quarta-feira, 13 de novembro de 2024

se eu fosse uma estrela do folclore

tuuu-rururu
lembras-te dos passeios pela linha do comboio
quando os meus lábios temiam os teus
e desmanchavas os teus prazeres em francês
porque tinhas vergonha do peso da língua
que desejava e escrevia pelos meandros da noite?

tuuu-rururu
e quando as nossas costas arqueavam
na esplanada dum café que tornou-me no que sou
por causa de um chá mais barato do que a droga
e o cheiro do haxixe que permeava os assentos
de estivadores e sucateiros do nosso bairro?

tuuu-rururu
tuuu-rururu
tuuu-rururu
e eu mal cria
que o destino quis
que eu soubesse o sabor da água pura.
depois tirou
e o cano ficou.

tuuu-rururu
fizemos anos nos óscares
porque éramos móveis e intocáveis
porque o que é de verdade não tem forma
nem cheiro nem horas nem datas nem nada
e acaba de repente como o frio
de novembro que chega e mete
toda a gente doente.

tuuu-rururu
e se eu fosse uma lenda do folclore
nos céus?
voltarias?
acordaríamos lado a lado outra vez
até ao último dia?

tuuu-rururu
é incrível como estás tão longe.
do mundo novo não quero nada.


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