terça-feira, 22 de outubro de 2024

a normaleza

cheguei a casa, tombado da bebida
como sempre, o cigarro encostado
ao canto dos dentes nas escadas
e atirei contra o sofá o chapéu
e quase toda a roupa, pus-me em 
cavas e na cruz que escondi e agora
anda livre contra o espelho.
hoje, um dia grande
seja pelo tempo que passou
seja pelo esforço que foi feito
em misturar-me convosco, normaleza
os filhos do tempo e da destreza
de saber navegar nesta era.
os espíritos das ruas conduziram-me
aos lugares que preciso
os colegas, os amigos, conhecidos
encaixotados no logro do ofício
como desbravámos os cantos
fingidos, a vontade respondendo a lento termo
às preces daquilo que precisas, estalando entre
ser tão ESPECIAL e ser tão NORMAL.
fui de uber, como sempre, com medo
do suor no pêlo de vos ser próximo
e lembrei-me de um mano que assim é
a toda a hora em toda a parte, 
e nunca mais julgarei essa
melindrante vontade de escapar.
estavam tantos, em grupos difusos
unos no sítio, incapaz de fazer caminho
próprio pelas luzes que piscam entre os toldos
das esplanadas que cobrem um hotel de luxo. 
os herdeiros e uns fidalgos
da normaleza estacionados
com os pipos jorrando um cheiro a gomas 
e melão, que nojo, odeio esse cheiro
falso e aceitável.
fomos, comemos, eu não,
só fingindo que esses petiscos
eram bons e eram filhos
das estrelas todas que quedavam
no placar que vi logo à porta.
a massa fria, o porco cru,
cenouras cortadas em trato raro
para a plebe que fascina
com essa comida de resina
valorizada pelos que sabem de comida
de resina.
logo será hora duma chamuça
bem-feita e que apraz às vontades
da prole.
o dia foi labuta, como sempre
mas como nunca, testando
vocábulos numa língua que mal sei.
atrasos são critérios de vontades
medidos por quem não as sabe
e nem as sonha.
feita a obra, treinos para pessoas
que não existem por agora, pessoas
que não existem por agora,
como eu, mas eles não sabem.
a normaleza não sonha, acho eu
e se sonha não são sonhos de gente
mas sonhos de senhores que se escondem
algures entre "tinha que ser de mim"
e "não fosse eu então quem?".
sois plebeus, como eu
e como os meus.
esta foi a parte simples.
o céu e as aves adornam a vista de pessoas
que não entendem nem céus nem pássaros
mas são gente que nem eu, camponeses
como eu, mascarando os seus dedos calejados
como eu, tentando as vontades cheias de entradas
como eu, vivendo a meio gás com toda a pica
como eu.
tirámos umas fotos, jogámos umas piadas
ao vazio desta conversa, sem princesas e 
uns duques que na sua sapiência perderam
o juízo e optaram pela competência duma forma
burra e honesta, talvez como eu
mas não tenho documento que comprove.
apetece-me fugir
apetece-me fugir
diz-me a voz no fumo
do camelo. 
fumei um, e dois
e três, nas fronteiras
da piscina iluminada
de leds e inglesas
que jogam os seios
contra os ares.
são quatro estrelas, dizem eles
mas mal conheço constelações,
os senões pendurados numa cinza
por bater.
desde que foste isto tem sido muito difícil.
desde que foste isto tem sido muito infeliz.
desde que foste isto tem sido tão... plástico
aprendi tão bem os artifícios da vontade
da normaleza.
pum pum pum pumpum
pum pum pum pumpum
batem corações a quatro tempos.
henry, meu homónimo, somos parecidos
e tão distantes no tempo e na realidade
que eu aceito, acho, e tu jogas contra
as efémeras flores do agora, do agoiro
que encantas em humor e frases vazias
como eu, como eu? não bem
mas é parecido que baste
para sermos primos noutro mundo,
pum pum pum pumpum.
tenho que fugir deste subúrbio
sem filhos. faltam tantas horas.
seríamos quê, uns trinta ou quase
mas quem? magros serventes
da miserável vida da cidade,
uns da malha, uns de gralhas, uns dos tentos
que Deus nos reprime, mas a gente joga
e joga e joga e joga e joga e joga.
pego na cruz, sem desculpas, cada um
sabe os crimes que terá de pagar quando chegar a hora
de pagar os crimes.
eu só queria um filho, o pôr-do-sol admitido
como a morte que sempre foi, a família
na lareira contando as histórias
da nossa sobrevivência.
ainda faltam tantas horas para jantar
eu só quero pôr-me a andar pela estrada
batida que vi do uber que me trouxe.
trago a cruz no peito, escondida porque
não sei se serei medido pelos ossos
deste ofício.
contive-me, guardei com fé
e medo e vergonha, mais uma para pagar
depois do agora.
num passeio a Verdade deu-nos uma luz
daquilo que é e daquilo que sonho.
falei com ela e não ficou nada
só umas letras perdidas na resposta
rápida de ser normaleza.
pum pum pum pumpum.
o rio desafia-me a saltar e eu recuso
porque afinal pertenço aqui
e não nos claustros do caos
que eu finjo que desafio com a vontade
mas são só desejos juvenis dum homem fraco.
falta-me um bagaço, talvez
ou falta-me o brilho dum génio.
voltámos, as senhoras decentes
foram mirar o miradouro mais distante
e eu e o resto da corja fomos virar copos
num assento tão quadrado e feito à medida
dos nossos cus gordos e podres da cedência
de fazer parte da normaleza.
controlei-me, o medo da sombra saltar-me
da espinha é mais forte do que ser honesto
e verdadeiro.
fica na conta com o resto.
laura sois tão prudente e competente
e capaz de desbravar estes segredos
tão normais e tão vulgares
e tão precisos e tão cheios de riqueza.
somos pares mas não sei como fazes a tua parte
de ser normal e fazer arte
que apraz aos espíritos do tempo.
as flores do mal crescem, e disso somos todos
culpados. ninguém vê ou só eu?
serei responsável, sozinho?
a lógica diz que não, a culpa diz que sim.
a normaleza é normal
e produto do tempo e das coisas
todas que constrói o presente
e o fez no passado e determina
no futuro.
farei parte, em negação.
farei parte.
farei, mas não faço
por escolha ou medo ou burrice.
ponho o chapéu, tiro o chapéu
e ponho outra vez, vejam-me a coroa
de fiozinhos que me faz parte de vós.
bebi um vinho ao jantar, mais dois
e fugi para fumar às escondidas.
pus o chapéu.
perdidos em conversas sobre a chuva
e como diferem as nossas pátrias
e os comos do esforço, e os quandos
da família, sorri com a vista
que nem vê. somos iguais, digo eu
atrás da franja que me cobre, todo
e inteiro, da nuca aos pés, prometendo
que nunca saberão disto, o meu segredo
de não ser da normaleza.
uma mentira entre muitas.
certo, tenho que fugir agora
senão a fachada virará fumo
no meio de mais vinho.
adeus, foi muito bom,
diz a voz que comanda a razão
e foge. uma hora seguindo
pelas bermas dum passeio em terra
e riscos, para que não faça vítima
dum pedestre transeunte.
as luzes da estrada brilham
entre as folhas das árvores
cujo nome ninguém sabe.
cumprimento cada uma.
no meio delas, um abrigo:
néon barato, pessoas pobres
e enfoco no resplandecente
consolo de fugir dessa equipa,
a normaleza.
aceite logo, joguei-me numa
espiral de whiskey barato e 
café da sanzala, de agora,
sem nomes, sem medos
de fazer dos plebeus
uma casta conforme o que foi.
bebi dois, eis o meu povo. 
sou o mais sóbrio neste bar
e estou prestes a quinar.
voltei de uber, tirei o chapéu
e deixei o vento fazer-me honesto.
foi libertador. sou normaleza
mas em negação.

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