quinta-feira, 24 de outubro de 2024

o meu passarinho azul

eu tinha um passarinho
azul e muito lindo
ele fazia par
com o outro dentro de mim.
esse mesmo que estão a pensar.

ele tinha um nome, vocabulário,
várias danças, uma música,
tocava o sino quando se sentia sozinho
e eu corria pra ir ter com ele
e ficávamos os três
ele no meu ombro
eu sentado no chão
o de dentro espreitando com orgulho.
uma família de quatro, humilde
e desajeitada, em quartos separados
mas ouvindo tudo que passava.

eles dormiam em paz
e eu ia mandando o fumo
pelas janelas para não magoar
os seus pulmões sensíveis.

nós éramos parecidos
filhos sem pai, encontrados ao acaso
o medo uma estupidez, falta de noção,
a mesma mãe: maestra deste lar.
os espelhos fascinavam com uma força magnética
talvez porque nenhum tinha a forma do outro
e os olhos buscavam o calor da semelhança 
que partilhávamos no espírito.
eu espreitava, ele voava contra ele
os dois submissos à reflexão
e o de dentro coçando
as cicatrizes. 

mas estávamos doentes
os quatro
e isso foi o fim
porque nenhum se entendia
de cama
eu com raiva
ela com desgosto
ele sozinho
o outro anémico.

e assim foi o fim.
se eu pudesse escolher
e sei que o de dentro diria o mesmo
se piasse como dantes
continuava enfermo
até as bombas caírem
e fazíamos a conta
todos do outro lado,
a deles mais fácil 
que a minha.

mas o tempo voa
e as sementes ficam
e todos se foram
e fiquei eu
e o passarinho que guardo em mim,
ambos em silêncio
um afogando o outro 
entre o choro e a bebida.



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