um cão velho ladra para as motas dos estafetas
o meu pc chia e ronca com a ventoinha no máximo
a outra eu tive que tirar porque entrelaçou-se com um fio
e fazia um cagaçal que até das escadas se ouvia.
passam carros com turbo e trotinetes elétricas
passa o dia correndo e sem pressas
desde o almoço que estou colado ao sofá
de barriga para baixo com o nariz afundado
no meio de pó e cinzas. meti 3 despertadores
um para uma pausa
outro porque tinha mesmo que ser
e o terceiro como a linha vermelha
entretanto já passaram mais uns 45 minutos.
toque no computador do trabalho
pus-me na escrita a ver se das palavras
desentope a vontade de ser burocrata
nham, que delícia, os ofícios de gerir
e entregar e aprontar e corrigir e apontar
os erros das máquinas e das pessoas
enquanto uma mosquinha perdida
tenta fugir desta sala de fumo.
toque no computador do trabalho
as janelas da casa escancaradas deixam correr
uma brisa agradável que vai badalando os meus
finos fios de cabelo da franja. olhei-me ao espelho
e parecia muito natural. o ecrã preto do trabalho
reflete a minha sombra. o relógio não perdoa
toque no computador pessoal
isto já nem é preciso, é um vício ou uma nóia
qualquer.
mais duas horas, vamos lá, eu consigo
a chuva vai-se acercando, topo-lhe o cheiro
e lembro-me que ainda preciso lavar a roupa.
tanto me ocupa e eu tenho uma bolha
na coxa que eu nem sinto mas quero tanto
estourar num duche morno.
não posso, não consigo ouvir o teams da casa de banho
com a torneira aberta e correndo livre
como os carros que cortam o vento
e os guinchos dos seus travões
desviando-se do buraco na estrada que nunca
vai ser definitivamente fechado.
toque no computador do trabalho
que pregui- despertei!
a correnteza bateu a porta
do escritório ou da sala
ou do jazigo de um burocrata.
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