segunda-feira, 23 de setembro de 2024

cavalo sem trilho

sensato em observar que no deserto 
não se nomeia nem se registam histórias
é preciso mais que um
e as vozes da noite suspiram um caos inconsciente
que fica ancorado no desespero da solidão.

viagem longa, compadre velho
em tempos como numa casa humilde
cujas paredes rugosas do tempo e da chuva
guardam segredos felizes e histórias da juventude.
sem memórias é apenas uma ruína.

as pegadas do rancor trilham o caminho daí
até ao sol quente e ao fim dos tempos
(agora)
passadas passadas do passado
ateadas ao fogo pelas estrelas e pela loucura.

cada grão de areia uma conquista
impar nas origens parcas do esqueleto
a miséria, os insetos, pequenas formas de vida
sem maldade, só confusas, mas em paz
reino amplo e jovem.

como as cobras, desmancho a pele que habito
renascimento ou escaldão, a vista encarnada
dos raios que o claro devolve de baixo.
como as cobras, que também sou de carne
e osso, não devo temer o veneno na língua.

quatro caminhos a céu aberto rodando como uma mistura bem feita:
a sul, o passado que guardo em lágrimas
a norte, de onde vinha e de onde chego
a oeste, as ruínas e os seus fantasmas
a este, a imensidão da estrada, o caminho infinito. 

rodando, procuro subir 
sem nome nem coisas
nem memórias nem conquistas
só a paz que fiz bem
ou o melhor possível.



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