segunda-feira, 14 de outubro de 2024

culpados em par, dois tipos de medo: passado (eu) e futuro (tu)

estou mais forte. 
mais violento
suspeito
porque os conflitos desbocam à minha beira
com a facilidade dum fogo que pega uma acendalha.
esta energia suada cansa e um dia
sei que se vai esgotar, 
no escuro e num estouro.
ganhos escorços escondidos
atrás de tumbas que plantastes cá dentro,
seus asnos.
perdoo-vos e perdoem-me, dos céus
ou das profundezas do oceano que nos separa.

um que não é igual aos outros,
quando fiz tremer o chão em ira
que apontei para cima
vi-os aos montes suspirando
pela minha perda de paciência
mas um, apenas um, símbolo de muitos
colou à ocasião a sua paixão devoradora
e oculta, e largou um feixe de olhares
endiabrados, coitado, e o nó dos dedos 
a estalar, uma raiva que esvoaçou
com um sorriso.
a ocasião foi péssima e abri uma linha
nas dívidas da essência, não cobra juros
mas nunca fica salda. é o preço justo
que paguei mais de mil vezes,
o meu corpo servindo de testemunha.

sabes, 
suspeito que algo aqui está um pouco mal contado.
o sininho debaixo das mantas está a tocar
e o que toca entende mais do que eu destas coisas.
porque fazer fintas quando se tratava dum impulso?
cheira-me ao velho osso contra osso
a tua vontade contra a minha
submissão a regra.
eu detesto esses joguinhos
nunca fui de competir
nem com pares nem com primos,
só fantasmas de tempos primordiais
e mesmo assim sou meiguinho.
agora lanças-me a mão em braço-de-ferro
e quanto mais penso mais sentido faz
eu nem tenho nada a ver com isso
mas vejo-me frente a frente, pendurado
num balcão de madeira, a optar
por ser cobarde ou aceder
às tentações da tua esburacada auto-estima.

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