ricas danças com armani com couro e loro piana,
pondero como cheiram os flatos no átrio
em caxemiras tão finas e as rendas de frança
reminiscente da pompa da carne sem forças
as ancas finas, juventude gasta
nos saquinhos ressequidos de velhotes
de boa casta.
admito, invejo.
quando espreitava entre as cortinas
como corriam essas narinas pelas colheres de prata
mulheres de exemplo, amplas, exóticas,
da beleza que escultores capturavam em estátuas
para mim um porno do tempo
que a vossa laia chamaria de sacro.
o poeta é um burro que sonha
com coisas pequenas, como pessoas
ou como as urtigas espetam
nos traseiros dos pobres.
o poder vocaliza a sua cantiga
em toda a alma vazia, castiça,
amiga, puro no desejo inocente
o pecado.
eu sinto-o, no vento e na espinha
e nos encontros à meia luz
atrás de portões cerrados e elétricos,
os motoristas chegando pelos raios do dia
apanhando uma mão cheia de bêbados
em fato e gravata e gente mui gira,
vedando os trapos da sua grupeta
aos sabores variados da alta cultura.
a voz de dentro não me deixa atuar.
a voz de dentro não me deixa ambição
senão a devoção profunda que vai fechando
os corrimãos que vão para baixo e para baixo,
onde as lâmpadas piscam em passos esbeltos
seguindo silhuetas do fundo do lago.
é uma contradição, estou ciente
chamem-lhe desafio ou o presente
cantem as musas de milão
o subtexto profundo da nossa sessão.
maresia, mármore rijo das vossas festas
exclusivas murmurando
as fontes as tochas o hino à alegria
embalado e absorto em pastilhas alquímicas.
raras fortunas de gente bué esperta...
fosse a vontade mais fraca
fosse a vontade mais forte
teria mais versos para contar.
coberta a mesa de cinzas e coisas
baratas e ofertas do supermercado
vivendo as cruzes da ribalta burguesa
numa tela em vidro e cristais da ciência.
as princesas da vossa
o caramulo da minha
considero as jogadas que faria
para ver as polacas em brilhantina
para ouvir o cognac em névoa trufada
para saber os segredos ocultos de proust
para dobrar estas costas
e vomitar num quintal
adornado de linhas e flores do sul.
a sul.
vou-me meter no partido
vou espetar-lhes a faca
nos patrões e mentores que me abrem as portas
entre palavras sensatas e doces e cheias
de lealdade corporativa pelos lobbies de hotéis.
ou então far-me-ei secreto e gostoso
com os cílios batendo nas vossas carteiras
e montarei um embuste, o crime perfeito.
cabeça bandida, a vista sensível
não decide se belos são os montes ou as serras
ou os contornos garridos imbuídos em luxo.
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