o padeiro trabalha a massa quando chega
são altas horas, nem os carros passam
e os vândalos já foram dormir com o peso
da bebida que os compele à acção.
veste o avental, cobre as palmas com farinha
terá que bater, processar, assar, transportar
contar, congelar, fatiar, vender e resistir
à impiedosa rotina do trabalho duro
a pouco ganho, anónimo com as moscas
que descansam em buracos obscuros.
por vezes um ratinho pode chiar em aberto
ou pode o padeiro verter uma lágrima na bancada
mas ambos passam a maior parte do tempo escondidos.
cheira a pão e a maquinaria
os motores da cidade.
ele abre frinchas nas dobras dos dedos
quase todos os dias
quando joga os tabuleiros na fermentadora
o equipamento já é velho e não desliza perfeitamente.
são mãos rijas as que batem
as carcaças de cada dia
a gente conta com isso
e ele na madrugada sabe
mas nunca ouve um obrigado.
humilde, o sol ergue-se no teu descanso
o peso das horas e o esforço nos ombros
refletem-se nas bossas por baixo dos olhos
que contemplam sozinhos o nascer de mais um dia.
o presente depende dele
das bactérias
do tempo
do calor
e da água.
obrigado.
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