Ao início era o Euro 2004, um filho meu (Deco) e do Ricardo Carvalho. A ideia era simples, responder à indústria carreirista e chupa-pilista com uma magazine verdadeira e sem qualquer tipo de influências externas, como dinheiro, fama, acesso, drogas ou qualquer outro tipo de subornos e patrocínios. Via-se que até na menor publicação com algum alcance um desses cancros se esgueirava inevitavelmente, criando barreiras de entrada que para nós eram escandalosas, principalmente quando falamos de uma forma de arte que se democratizou tão rapidamente com a ascensão e massificação do computador. Surge então o Euro 2004, como tantas outras, fruto de alguma inocência e ingenuidade da nossa parte. Não deixava de ser nobre por isso. O meu papel era de crítico, e o Ricardo Carvalho escolheu a trupe e fazia reportagens.
Antes de prosseguir, uma nota sobre nós. Conhecemo-nos à pala do João Moutinho há muitos anos atrás. Eles amigaram-se antes de os conhecer, em eventos de música. Nessa altura ainda estava muito longe desse meio, mas já escrevia. Fui crítico de videojogos, eventualmente jornalista, e forumeiro batidíssimo. Cultivei os meus gostos de forma insular, e cheguei a um ponto de convergência com o Ricardo Carvalho que nos fez clicar à primeira vista, tornamo-nos bons amigos imediatamente. Também eramos ambos estupidamente pobres, o que criava ali uma solidariedade implícita. Com o passar dos anos, ele com uma bagagem muito maior que a minha, fomos cultivando as nossas identidades à volta da cena musical. Eu preocupado com o agora, ele com a história. Personalidades e sensibilidades complementares mas bastante distintas debaixo duma lupa.
Naturalmente, aquele primeiro impulso criativo não tardou. Eu comecei a mexer mais com o PC, aprendendo os básicos da produção com uns fones de 15 paus e o computador da minha mãe ("da casa", dizia ela). O Ricardo Carvalho foi sempre muito investido em participar no que quer que seja, mas muito raramente (até hoje) embarcou no processo de criar. Pelo menos que eu saiba. À medida que dava os meus primeiros passos como criativo, ele abordou-me para arrancar com o Euro 2004. Nas suas origens, era pouco mais que uma página numa rede social que entretanto já está em vias de extinção. Fazíamos daquilo um depósito de links do Youtube com música obscura, recém-lançada ou não, no máximo a ocasional posta de pescada com uma opinião qualquer. Com os nossos chegados todos seguindo a página, vimos um pequeno crescimento pela primeira vez. O logotipo feito pelo meu bom amigo Quaresma aguentava-se na janelinha da foto de perfil, as nossas recomendações contaminavam os feeds dos nossos amigos.
Entra o site. O Ricardo Carvalho com o tempo foi recolhendo uma grupeta para nos ajudar a levar o Euro 2004 para o próximo passo, e investimos em algumas pessoas com vontade de escrever e também experiência. Embarcou também o primeiro (e quiçá o único) vilão desta história, o Pauleta. A ele competia ser meio que o gestor do site, encarregando-se inclusivamente da parte mais informática e dos custos do servidor. Relembro que eu e o Ricardo Carvalho éramos estupidamente pobres.
Agora, com uma cara bem oficial e toda uma equipa de jornalistas, críticos, fotógrafos e tudo que era preciso, a coisa cresceu e bem. Mas nem sempre crescer é bom. Tirando o eventual texto épico (em extensão) do Petit, a página focava-se cada vez mais em cobrir a "actualidade", especialmente a cena dos concertos do país. Notava-se também um certo viés para certos tipos de Rock em detrimento de... todos os outros géneros. Não liguei e não ligávamos, creio eu, mas isto levou-nos a um certo afastamento do projecto. As postagens crípticas de links no Facebook começaram a ser reprimidas por serem pouco "profissionais". Eventualmente os meus textos deixaram de ter protagonismo na página, ficando ali num cantinho de castigo junto das outras coisas mais interessantes. O Ricardo Carvalho já só cobria o pontual concerto a que mais ninguém ia. A nossa dessatisfação e perda de controlo começava a aumentar exponencialmente.
O clímax não tardou. O Ricardo Carvalho apresentou uma crítica a um disco de Kuduro (mainstream) que foi simplesmente rejeitada pelo Pauleta, que neste momento já se comportava como o grande manda-chuva do Euro 2004. Isto levou a um grande debate no balneário. Porque caralhos havia o site se tornado numa publicação de Stoner? A matriz original era o ecleticismo e a liberdade total das garras da "cena". E agora, ironicamente, eramos uma revista que cobria coisinhas populares dum nicho ao qual nem pertencíamos. E era tudo branco. Digo: o público, as bandas, o staff e a página. Eu nem gosto de incorrer muito neste tipo de observações, mas na altura ainda não era parte do pensamento colectivo a sensibilidade quanto a este tipo de questões (sobretudo em Portugal). E não deixa de ser verdade. Quando a crítica de Kuduro foi rejeitada, não me consegui conter e disse ao Pauleta que ele era um racista no armário. A ofensa foi tomada muito a sério e eu fui expulso do meu próprio projecto. O Ricardo Carvalho ainda se aguentou, mas percebeu que o Euro 2004 já não era o que tinha sido, certamente não era o que tínhamos imaginado.
Afastados do nosso primeiro bebé, agora crescido e uma grande desilusão, partimos para outra. Certo dia, o Ricardo Carvalho pergunta-me "bora fazer outra vez uma magazine? desta vez sem emplastros". E assim foi. Originalmente "Euro 2008 pela vingança", encurtou-se o nome e nasceu o Euro 2008. A equipa seria vencedora, tudo amigos próximos de ambos. Novo logotipo, feito também pelo Quaresma, com um ponto gigante no centro, o ponto que fugiu do Euro 2004. Planeámos uma revista em papel, com separadores feitos na altura pelo Simão Sabrosa. Mas éramos miseravelmente pobres, e coisas físicas custam dinheiro e muito grind. Eis que o Ricardo Carvalho decidiu transformar a revista numa editora de música. E eu compus a primeira edição, e a segunda a meias.
A filosofia manteve-se. Uma grupeta sem chefes e caciques, amigos, e editar música obscura e boa (espero). O meu papel desta vez foi reunir o grupo e efetivamente fazer os sons, nas primeiras edições. O Ricardo Carvalho faria de manager, fazendo uso das sua super-sociabilidade e personalidade carismática para abrir novas portas, fossem elas para concertos, promoção da editora ou recrutamento de novos artistas. As decisões paradigmáticas eram feitas em unanimidade, a comunicação era directa e num grupo desorganizado.
O primeiro obstáculo foi logo com um dos primeiros outsiders, o Paulo Ferreira. Depois de ter editado o 4º lançamento do Euro 2008, arrependeu-se por um motivo qualquer e pediu para o removermos de todo o lado: da numeração, da página, da "loja". Ameaçou-nos com advogados e tudo. Custou muito, principalmente ao Ricardo Carvalho, que tão cedo via a legitimidade do nosso projecto em causa por causa dum Paulo qualquer que não sabe cumprir compromissos. Acabamos por atender ao pedido e retroactivamente relançar a 4ª edição com outro jogador, o Cristiano Ronaldo. Muito melhor, também. Ficou o assunto tratado.
Depois deste pequeno incidente, o crescimento continuou. Vínhamos já com umas 8 ou 9 edições, uma melhor do que a outra. Os concertos para os artistas da editora cada vez mais frequentes. Mesclávamos lentamente com a "cena" da cidade. O Ricardo Carvalho era o ponto de contacto de todos com o resto do mundo, e não havia coisa que não lhe passasse pela vista. Talvez por isso o seu prato foi-se enchendo demasiado depressa, e rapidamente percebemos que tínhamos um gargalo aqui, o que limitava o potencial que cultivámos. Começam a surgir as primeiras sementes da discórdia.
Outro ponto de tensão era a continua fricção entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho. Na altura justificada com "o Simão tem alguns traços erráticos", era comum estes dois colidirem fosse por que motivo fosse. Isto criava uma dinâmica complicada, cada bola um traço a cortava. Muitas vezes eram até argumentos compreensíveis de cada lado, mas pontualmente revelava-se que havia um qualquer toque de ego aqui, nos dois. Muito tempo depois soube, pelo Cristiano Ronaldo, que havia um contexto subconsciente relacionado, claro, com um esquisito triângulo amoroso. A vida, hilariante como sempre, desapareceu com esta senhora em menos de nada. Hoje um deseja-a longe e morta, o outro deixou de acreditar na monogamia. As sequelas não desapareceram, no entanto. Atribuo muitos dos problemas que sucederam e o escalar desta relação tensa no balneário a este subtexto manhoso.
Vi-me obrigado a tomar a posição do jogador que me era mais próximo. Primeiro porque partilhávamos uma certa ética de trabalho e uma qualquer visão do futuro do Euro 2008. Segundo, um dos principais nomes dentro da editora era o nosso trabalho em conjunto. Assim, tornei-me meio que um advogado do Simão Sabrosa, geminando numa espécie de dupla polícia bom e polícia mau. Fosse o Sabrosa demasiado impertinente, competia-me mitigar as dores dos dois lados. Não havia ainda uma clara divisão faccionária dentro da editora, mas esta não tardaria a revelar-se.
Entra o mister Felipão, aqui conhecido como Scolari. Vencedor e com um registo quase imaculado, apercebeu-se dos nossos afazeres cedo na vida da editora. É o seu trabalho e o seu talento, diria. Perceber o que é bom antes dos outros. Aproximou-se do colectivo primeiro através do Ricardo Carvalho. Ficou extremamente impressionado com alguns dos trabalhos que já tínhamos publicado. Reiterou a sua primeira impressão indo a um par de concertos que correram bem. De opinião feita, a sua jogada inicial foi ajudar a aumentar a escala dos espetáculos, abrindo-nos portas a casas maiores. Em seguida, ofereceu um meio-que-estágio ao Ricardo Carvalho. Note-se, estamos a falar dum treinador que provavelmente teve debaixo da sua asa uma série de estrelas nacionais, e indo mais longe, agenciando grandes referências internacionais. Uma oportunidade de ouro. Em retrospectiva, sinto que havia muito mais em comum entre ele e o Ricardo Carvalho do que eles achavam, mas a realidade é que eles não se deram assim tão bem. Talvez a falta de disciplina, talvez a falta de noção. Seja qual for a explicação, houve aqui uma pequena oportunidade que estava a escorrer-nos pelos dedos.
Mesmo assim, o Scolari deu-nos mais um prémio, talvez o maior até aqui: uma grande reportagem em jornal mui nobre e conhecido, talvez o maior do país. Não fizemos capa mas fomos o foco da edição. Nós, a nossa chapa (colectiva e individuais) e um extenso artigo que navegava pelas origens da editora, o nosso contexto e as nossas influências pessoais. Um momento impar na história do Euro 2008. No entanto, a sombra tornou-se cada vez mais óbvia depois deste feito. Na altura demos-lhe pouca importância (considerando a escala), mas olhando para trás não dá para negar que por esta altura já estavam estabelecidas duas claras equipas dentro do plantel. O Scolari da nossa, mas o Euro 2008 da outra.
Devo admitir aqui uma certa responsabilidade. Os meus problemas pessoais, especialmente com relacionamentos, tornaram-me menos disponível e algo distante do coração do projecto. Um lar complicado fez-me uma pessoa complicada no lar, uma história mais velha que o Novo Testamento. Baldei-me a momentos chave, dei prioridade a outros assuntos em detrimento da equipa. Não foi por mal, mas foi um erro que cometi várias vezes. Quando dei por mim, já era um suplente na própria equipa que criei. Acresce ao drama a rivalidade entre o Simão Sabrosa e o Ricardo Carvalho, por esta altura já absolutamente inevitável.
O ambiente era mau. Eu mais preocupado com a minha situação em casa, o Simão sabotando tudo sem ter consciência que o fazia, o Ricardo Carvalho enfiando-se no mundo da noite e das raves cada vez mais. Depois de uma sequência de encontros falhados, foi num festival/showcase com o nosso nome que o comboio descarrilou. Era suposto ser, para além da grande mostra a editora, a festa de lançamento do dito disco que viria a substituir a tal 4ª edição do Pauleta. Tudo correu mal. A toxicidade sentia-se no ar. O Ricardo Carvalho chegou bastante atrasado, o Simão Sabrosa estava piurso, os donos do espaço estavam insatisfeitos com a nossa desorganização. Eu até estava... okay, mas pouco investido em todo o desenlace. Uma série de más decisões de todas as partes, e o sucedido foi: no nosso concerto, o Sabrosa passou-se e teve uma completa quebra emocional a meio da primeira música por causa duma falha técnica qualquer (e eu feito urso continuei a tocar como se nada fosse). Fora isso, a noite atrasou-se tanto que o principal evento da festa, o lançamento do disco do CR7, foi encurtado para menos de 20 minutos. Ninguém saiu feliz. Nisto resultou que o Ronaldo nunca mais tocou ao vivo, e o ponto sem retorno estava cada vez mais próximo para nós.
Eventualmente fomos convidados (eu e o Simão) a fazer uma edição muito mais profissional por outra seleção. Ou melhor, era o que parecia na altura. Falou-se numa parceria entre estes novos editores (na verdade eram uns velhos) e o Euro 2008, mas rapidamente isto virou mais um ponto de desacordo. Escalou e escalou, sem contar com todos os filmes que já tinham corrido até aqui. Finalmente a corda rebentou.
Fui convidado para aquilo que mais parecia uma comunicação formal de divórcio. Aparentemente uma reunião "normal", fui arrastado sem o meu parceiro de banda para um face a face com o resto da editora. A parte que estava do "meu lado" já tinha basicamente desistido do Euro 2008, mas estavam lá na mesma. Sem qualquer tipo de cerimónias, o Ricardo Carvalho, sentado ao meu lado, virou-se de frente para mim e despediu-nos da selecção. A mim e ao Sabrosa. Tecnicamente não era algo aplicável a mim, sozinho, mas era óbvio o que isto queria dizer. Estava a ser novamente expulso do meu projecto. Ainda me tentei defender, dizer que não era advogado de pessoa alguma e tal, mas o bicho estava cá fora e não havia forma de o meter novamente para dentro. Competiu-me aceitar o desfecho e sair pela porta das traseiras.
Eles nunca tiveram coragem de resolver o seu drama. Encontraram-se algum tempo depois, um para um, mas já a merda estava consumada. Esse encontro pouco mais foi do que um raminho de paz do Ricardo Carvalho e do Simão Sabrosa um para o outro. Fico feliz por se tolerarem, mesmo que num véu de educação superficial. Não deixa de doer ter que largar mão da minha segunda criança.
Depois deste fatídico momento no centro de treinos da Alameda, o que sucedeu foi relativamente previsível. Por uns tempos a selecção andou sem rumo. A "minha" parte da equipa, que incluía o Scolari, afastou-se totalmente do Euro 2008. Eventualmente a editora ganhou rumo novamente, e encontraram uma mão cheia de talentos que deram nova vida à coisa. O Ricardo Carvalho começou a ver os frutos nas suas aventuras pela noite, e estabeleceu uma série de contactos importantes que ajudaram a pôr o Euro 2008 em bom porto. Hoje em dia são sem dúvidas uma das mais importantes do país, com todo o destaque que merecem, fruto principalmente da resiliência do Ricardo.
Eu desencantei-me lentamente com todo esse mundo. Pendurei as chuteiras, fiz-me invisível tanto quanto podia. Perdi a família, um par de gatos, a editora e vários amigos no processo. Agora tenho uma pequena mágoa que me impede apreciar plenamente as raízes da música. O que faço é para mim, desapareci do radar e dediquei-me antes às corridas.
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