sábado, 16 de novembro de 2024

as velas apagam-se para luís linceu

chegando à cena do crime, o detetive
pousa o sobretudo na haste de mogno
da cor do chão e dos armários no corredor.
sem tirar o chapéu espreita as reacções
à sua chegada, de soslaio, e depois sim
o pendura no mesmo gancho que o casaco. 
perscruta novamente, em tom de desafio
num vagaroso movimento lateral.
os suspeitos estavam no fim do hall 
em frente à sala de convívio
uma das vítimas estava no quarto, deitada,
divisão em direcção oposta ao salão grande.
o mordomo estava preocupado e pediu a todos
que se descalçassem, a madeira era frágil
mas ninguém cumpriu
excepto uma das testemunhas que aguardava
pacientemente à esquerda do detetive.

muito bem
disse, puxando do cachimbo,
parece-me que temos mais um clássico
o crime passional
e todos ficaram chocados.
senhor agente, meu senhor, como pode saber
se mal acaba de chegar? 
ora ora, este caso é na verdade mais velho
do que eu, só estamos perante uma nova
iteração da ancestral fraqueza da carne.
e puxou uma traga pesada
e largou o fumo denso pelo corredor.

os suspeitos desta vez eram uma dupla
bianca cilix e rivaldo agenor, cúmplices
prováveis que estavam cientes das suspeitas
e pouco faziam para mascarar o seu nervosismo.
não há corpo não há vítima não há crime!
disse zangado
ela assentiu com a cabeça.
a testemunha era lúcio belo, ferreiro e amigo
da vítima, luís linceu, que lamentavelmente
não foi poupado desta vez. ele estava acordado
no mundo das bestas mas para sempre recluso
nos confins da sua alma, partida em 50 pedaços
um para cada trago, abraço, carinho,
momento perdido e suspiro das garras que riscavam
a prata fina da casa, pálida pele de heroína.

não é a primeira vez que nos encontramos
diria até nem a segunda nem a terceira
e com todos os benefícios da dúvida
não consegues guardar o punhal na cinta.
rivaldo esboçou uma feição ingénua e malvada
como uma criança petulante que acredita nas suas mentiras.

e tu bianca, mestra deste domínio, que te leva
a atear fogos em palha seca e sem prudência?
a vítima balbuciou que não havia provas
palavras vazias duma pessoa vazia.
o detetive devolveu com um olhar compreensivo e triste
e puxou mais um bafo do seu cachimbo.

lúcio tomou o mesmo lado, acusando-o
de se precipitar em passar juízo.
eu estive aqui, vi quase tudo.
pois, retorquiu, quase
para completar esse quase cá estou.

seguiram todos para a sala grande
sentaram-se nos sofás de pele, sujos de cinzas
e com algumas nódoas de vinho
contrastando com o brio do resto da divisão.
o cheiro a tabaco colava-se às madeiras
misturado com a humidade que vinha da manhã lá fora.

o crime é o amor
os malfeitores amam
e é difícil apurar onde a linha do desejo
acaba e a da paixão começa.
as vossas faces gritam culpa, afinal,
que humano existe sem a força primordial
da tentação flamejante?
o problema é, como muitas vezes acontece,
que o debaixo da toalha é mantido em sigilo
forçado pela vergonha e pela decência que vestem
prontamente quando se tornam transeuntes
na massa indiferenciada que circula pelas ruas.
o meu papel, qual houdini em caça às bruxas,
o nosso papel é jogar as mãos a esse pano
e fitar de frente os olhos negros que operam
quando a noite cai e os inocentes dormem.
um segredo intacto é um pecado que será pago
mil vezes mais nas voltas que estão por vir
e para poupar os impecáveis que ainda não nasceram
compete-nos arcar com as dores da verdade
crua e exposta que arde e no seu fogo
cura os devaneios dos compadecidos.

as lágrimas trancadas faziam os olhos
azuis de bianca embaçarem, brilhavam
como cristais acabados de polir à luz do sol
joias em seda clara. 
é boa a hora honesta, estimada,
e sugiro que acabemos agora com isto.
ela não cedeu, cerrou os punhos nas costas.

tu, rivaldo, filho de reis e plebeus,
com carinho guardo a memória 
de quando servimos juntos
nos velhos tempos de recruta.
já na altura não tinhas controlo
nessa vontade voraz que se esconde
na pacatez e no charme tranquilo
duma pessoa despretensiosa. 
a máscara compete a todos meu amigo
talvez essa que vestes agora esteja presa com afinco
e se do meu intento se escapa, não do Dele 
com certeza. 
noutra vida cometeste o mesmo erro
e foste perdoado
e foste perdoado novamente
e aqui também serás, não sou juiz,
mas alguém tem de pagar pelo espírito 
que se apagou como uma vela ao vento.

o mordomo e a testemunha ficaram em silêncio.
normal, pensou o detetive. 
quantas pessoas querem ver a vida alheia
em cacos? quantas querem assumir a responsabilidade
só porque o destino quis que estivessem lá
e tivessem os sentidos todos em dia?
só o malfeitor gosta de ter a faca na mão
a verdade na outra, como um refém
troca o desgosto pelo prazer de contemplar
o fim trágico dos mortais
que repetem e repetem
os mesmos enredos
por toda a história.

finalmente levantou-se e declarou
o caso está resolvido, os envolvidos
podem agora decidir por que caminho
preferem mediar o juízo.
suspeito que voltaremos a cobrir
a verdade com a manta e seguirá
tudo como dantes.
deixo as minhas notas aqui na mesa
caso mudem de ideias.

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