terça-feira, 24 de setembro de 2024

fora da mesa

despimo-nos num sonho cedo e curto no quitinete do meu pai
uma janela, o cinzentão, mesa redonda sem toalhas nem rodeios
descansavas no leito que algures na memória foi o nosso
branco e sujo que esconde nas mantas a adolescência, os ais
de estendais e bandeirinhas, sexo nação e umas galinhas
brisas na fresta entre o pecado e a tentação, agora guardando-me o couro.

uma sala-cozinha apetrechada com saudade e vontade
misturamos a sede com a fome, explosivos corroendo
a resiliência duma porta bem fechada, trancada noutra dimensão
um senão, sois a minha animação e talvez por causa disso
faço furos no resguardo e penduro tantas faces
quanto as que consigo convidar.
o convívio, uma conversa amena e banal
sem te levantares trago-te a marmita meio morna
mas duvidando dessa escolha ofereci-te uma fatia
da minha, que rejeitaste porque preferes a tua.

em menos duma hora acordo só e tressuado
cansado às cinco da matina, a cama feita sem coberta
esta casa nem existe
casados de auguro e esferovite.  

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