consegues ouvir os artilheiros?
sussurram canções com um milénio
e os ramos zumbindo ao longe
sabem quem são os primeiros
as cartas que guarda, austero monge
fraterno compadre, latino e arménio.
consegues ouvir os comandantes?
as botas arrastam-se no pântano
é a hora da sorte e é a hora do sul
deslizam no gelo, batem os dentes
com os ventos do mar sem vista azul
escudeiros de um sonho malthusiano.
um coração em rufos baixos
na hora do gelo e na hora da morte
o rufia dos palácios seca o pano
no cadáver de jovens machos
cachorros do mato, o bruto do dano
que sustêm o silêncio tirano do norte.
ouves as gotas caindo nas folhas?
são lágrimas de amigos, as manchas na têmpora
restam os suspiros que enchem a ânfora
e lançam ao ar o som de passarinhos
perdidos e trancados em pias bolhas
que estouram pelos temíveis caminhos
da marcha nobre dos opressores
titulares heróis, mestres, doutores
professores sanguinários sem espinha nem medo
que desatemos com fé os nós deste enredo.
consegues ouvir os sonhadores?
dormem de cima e planam em terra
assim como os vemos, oxalá,
quando a cabeça pousa e os senhores
se extinguem do pesadelo que aqui há
e na virtude do ermo dobram a serra.
um irmão perdido do outro
mouco, de óculos, medicado,
estaremos serenos no potro
até o som do machado
perdido no crescer das vinhas
nas horas tuas e nas horas minhas
o momento das preces serem ouvidas.
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