quinta-feira, 24 de outubro de 2024

quando li que o amor era uma libélula, vomitei

a monumentalidade é oca
ou dito doutra forma,
essas efígies são uma ganda banhada.

maltratada é a nossa escrita
que vive no tempo das carroças
e dos cultos à virtude, vã
e sem peso nem medida.

se eu fosse pelo que corre
nas linhas conhecidas, seja na rede
seja em terra... meu Deus.

ama-se com jeitinho, 
vive-se nos idílicos jardins
dum grande palacete
e a princesa desce as escadas
com as papoilas e as tiaras
e a paixão sorri e voa
nas asas duma ilustre borboleta.
que românticos :)
que contemporâneo S2
é claro que amor é o golfo
que arde na tv
quero dizer, 
fogo que arde sem se ver.

poupem-me.

nem que seja por breves minutos
para beber o white american depois
do turno no editorial da revista
(que acabou mais cedo),
desembacem as lentes desses óculos
e vejam com atenção como seguem
pelas calçadas calcetadas
o que sobra deste povo 
e o cheiro a vinho e a charros
misturado com um pivete a churros,
fritos, mais as tochas eletrónicas
nas esplanadas dos camones.

esse disfarce que andamos a espetar
no presente, como se ele fosse uma
criancinha que os pais desfilam
nas ruas das terriolas na véspera de carnaval,
todo roto e remendado
de tal forma que acho que se pode dizer
que é algo novo, uma paródia
ou uma caricatura de almas mais mansas
que não habitam neste plano há séculos.

os cabeças-de-faculdade também não ajudam nada
andam aí endinheirados q.b., que sérios,
nas passeatas dos seminários
e as gentes do povo, os poetas,
a miudagem com ambição,
fica tudo na calha, entre o cinzeiro
e a porta do bloco.
"mas é tudo aberto e grátis!
não entram porque não querem!"
eca yuck ehhh >:(
tentativamente, matem-se.

eu detesto mesmo mesmo
fazer críticas e apontar este meu dedo roído,
mas quando li que o amor era uma libélula
vomitei-me todo. 
se ao espírito não apraz
as bênçãos da intuição
ao menos considerem os números
e o nível do diálogo que rola
nos outros meios.
é o mínimo que podemos fazer
para nos mantermos pessoas
seja da normaleza seja da casta baixa
o que importa é ser a gosto.

eu fosse um viajante
teria essas rimas em pouca conta
e mandaria um sorriso cínico
"como é tansa esta trupe"
mas não é preciso ser assim
basta teclar com coragem
mais que destreza
como os pintores imaginam o mundo
e o esforço e o tempo numa tela.

desabafo completo
vou buscar o raid e exterminar
o resto desta bicharada asquerosa
e pondero seriamente reformar o ponto
até que ele volte um dia


Nenhum comentário:

Postar um comentário