trotineta com vagar pela avenida
vê as vistas, os cães puxando as trelas
de senhorinhas viúvas que já só amam
animais e revistas de fofocas,
os pombos e os melros, mais ariscos,
o reflexo da costa que adorna
a água poluída, para tainhas
e a populaça corajosa,
homens de chapéu com as suas canas
içadas lá ao longe onde os raios
pescam com eles.
jovens de preto e branco em bando
ziguezagueiam na calçada com os seus
sincopados passos
e os sonoros severos
duma atitude que não lhes cabe na camisa
larga que os cobre até aos joelhos.
um fulano de bigode e uns óculos quadrados
segue atrás meio aos gritos,
uma conversa zangada que atazana
a vizinhança, corta os roncos
das motas e o pulsar dum pistão elétrico
o plástico aos chocalhos, um zumbido
de poste em poste
de poste em poste.
sobe uma rua esburacada
não cai, mas treme,
vê-se na vitrine duma loja fechada:
um semblante aforme por baixo
duma carapaça de tecido.
endireita-se, espreita, faz-se rijo
contornando os obstáculos
não tem hora de chegada
não tem compromisso que o preocupe
só segue trotinetando
por esse seu barreiro velho
até que os minutos se esgotem.
de quem?
ou os dele
ou os da trotineta.
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