem assentos a gosto. lutámos para sentar
mas valeu, porque um bar de pessoas agarradas
ao desporto é mais do que uma maré daquilo
que a arte chama de arte, seja o que for
a arte.
amámo-nos num bar de jogo e dardos.

tenho compinchas, fiéis escudeiros das batalhas
contra e com a normaleza, milhares de anos
pingando contra o balcão. somos primos
e família nesta. jogo da vida, as apostas
contra uma placa que roda luzes. golos
contra as lágrimas que reprimes.

dancemos, americana,
o pó será o que resta.
as vossas festas nas coxas
são um consolo elástico da devoção
duma mulher racional. no mundo da vontade
fluímos como crianças, pombos que respondem
às esmolas de gentes melhores.
dançámos sim, para salvar a vida
daqueles que sentem a vida
na pele e na alma e naquilo
que faz a vida ser a vida e não uma conta
de merda e rotineira
mais uma peça na trama da grande
vontade que nunca foi a minha
nem a tua 
nem a nossa
nem a de um porco que estica o pescoço
na matança mas se lembra que foi
filho de Deus
como eu
e como nós
e dançámos por ele
e por nós.

somos crianças
como cavalos no pasto
sem fé, só vontade
de fugir das moscas.
pele grossa, coração que bate
contra a vontade das preces
que a gente seja
da vossa.
nunca
nunca nunca.

filha americana, salvas-me a vida
sendo devota do vosso amor
das ancas carnudas que tu
e o teu rapaz jogam contra bancos
de três pernas num bar de jogatinas
disfarçado de tuga no meio da avenida.
sei os teus passos e sabes os meus
e sabemos o preço do pecado
e da pele rija que a gente
guarda os dois no juízo
de sermos decentes.
fugimos e fizemos família
numa dobra sem resposta
nem retorno. os teus olhos azuis
e os meus, breu como os abutres
na hora da morte, 
a carne à mostra e eles salivando.
coração de plástico
sou teu vassalo
e serei plebeu
até o fundo do poço tornar o desejo
num parasita que consome
a vontade dos bons seres
que passeiam no prado
com nome e elegância.
amei-te por minutos
e fugiste por tempo igual
e fingimos que não
pelos meus irmãos
e pelo teu amor.
pele grossa, tento sensato
de pessoas adultas e
acima das frequências
que são as vidas
de pessoas elásticas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário