domingo, 12 de maio de 2024

comprar tabaco

lancei-me serra abaixo.
rodeiam-me pessoas agora que cheguei,
dançarinos duma manhã patrocinada pelos êxitos de antigamente.
primos plumados saltitam do outro lado 
que eu sei pelo laranja vistoso que nuns é o bico
e em mim dali sai. 
as margens nunca se tocam.
segui caminho, sinuoso mas depois da festa,
os varões no lago, que sabem de amor,
e as equipas à escuta, não da música
mas dos passos.
talvez cacem, decerto aguardam. 

escondido com vista negra fiz-me parte da coreografia
e segui o trilho direitinho, para frustração dos nativos.
pressionei adiante 
e reparei que tudo vivia
e enquanto olhava lembrei-me 
do tapete a penantes que fizeram duma pomba 
perto da minha casa.
podre de velho.
grotesco, visceral,
um nojo de se ver.
a luz voltou-me aos olhos nas asas dum gavião
voando alto, minúsculo,
um sticker colado numa nuvem.

havia um clube de golfe e um bar
e pouco depois mais uma grupeta
de camisetas brancas e largas e suadas
que comicamente contornavam um pedregulho 
como se fosse uma grande rotunda.

fixei-me no som das águas.
começou a chuviscar, 
tirei os óculos.
exposto mas com cores mais claras e bonitas,
noto o cuidado que foi posto nesta estrada,
como eram simples as pontes,
como as raízes não erguiam o chão velho.
escurece, chove mais.

espreitadelas cansadas e um domingo cedo
conduzem-me o foco para a gravilha batida,
mas matutino de espírito 
liguei-me aos coaxos afinados
que enganavam os meus ouvidos leigos.
nunca adivinharia,
só sabia porque disseram.
parou de pingar e voltei a pôr os óculos.

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