segunda-feira, 7 de outubro de 2024

grato catarro

escarrei de dentro da vontade
e saiu um musgo negro intenso
que me cobria a laringe e a traqueia
e tudo que era parte dos meus
interiores recobros
que guardam fumaça grossa
e o vocábulo proibido do espírito.

cuspi para o abismo
escutei agarrado com medo aos cantos
não ouvi nem splash nem pim nem sinal do fim.

voltei costas, inspirei fundo
o ar da liberdade destapou-me a vista
as cores voltaram, os músculos descontraíram
e começaram a doer como nunca,
cheira a podre e a corpo sem vida. 
à pressa, três dos mercantes do passado,
enredados nas teias da cave,
fizeram suplícios aos demónios
e fizeram suplícios ao que foi
das eras malvadas, dos tempos sem ar,
mas não três vezes conseguem bater
à porta, e eu persisti e fiquei estanque no meu passo.

russos em letras e de pecado pesado na alma
a culpa que lhes brota pesando como em mais alguém,
é a prova da sua virtude.
todos erram, não há vontade sem que a tente
uma sombra agarrada às paredes do conforto.
expirei, uma poeira ligeira dançou
com os ares da vida. são os santos
a celebrar uma conquista honesta.
somos o sal da terra
mas do palato humano
que saboreia os tempos a custo
o sal é o segredo que apura a vista
que rega o peixe a apraz na carne
e assim sendo, nós
o sal da terra
mas vós
o sal da vida.
obrigado.

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