domingo, 24 de novembro de 2024

os 20s de novembro

na mercearia à frente do meu prédio
um casal chinês muito reservado
sabe bem o que a casa gasta
afinal são eles que acolhem os pedidos
do misterioso chapeleiro da verderena.

devem saber que se trata duma época festiva
os consumos aumentam, há guloseimas e álcool
pesado, nozes e amendoins salgados
petiscos de toda a espécie, enlatados
e granulado, farinha com fermento,
favas, pão de forma, queijos diversos.

é um bom palpite
falham apenas porque festa e rotina
são partilhadas pelo mesmo público.

entendo, normalmente é tinto rasca
conservas, feijão verde
uns rebuçadinhos para a tosse
(na verdade para as bruxas
que rangem os dentes trancadas no quarto)
miojo, como se diz na minha terra,
um pacote de leite singular
fiambre extrafino para a dieta
e mozarela fatiada da mais baratucha.

tratas-te bem quando a hora cai
e as noites entram pela tarde.
assim termina novembro.

caminhas para três décadas
estou cá fazem duas
mais um pauzinho singelo
que marca vinte e uma jornas
entre o sado e o tejo.
qual champanhe, moscata
roxo como as unhas dum marceneiro
que ficou perdido em vera cruz
e que lança sinais de fumo
com a lenha que estala
com as próprias mãos.
um orgulho de homem.
 
venha daí um brinde aos velhos tempos
ferrugentos empoeirados velhos tempos
inconcebíveis e imperdoáveis velhos tempos
nada como viria a ser velhos tempos
prometido herói da nação
soberanas virtudes dum grande líder
prudente e filósofo velhos tempos
ergamos as taças, charutos fumegando
tornam a vista turva àquilo que produziu.
tchim-tchim
brindando um fulano mascarado
um chinês, a dona bagaceira
os gatos perdidos do rés-do-chão
que se deixam estar e sobem as escadas
porque sentem um amor vazio
na véspera dos teus anos.

vinte velas
são as que cabem no maço
e sopras
uma de cada vez
pela noite fora.
parabéns!

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