quinta-feira, 28 de novembro de 2024

para o guecas

a yamaha do gueli azul e branca
tem a idade da kiki, provavelmente
o menor cão que já vi.
ele fala sozinho porque já estourou a mioleira
com compadres que esticavam a linha
em pares e triplas e misturas excessivas
quando a música parou e viu-se órfão
o brilho da consciência pediu um descanso
que durou até agora, já lá vão vinte anos.

a mota quando passa vem pela calada
tem poucos cilindros, está gasta
porque antes de trabalhar na fábrica
ele foi estafeta, um presságio da geração
freeter que espreitava das esquinas de mumbai.
o verdadeiro taxista do cinema
levando bocados quentes de prazer
dos fornos a lenha sujos
ou o melhor pão da cidade
na chuva, nos dias de geada
cruzando os ciprestes sem saber
o vagar da companhia na praça do brasil.
descansava na boca com um fininho
as caras doutros tempos às vezes ajudam
mas não deixam de estar longe
e foi assim que o conheci.

hoje trabalha numa fábrica de lentes
vê-se sozinho na esteira, por sorte
e quando voltou para gastar o almoço
vinha com raiva da senhora
responsável pela segurança na linha de montagem.
suspeito que sei a causa
porque os dias felizes com o irmão
a ver a neve na colina
já se foram
resta a yamaha azul e branca
os olhos vidrados na estrada
os dentes consumidos pelo fumo
e o silêncio.

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