quarta-feira, 27 de novembro de 2024

fonte da juventude

tomo o meu lugar
e um copo brilhante abana entre nós
em segredo outros tantos, aqueles que me sentam
aqui com quem sejas à minha frente.
eu sou um homem de lugares e quem lida comigo
sabe bem a que me refiro. talvez não.

o trânsito passa, o vocábulo escorre
para cima da mesa, pelos dedos pousados no colo
pingando pelo canto, paciente até cair
nas calças de ganga gastas que militantes do bairro
desdobram e usam e dobram e guardam e desdobram
e vestem nas visitas às ruas mal iluminadas do beira tejo
ou nas margens doutro rio que nos acolha.
assim vão-se apresentando os anos que passam
e as faces que se gastam mais depressa que elas.

somos jovens, não há casa neste beco
que não nos tenha visto pequenos de mãos dadas
com a gente grande que nos fez a folha.
chamas de cronos ao passar da brisa
que fez a barba espessa
eu nunca acreditei nessas supersticiosas
formas de ver fenómenos.
o tempo anda connosco e o subsolo
continua cheio de ratos em silêncio
com as suas famílias, os avôs de poucos meses
respeitam a norma sem medidas que os aflijam.

vê aquele sinal de proibido
ele não obriga a nada
mas riscamos-lhe uma cruz
porque obrigamos nós a ele
que respeitasse a nossa adolescência.
agora que foi outono por dez vezes
ponderamos pedidos de clemência 
de justiça ou paciência, a responsabilidade chamando
pela janela da vossa casa.
continuo a ver um sinal entre as estrelas
um extraterrestre desejo de conhecer as feições do infinito
ontem foi agora
e há dez anos também
e quando nasci já cabia nos meus ossos
os socos que demos aos reguilas
que rangiam os dentes na escola
porque não tinham sapatos capazes.
rapazes sem tento
foi tudo agora
quando piscas os olhos
continua a ser presente.

trago um casio prateado que bate convosco
e ele não se gasta e nem eu
os riscos que leva no visor são medalhas
de honra da guerra. mas ele bate
e vocês são puxados
cada vez mais depressa
para os bueiros entupidos de folhas
e do lixo que a rotina gera.
estou aqui ainda
agora mesmo
vestido por noventa anos
por outros tantos manos
pelo reino do largo dos cães
as durezas enrijaram a mira
e ela áspera aponta no vosso peito
que vai cedendo à mentira que o tempo passa
e o pó se ajunta.

não entendo
vou para o espaço
serei colono na lua
sem peso que comporte
esse túmulo a que chamam face.

a vida é linda
quando o mundo gira
e a gente fica
romanos, cavernocas
batendo com paus
fazendo fumaça
rumo às estrelas
e se ficarem por terra
lamento
lamento mesmo
perderam o compasso da batuta
e como no retrato que envelhece
as barbas brancas fizeram da alma
um jazigo pútrido e infeliz.
quem sofre com a cruz nos olhos
não está proibido a nada
e vive para sempre.

a névoa paira nos banquinhos da costa
e o fumo dos cigarros esvoaça com o fôlego
do povo que ruma daqui em frente, pela avenida sem termo
sentados em calçadas de pedra trocando palavras vulgares
o trautear cinético sintetiza desejos de permanência
e eu pisquei os olhos e tudo foi agora em toda a parte.


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