pára, cuidado, para antes que te façam a folha.
a alta patente fez-te tremer nos sonhos
os teus mestres fizeram-te comer pela calada
temer a matemática, o teu talento escondido.
talvez seja a última pessoa que se lembra
de como eras bom com cartas e contas.
deixo-te esta pequena homenagem
os compinchas do bugalho,
a tua avó contou-te com apreço
como todas as pedras no terço,
e o rufia do teu cota partiu-te um dente,
filho da puta.
tinhas um sorriso honesto na mesma.
havia muita mágoa e tragédia escondida
naquela turma. podiam ser umas bestas
mas foram cravadas em aço quente
e cintas de couro velando pelas nossas costas
como as unhas do diabo cravando na fruta
do pecado, pingando lágrimas que foram traumas
e que passávamos uns aos outros
entre sorrisos deprimidos,
escola miserável.
somos rijos, sois rijos
e os que não foram dentro
ou não se conheceram no fundo do copo
vergam a mola com orgulho e família
espero
ou jogam nos prados infinitos da alegria.
uma leitura idiota daqueles tempos
é que havia brutos e minorcas
escondidos. não podia ser mais estúpido
como os professores, coitados, não
entendiam chavo de crianças. o luxo
um pedaço de plástico, os lápis mais baratos
da loja d'artes, o casaco do outlet,
umas barrinhas fininhas de haxixe.
não são desculpas, são reflexos
de como éramos miudagem da casta baixa
agora temos olhos na cara
e a neblina na vista
e podemos fugir
dos buracos na calçada.
antes não.
lembras-te
quando a inês roubou a caixa dos valores
sem a conseguir abrir
foi um filme, corremos o bairro todo
e ela acabou por devolver, muito envergonhada,
e nós chamando "cara de peixe!"
porque pecado maior era ela ser feia
que ladra?
lembras-te de como não havia
ódio na sueca
nem facadas de amor
nem drogas ou bebida
só violência natural
gozões e gunões
e alguns dando a parte fraca?
pára, ex-amigo, não sei o que é
feito de ti nem dos teus
mas desejo-te o melhor
mesmo que não tenhas sabido
ter tento na mão pesada.
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