quinta-feira, 15 de agosto de 2024

o teu nome aqui, com a falta de coragem que define o porquê de enterrar uma memória

optaste por guardar os ossos do teu ofício
na pele que te cobre os membros finos
dedicando o corpo à causa 
que encontramos juntos em casa
alheia, e eu reprovei com ar tacanho,
hostil, agressivo e possessivo.
uma fratura sobreposta ao tecido já sensível
da tua integre consciência na altura adolescente.
crescendo, aprendendo o cinismo escondido
debaixo das articuladas acções exageradas
e das palavras preparadas para teu prazer,
tempos de mudança, um mau artesão
e um bom exemplo de como a sombra se apresenta
nas cortinas que guardavam os teus olhos absinto.

recuando para tempos mais simples
em que o lar era um quadradinho trancado
no domínio do inimigo, passivo
doutro lado a vista tranquila do descanso eterno 
com um grande pinheiro peneirando a luz do sol
lançando os seus raios afiados
que reluziam pelo teu corpo cru e puro 
como borboletas douradas encantadas.
silhueta grega, prudente atenas
ártemis enquadrada na janela tombada,
de cigarro no canto da boca,
guardei-te num quarto em benfica 
e rezei que bem ficasses
pelo menos muitos anos depois.

não devem ter passado mais do que seis meses
chegamos cansados e frustrados, regados
de álcool barato e o que quer que a rua atirasse
contra as nossas carcaças degradadas
a sala negra aguardando-me fiel servente
e ateei fogo à tua candura, um explorador dotado
de tecnologias incompreensíveis para uma nativa
do amor e da verdade, pessoa decente
contra uma gralha que ralha e malha com os dentes
pingando sangue que sugou do espírito 
com matreirice cruel, moldada em forja de espada
usada em ataques contra a crença e a mente
rito de passagem que carrego de trás
e impregno aos alheios com talento
tão tão mal utilizado.
conseguiste estancar uma parte com a decepção
que se ouvia saindo do teu suspiro,
começaste a chorar, as lágrimas correndo faziam
manchas negras de maquilhagem, como estradas numa
noite perigosa, cílio ligado ao zigoma
pela aflição que provoquei.
mesmo em calma, minutos depois
a evidência do pecado tatuada no teu rosto
e tu encostada à parede, das cenas mais belas que já vi.
tirei uma fotografia e guardei-a até hoje,
serve de memória antes que se varra 
com o absinto cor dos teus olhos.

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