mata-me antes de partires, saedades do verão dos nossos corpos. vacilo com tantas, vou largando as pistas escondidas no meu blog semi-anónimo (este), vou sonhando com outras. foi a ti que joguei as mãos na hora do aperto, minha vontade pulsando no teu sufoco. é uma ideia estúpida e datada, eu sei, mas é verdadeira. quem lê sabe que normalmente este é um dos meus temas favoritos. é mesmo. jaz na sombra um mentiroso do pior, que não sabe ser honesto nem que lhe custe a vida. cada história um ponto extra, cada trama um desfecho falso, não na essência mas sim na estrutura. eu creio genuinamente que a natureza da Verdade, a tal com v grande, é que o ponto transcende ao contexto. não é preciso ser um génio para saber dessas coisas, mas gostava de clarificar duma vez por todas. a essência sou eu e o mundo que apanho pelos fragmentos latejantes do meu olho cansado, vendo as cores todas que consegue ver, que chora e fecha com a luz forte. saedades, mudei-lhe a forma e as letras. és tu. será vã a forma como eu creio que isto está tudo desenhado? talvez, talvez. faz demasiado sentido e a intuição tem sido boa amiga, portanto vou confiando com desconfiança nas linhas que são desenhadas por esta folha em branco de plágio e trágico e claro, bebida, que é o vosso humilde autor. se me vissem agora saberiam, com umas calças às bolinhas, manga-cava do tamanho dum obeso, pólo negro por cima, cobrindo a brancura que estimo, e um casaco verde do meu avô que uso todos os dias mas só em casa. gostaria de acreditar que sou uma ramificação do seu legado, meu estimado e competente ancestral. ambos amamos mulheres. ambos gostamos de pão. ambos tememos apenas a Deus. estavas armado, eu não, mas isso foi uma questão geracional. a minha mãe acha o mesmo, acho eu, mas ela não pensa muito nestas coisas. é inteligente mas não é prudente. entendo, seria igual na posição dela. mulher sofrida e com cara rija. nas poucas coisas que somos iguais, isso é uma. queremos ser fortes, não é? não somos.
as estrelas brilham entre a persiana fechada de um apartamento algures no coração da verderena. é de onde vos escrevo. é de onde eu produzo, de onde eu vivo, de onde eu escondo os meus pecados. alguns chamarão a isto de culpa latente dum cristão de mentalidade escrava, eu chamo a isto pura realidade. achas-te tão acima? achas que isto que partilhamos não é trágico e submisso? servo é a cona da tua cota meu puto. claro que somos servos, mas não de palavras que a gente trouxe coxeando pelas ruelas estreitas da história moderna. desculpa o palavreado mas sou mesmo um boca suja de primeira, como a ponta dos meus dedos e as vozinhas que me tentam nesta casa escura. não é a culpa que rege, é a consciência. não a consigo desligar. ela é cruel e às vezes malvada, mais do que os rombos que por baixo da manta vão fazendo frente às consequências do que sou, ou tento. saedades, que tesão. saedades, que solidão. quem me conduz neste teclado? achas mesmo que é uma fraqueza, uma falha no desenho? serias burro, não o animal porque esse é belo, se achasses que sim. mas falas tanto de ti e da tua vida, dizes. é verdade, narciso existe em cada lago. olha como eu me olho. mas olha como tu olhas para como eu me olho. e olha para esta frase. faz sentido, ou não? é possível que não. a história dirá se faz sentido, Deus dirá se tinha razão. é provável que não, mas pronto, como vós, sou burro. o símbolo, o insulto e, gostava de acreditar, o animal. mas escondo-me atrás de penduricalhos. vão-me na cabeça e no pulso e no coração que bate, a custo, porque faço-lhe mal. tabaco e álcool, miséria auto-imposta. a minha ex-psicóloga e o chatgpt concordam que passo demasiado tempo ponderando e pouco tempo agindo. vão-se lixar, eu faço para caralho. eu jogo a pele em todas as jornas, contra a sorte e contra o vento. choro com os pombos, os meus primos plumados, rio com os velhos e dou-lhes sorrisos que levarão para casa e pensarão "ainda há jovens com a inocência da terra". é mais uma mentira que lhes conto mas eles não sabem, e no meu pecado dou-lhes uma paz que vai para a cova com os seus dentes postiços e as suas doenças terminais. eu amo-vos, senhores do café, esposa do miguel, filha de alguém. nós não somos em nada iguais e somos em tudo iguais. teríamos sido amigos em tempos. talvez família. a minha é igual, sem semelhanças, mas somos ligados pelo laço do sangue na mesma. emerge a noção das vossas doenças e das virtudes. genético desígnio.
perco-me em considerações sobre pessoas que conheço há pouco, mas apraz-me ser parte de alguma coisa. um bairro, eu sei que não é o meu, mas por agora pertenço. conhecem-me pelo bagaço e pelo chapéu. viram-me os olhos poucas vezes, o que faz sentido. sou só um reflexo deles, para eles e por eles. tenho a cruz no peito escondida, primeiro porque a fé é muito mal interpretada, segundo porque não me compete pô-los no juízo. uma vez disse que eu era a fúria Dele. mais uma patetice desta cabeça coberta e sem experiência. só fui para ti, e fugiste. acho que fizeste bem. honestamente, quem poderia aguentar com as consequências turbulentas deste paciente aguardando diagnóstico num hospital onde nunca irá? durante esses seis anos interrompidos vivemos a vida como nunca, ao menos isso temos que admitir. o tritão bem podia ir destruindo as vontades e o resto desta casa, mas vivemos um amor intemporal. a sorte que eu tive, raios, só posso agradecer. quantas pessoas correm esta terra sem saber o sabor da paixão na fronteira entre Deus e a loucura? pecámos também. beija-me antes de partires na próxima volta.
acho que estão agora a entender muito do que se tecla neste canto escondido nos confins da internet, entre os desconhecidos e as tentativas falhadas de fazer parte de alguma coisa. se chegaste aqui é porque sabes quem sou. ou então o destino fez da suas, mas a primeira é mais provável. sorte a minha que letras agora são praticamente gratuitas. gastarei todas para contar a história duma pessoa vulgar, bruta, incompetente, ciente de si e do espaço, dando sermões a passarinhos que já viram isto e muito mais vezes sem conta. cada pena desenhada por milhões de ano, pelo medo do fim, pelo fogo dos céus, pela tristeza do verão, pelos céus chorando em meses frios. desculpem-me, leitores e aves do mundo, pelos ralhetes constantes e pelas observações inócuas duma pessoinha barata e canídea. o que compele é uma vontade de deixar presente que a vida não são só coroas e inteligências raras, sabedores da cultura, colecionadores e outras estirpes de especiais. há gente podre. há gente podre e triste e mentirosa e honesta, como eu. animais sem léxico, poetas sem rimas. gente da letra minúscula, servindo ao Senhor sem saber ao que vão. sou eu, são pessoas do mundo, são os passos que ficam na areia quando a gente anda na praia e vê as pegadas perdidas pelos caminhos escondidos onde ninguém vai. poucos confiam no acaso, mas pelo buraco da agulha, quem passa? experimenta mete-la debaixo de água. algumas gotinhas. escolhidas? duvido. especiais? claro que não.
jogando à beiça a caneca, estampada pelo meu cunho, venha daí mais vinho branco e quente. outra confissão que certamente não surpreenderia um leitor. quem vos fala é um bêbado como o pai, como o avô, e provavelmente como todas as gerações anteriores. considero isso uma prova da minha casta, a que chamo de "baixa" neste blog. não porque são pobres ou escravos ou serventes de gentes grandes. só pessoas comuns, banais, existindo pelos séculos que desaguam aqui. claro que há nobres, padres infiéis à fé, filhos de violações dos senhores da história, bastardos, herdeiros das mentiras de mães sedentas. mas isso somos todos, desculpem-me pessoas de sangue azul. algures na linhagem espera uma infidelidade que circula nas veias e que te faz ceder aos apegos do sexo. agora que este foi banalizado parece fácil crer num antes e depois, mas a verdade é quase oposta. as regras rígidas fizeram que a tentação desse vida. o pecado é o nosso pai e mãe. agora, com as desculpas prontas e a vontade liberta, eis que o destino nos conta mais uma: não nascerá sucessor! eu acho isto muito engraçado. parte de nós nasceu nas traseiras de um estábulo pelos suores secretos e cheirando a cerveja barata. agora que vale, acabou. é hilariante. chamem-lhe o preço a pagar pela noção, a resposta errada à pergunta, o desfecho correcto, o que for. é uma anedota muito bem feita. o que podemos tirar daqui é: o nosso sangue impuro só responde às fronteiras da nossa capacidade. saberemos isto em mil anos melhor do que agora, mas deixo aqui por escrito. não quero ter razão, só quero que se saiba.
agora pergunta o leitor: então, qual é o ponto? se o amor corre nas paredes da carne fraca, se a vontade falha, se o pio só existe no bico dum pombinho, de onde vêm estas emoções tão convictas? e eu respondo: saedades são todas, mas ela em si. saedades é a morte menos um. foi e será a última gota do que aquilo que não sabes pede. saedades foste tu (não me atrevo a dizer o teu nome), a joana, a filipa, a tânia, a raquel, a menina na camioneta, a saldanha (que vergonha do meu próprio nome), a cátia, a beatriz, a maria, as ilustres em 2d, a rita, a rita, a outra rita, a outra filipa, a mayara, o engate duma noite. o poder da beleza, o vergar das costas fracas perante o belo feminino. saedades foste uma, mas ensinaste-me todas. beija-me antes de partires na próxima volta. mata-me se partires outra vez. os teus olhos esbugalhados num clímax a fingir que nos matamos é a imagem que resta duma pessoa fraca, da família perdida, de considerações vazias e de um apartamento escuro algures na verderena onde fomos um.
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