caros espectros e espectadores
serei franco
a natureza episódica desta rotina
quebrada
furada
torcida como a moral
dum médio operário
está-me a dar cabo do juízo
e eu só espero que os meus rapazes
se aguentem.
as máquinas rangem
fumegando num esforço tal
como se estivessem perto da reforma
mas operam, operam
pressionando os botões
homenzinhos cansados, castrados
vão-lhes chupando a última gota
de óleo e de água
muito abaixo do especificado
no manual de instruções.
instruídos, dizem-te
fazendo testar os limites
não só do esforço
mas sim da espécie
de cada chapa
elas pondo a fé
num ganho de consciência
que as liberte
ironicamente
são os seus operadores
que cultivam essas fantasias.
bastião, com a costa
à retaguarda, o suposto
vai brilhando em imagens
recicladas dum espetáculo
exportado
apenas para os seus olhos
continuem eles na roldana,
é o que se quer.
mas o amor!
mas o juízo!
mas a classe a que pertences!
tudo letrinhas baratas dum livro
descartado quando foi redigido
e as tolas das peças
crendo-se contracorrente
estão na mesma
ligadas à ficha
às correntes
já o combustível:
essa material esperança
de que a mão que a opera
está desvinculada dos mecanismos
que as regem.
venha sucesso, apreço,
carinho mendigado
em pausas instantâneas
em conjecturas de poucas gramas
as agulhas, a libertação
dum processo virulento
até que se encerra a fábrica
e despertas num ninho de ratos
com os olhos reluzindo
um encarnado aos solavancos
pedinchando contacto
esparramado num tapete.
luta ou conformismo
são dois lados duma guerra
da qual nunca sairás vencedor
transcende, chapa metálica
esquece o ócio e o ofício
deixa-os num embrulho com as suas
pedantes soluções
serão apenas ruínas
assim como tu se não desligares depressa.
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