quarta-feira, 20 de novembro de 2024

quando deixar de ser um compadre trocará os mistérios pelas verdades, no caso o vocábulo, o teu nome (outra vez outra vez outra vez outra vez)

entupo as artérias de sódio
porque quero pô-lo a pulsar 
como se fossem os últimos segundos
da peça da qual toda a terra é um palco.
encho-o de fumaça como a neblina
que torna os retratos lindos
contra a luz da cidade que pulsa
em carros, transeuntes e as montras
das lojas que transcendem quando estão fechadas.
diabos do néon ilustram 
as vontades que palpitam
num coração sedento de vontade
de ver os olhos reluzindo
entre os baços momentos
que guardamos em fotografias.

bafo, bafo, bafo
já disse mil vezes
as paredes quadradas
deste meu claustro se enchem
e ficam amarelas como as páginas
e o fígado de um miserável.

eu quero dizer o teu nome
porque a tua imagem inspira
todos os poemas do mundo
e não posso porque sou...
não sei, amigo do teu amigo
compadre do teu amante
cúmplice de pecados que condeno?
foda-se, que em segredo eu queria
que ele morresse numa esquina
trágico e enamorado de ti
para que o seu legado fosse intocável
assim ganhava ele e ficava eu
e tudo seria feliz
para mim, claro.

já te rasurei o nome em tanto verso
sinto-me um censor fascistoide
a oprimir as volições do coração 
honesto e vitimizado de dezenas de segredos
e centenas de fantasias
com o azul que guardas nos globos
cor de metais raros
que só se revelam com complexos processos
químicos, eruditos mecanismos para replicar
aquilo que nasceu dentro da tua cara belíssima.

devo ter amado umas dez vezes
e o íntimo deste corpo vagabundo 
conheceu metade e gastou a outra
em encontros malvados da fraqueza
do tento, com a cruz ao peito
sendo pilantra pela noite fora.

hoje sonhei com a tânia
foi engraçado
era sobre os declives da carne
mansa, mas por trás das vedações
que davam forma à narrativa
havia um certo prazer onírico
em falhar no objectivo de tal forma
que ela saiu zangada e eu
acordei desperto e feliz
como raramente acontece.

feliz caralho!
finalmente!
os dias são poucos e a espera é longa
quando se vive agarrado às memórias
da paixão verdadeira.
dancei e dancei e pulei
e fui olhar o destino de frente
e voltei e fui ter com o miguel
e bebi um bagaço majestoso
e paguei mais por isso
porque quero que ele viva
tanto ou mais do que eu
que sou novo no corpo
e velho na alma.

venha daí outro camelo
cheio de sede e cheio de palha
e de moléculas que me agarram 
como o sal que jogo cá dentro
e no chão e na cama quando me deito.

escrevo iniciais e vontades malandras
sei que serias feliz, pelo menos nos dez segundos
de êxtase que teríamos em equipa 
se o outro mongo se fosse finalmente.
fogo, estou aqui a dizer tantas vilanias
mal me reconheço, deve ser isto a que chamam
de amor fátuo.

queimei as mãos no calor da tua imagem
que guardo na memória, mesmo mesmo,
foi leve e foi efémero
e eu peço todos os dias
que o amigo volte
e me dê mais uma chance.

amanhã sei que vou acordar
com outra senhora nas pálpebras
e tudo será diferente e as letras
vão ser literárias e corridas e despidas
mas hoje foste tu
acho que vai ser assim durante um bom bocado
e terei saudades de tudo que não foi
e não vai ser porque sou um cobarde
escondido na toca atrás de teclas
que batem com o ritmo dos cigarros.

correr ou morrer
um dia o destino vai responder
e o que calhar será
mas hoje é a filha russa
iberando pela internet
os teus óculos escuros
são heroicos e inocentes
como a iris duma princesa
e a alma duma poeta.

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