nunca conheci quem não repudiasse a porrada
ou se não condena, não deu.
todos os meus conhecidos são feitos de pura virtude e tolerância.
não consigo fugir da zanga, do patético sentimento de revolta
não contra as injustiças, mas contra mim em particular
por uma pinga de amor-próprio que já por si vem mastigado
por um queixo que se mostra sem que se preze, só se ergue
em puro instinto de preservação
este meu, que se purga e se sujeita à baixeza da sua casta
sem juízos magnânimos, maquinações sinistras do sistema -
nada disso, só a cara peluda inconsciente e insubmissa
que cala a matraca quando devia falar
e fala quando devia ficar em silêncio.
eu, que não condeno os tiranos
nem tomo a parte de quem nos cuida,
nem vergo as costas às boas causas,
ridiculamente contra tudo, calando e consentindo
não por concordar com nada mas por,
discordando de tudo,
não querer fazer nada.
e a grande rede que me circula e me acolhe
é feita só de gentes boas, certas, articuladas,
de pomba branca incauta nos ombros e enciclopédicos saberes na alma
todos eles senhores - todos eles príncipes.
quem me dera ver de alguém a calma gasta
que me contasse um rancor, um malquerer
só umzinho que fosse!
não, só ações cívicas e a mais prudente
forma de levar a vida a tento,
todos só me dão os melhores conselhos.
haverá alguém neste mundinho transiente
que se tenha passado e foi à cabeçada
ou não indo, quis muito?
mestres, doutores, meus príncipes
raios mais a grande consciência!
há quem tema a justa ira dos céus neste mundo?
ou sou só eu que sei que me vão ao pêlo
pela vil forma como me arrasto nesta terra?
pode o amor ter sido acordado
e escapado pelas linhas do tratado
pois amaram sim! dizem os termos do contrato
e traições e mazelas da rotina não entram
nessa quadrada legalidade do que é ser par
pois assim ninguém se zanga, não há gritaria e roupa suja
nem que se traia ou se tome por parvo!
e eu, que nem traído nem feito tolo
virei a casa ao contrário, e chorei de ridículo
e escondi essas lágrimas em mesquinho orgulho
sem contrato nem nada, joguei as palavras com impropérios
passando vergonha na rua, nas escadas, em toda a parte.
como posso existir à frente dos meus modernos superiores?
eu que tenho sido vil, literalmente vil
vil no sentido fodido e embaraçoso da vileza?
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