quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

diário do barreiro II / confissões III

fui mijar com o cigarro no canto da boca
porque tinha uma reunião em cinco minutos
e eu demoro três ou quatro para fumar
bati as cinzas no autoclismo
lavei as mãos e sequei-as na toalha de banho
inclinando-me para não deixar uma queimadela
como as que já tenho na cadeira do escritório.

hoje amanheci antes do sol feliz
por algum motivo isso me dá uma pesada
vontade de chorar. 
eu não tenho saudades de nada
nem ambição que pareça inalcançável
acordei com a skinny love na cabeça
como se tivesse 18 anos outra vez
e isso não é nostalgia
só mesmo uma paz enorme.

meti-me na passadeira por uns minutos
acho que ainda fiz kilometro e meio em corrida
umas flexões de joelhos, que embaraçoso,
agachamentos e abdominais que pensava que tinha desistido
mas afinal às vezes tens uma ajuda
quando sonhas com algo que não te lembras.
bebi um copo de leite quente, a vitamina
e uns três cafés em uma hora
que vasta coleção de canecas
ficaram quatro na secretária, uma suja de roxo
aproveitei e levei para a cozinha 
sabe bem ver a mesa limpa.

já se ergueu um céu limpo sem nuvens
os pombos passaram pela minha janela
bom-dia disse eu em português
e fumei outro cigarro.

o trabalho é bom, o que importa se é inútil
as moedinhas também, o que importa se são inúteis
e a vida neste buraco também
e os filmes que estas paredes já ouviram também.

as pessoas na paragem não sabem que estou aqui
a vê-las enquanto choramingo por estar bem.

nem todas as confissões são textos
e nem todas as confissões são decadentes
nem infelizes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário