mesmo que eu fique por aqui
mesmo que não reste uma memória
da pessoa que por sua sombra
me dê um qualquer tipo de nome
fique nobre, ralé, cego, enfermo, sem termo,
e o meu caro se perca
ou se encontre, feliz e com um vigor
daqueles que nunca vi quando
as ruas eram as nossas donzelas fortunas
quando havia um homem e um assobio
umas palavras doces que dão força
fé
alguma vontade que diga
amor verdadeiro
paisagem doce e dourada
quando tudo voar com o fumo
duma ampulheta grave e baça
mesmo assim
lembrar-me-ei duma escolha justa
quando demos as mãos
em silêncio, pelo menos
tanto quanto posso:
tu no veneno, prestes a explodir,
e algures numa rua que dava
para a igreja
ouvimos a chuva, o filho dos olhos
azuis.
sabíamos sim, um dia a chuva
cairá
pois somos tudo,
persiste-se assim
sendo nada.
dizias coisas
como mérito e justiça
que tontice
disse eu
a música tomou o lugar
das palavras baratas
o ano seguiu mais um passo
não houve um festejo
nem panelas, nem fogos
ouvimos a voz
de lobisomens e cães
o poeta
a guitarra
um carro velho enguiçado
e a chuva
lá fora
cá dentro, num rosto pálido,
dois.
fizemos uma corrida
dormiste, brincaste
e mesmo que o mundo
me coma por dentro
por fora
ou por quem me tomas
nunca isso
volta atrás.
nunca se perde um segundo
tá tudo bem
não pensemos mais nisso.
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