olha como treme
o nylon nesta terra
soa o frio de janeiro
pelo braço da guitarra.
a ponta dos teus dedos
dá frequência ao casco gasto
e segue cego de memórias
encarnando as vibrações
que chamamos de vontade.
canta uma voz doce
os objectos do apreço
os convexos vislumbres
ingénuos e esquecidos pela brisa
que os vai levando para a beira
e torna à água da corrente
os esforços de quem dorme
com a nuca deitada no nunca
ou nas correntes geladas do sempre.
vai
tenta a nota firme
azul
rogando o desfecho
que complete essa pauta.
vai
tudo será melhor
se a música tocar
se o verbo voar
nos lábios do artesão
todos os ritmos se cruzam
entre os versos da canção.
manda vir o tempo em terços
baptizado de termo ou tento
seja cínico o compasso
sirva o fogo pelo aço
enrijece o querer louco
e darás um passo largo
de três silêncios e uma breve
resposta que a guarde
numa noite nada branca
como esta e outras tantas
junto ao tejo endiabrado
torpecendo a escuta altiva
dos renegados da certeza.
o nevoeiro mascara
a melodia sigilosa
de um rosto repousando
depois de anos repetidos
mas nunca em pleno resolvidos.
vamos
sente a acústica nas ondas
corações cruzam-se na valsa
e batem contra as cordas
conduzem a batuta
de pessoas que por fim
são pura sintonia.
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