terça-feira, 3 de junho de 2025

elegia pelo whatsapp

olá
desculpa a surpresa
o teu avô
morreu
como se soubesse
aguardar por um adeus
que trouxeste sem aviso,
como este.
desculpa.
desculpa?

e o silêncio pairou por uns momentos
enquanto o movimento da cidade
persistia sem remorsos.

um homem bom e explorado
tratado de baixo por quem sabia
a sua honesta forma de jogar
riqueza e querença pelo abismo
tudo tentos com veneno enleado
longe do caminho de Cristo.

foi como um qualquer
pombo da cidade
em forma tão grande
esbelta vivência e humilde
tal o quer
quem não o guarda, 
só espera.

o caminho do céu é fácil
para seu getur.

foi preciso um adeus
que quiçá me compete
ou coube, à justa
na sanita sem assento
na água dum pote de barro
que ficou num cantinho
guardado por década e meia.
por desgosto e espera
com fraquezas no braço
lembranças fraternas
duma casta a que pertenço.

seu getur, bom homem
jogou ao largo desbocado
as lembranças semi-lambidas
por cães que ladravam quando passava
uma motriz vontade, pacífica
e mineira, senhora da obra
sem pertença que a justifique.

pingou com um toque
a vibração como todas
que te dizem a morte
o adeus
pós-atlântico
enquanto quebrava a voz do meu pai
num audio cruel
sendo mais forte do que pode.

é a verdade do passo que traz
a virulenta vontade, violenta,
partir a boca aos transeuntes
olhos carregados
do diabo dourado
negado em vida
pelo homem.

fica um fúnebre, supetão
planta apodrecendo contra
a vontade cantada entre tantas
orações de joelhos.
o poder e o ser, cobiçando
alguma forma de sentir o
sol torto dos filhos do sul.

bule, bule bule!
foi o papel que compete
aos teus genes
assim como se nota
quando a voz trancada duma
mensagem diz apenas
beleza,
é triste
mas beleza.

batem os pés
o vagar dissolvido
na fria resposta
dum neto longe.

e o silêncio pairou por uns momentos
enquanto o movimento da cidade
persistia sem remorsos
rodei eu mais as crianças
que jogavam à bola
tomei juízo
tranquei a cara
como o pai
na hora da cruz.

Ele recebe de mãos abertas
alguém bendito
em canção e solitude
os restos pútridos
do outro lado do
atlântico
penam a liberta
alma que a casa torna.

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