terça-feira, 13 de agosto de 2024

o pombo

vi as 3 mainás, outra vez.
uma mirando a paisagem de cima
pequeno posto de vigia
invisível aos nossos olhos
ignorantes
que confundem ex-amigos
com outros mais raros, os ariscos
que não se deixaram enganar.

os outros dois atacavam com cautela
o pequeno jardim que circundava
o cafézinho onde eu estava. 
iam elas saltitando ágeis, vocal gentil, 
notas agudas pela brisa
e o chefinho do alto
a passar as coordenadas.

emborquei metade do meu copo
e saquei-lhes uma fotografia
mas na típica brutalidade primata
que me ata a este corpo
afugentei sem surpresas o trio
e na imagem só verde, lixo e sujo.

tomei o resto da bebida desapontado.

no fim, rodeado só de conterrâneos, 
pronto e prestes a voltar para a redoma de fumo,
surge o pombo, o ex-amigo,
e pousa junto à minha mesa, quase como se soubesse
que em mim guardo toda a culpa da nossa espécie.
olhou-me com o meu olho, o único,
como se soubesse.
reparei que as mainás fitavam do topo do prédio ao lado
atentas, talvez curiosas,
talvez perdoando com a Verdade entre as penas,
como se soubessem.
o pombo, junto às minhas pernas,
coxeando levemente
enquanto ciscava as brechas no granito
percebeu que o contemplava
e olhou-me novamente nos olhos
com uma ternura tão injusta
que me partiu o coração
e eu comecei a chorar 
atrás dos óculos escuros.

depois eu vim pra casa
meio entorpecido
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.
e chorei enquanto escrevia, outra vez.


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