nem na escola nem fora
a faculdade fi-la porque não tinha desculpa para não trabalhar
e certamente não seriam artes uma justificação digna
para fugir da loja da minha mãe.
essas memórias, o fim da adolescência e a entrada
nos jovens e magros vintes, bons tempos
e agora com demarco e the smiths
posso largar um sorriso escondido
já que abandonei essas pretensões
d'artista.
nessa época os arroianos pareciam-me fascinantes
ainda parecem, cínico que sou não posso negar,
mas o encanto dessa altura ainda brilha
quando remanescente a rádio passa
uma memória feliz.
onde estudei jogávamos as facas no mato
para o texugo não nos atormentar o juízo
nunca as usávamos para nada mas dava
uma certa sensação de segurança
quando voltava para casa no inverno
com as minhas amigas de fato de treino.
esse primeiro contacto com a porta da arroio
foi como se o carnaval tivesse antes sido
toda a minha juventude, vestido de preto
e calçado dado pelos amigos que fiz
tornando-me num jovem do ócio e da vida.
vocês, os exóticos, confiantes na roupa barata
que nunca precisou ser, os cabelos coloridos,
os rapazes judeus, caracóis sem vergonha
fumando as pontas uns dos outros que compravam
em avulso no café à porta da escola
e nem professores vos impediam
de fazer lixo e correr os riscos e tentar nos erros
que a idade exigia.
era difícil enxergar do fundo do rio
como brilhavam as vossas cores, xadrezadas,
e a purpurina colada na cara de meninas
atrevidas em palavras e vislumbres.
há uma neblina pura que quando inspiramos
limpa os pulmões e torna a vista mais clara.
são os céus a dizer que sim, essa nostalgia
aconteceu e foi bonita como foi.
como foi.
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