sexta-feira, 22 de novembro de 2024

um raio optimista passa pela calha no sótão

as cores e as formas descrevem cantos ao abrigo
que se forma antes antes de existir
noutro plano distante, remoto e indiscernível.
pintado, iluminado, obra feita ou abandonada,
gasto pelas rixas entres as gentes que entram
e saem e voltam a entrar,
carcomido pelos fungos em profunda solidão,
riscado pelas patinhas famintas de seres menores,
tudo toca nos seus claustros
revestindo ou despindo as suas camadas
com o fôlego do que há.
nunca muda no seu domínio
só o cartão de visita
quiçá a morada, o número na porta
mas tanto quanto torne o mundo a girar
contemos sempre com o grande lar.

um difícil exercício da consciência
é saber diferenciar entre essa essência
e a sua tradução no espaço térreo
por certo haverá alguma forma
de ligar, ou religar, estes universos tão distintos
mas até aqui, no território da linguagem,
a matéria se confunde
apesar de ser fácil sentir a diferença
uma criança consegue.

esta é a causa do flagelo
que importuna os sensatos
os dados à vida
os dedicados à causa
os convictos
os corajosos
os tímidos
os reprimidos
aqueles que sofrem nas sombras
dispostos a dar a face
pela pele que o próximo habita
e os justos, inseguros,
e todos.

quando terminou um sonho lindo
inspirado em verso e glória
uma intuição gentil dissipou
fruto das unhas tacanhas
agarradas a dedos gordos e possuídos
mas também pela fúria na face
com a rubra cara da mágoa
de sonhadores e poetas
fraternos companheiros na grande aventura
da nossa alargada família.
com esta tendência trágica, mais que milenar,
militarizando as crenças em discursos de poder
e em chamados à acção
a matéria triunfou sob o abrigo
e devorou o seu filho.

seguimos em frente vendados
e começamos a ver cores
fora do espectro sensível
chamam-lhe ilusões, visões 
em mentes despertas.
primo contra primo
irmão contra irmão
tal como no início
assim se afigura o corrente.

temos onde ficar
disso não tenho dúvidas
nem que seja entre as larvas
que rejuvenescem o barro
de onde partiu a palavra.
atenuar o fogo da queimada
que se alastra pelos bosques
na superfície que define tudo
é um mistério que guarda a lua
os céus 
e as estrelas que nos olham
de há milhões de anos para cá.

as cores e as formas destroem os cantos ao abrigo
formado antes de existir
aqui, agora, concreto e tangível.
virá um outro sonho lindo
e como um prisma revela 
do que é feita a luz
assim se juntarão as palavras
em termo único e vinculado
exumando fogueiras onde primatas
comiam e grunhiam e descobriam
a chama eterna 
no bico duma pomba.

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