quinta-feira, 10 de setembro de 2026

notas da superfície

hoje morri de sede
agora conto do meu inferno.

uma baita piscina no algarve
com tudo pago: petiscos na beirada
formosas donzelas, tímidas e solteiras
chinelas que bem me assentam
e condizem com o meu chapéu azul
de menino da cidade
não há bicharada, a água não cheira
nem a cloro nem a mijo
há fulanos elegantes com penteados jovens
a passar ritmos baleáricos nas suas mesas de mistura
emprestadas em plena amizade e confiança
e o sol brilha por cima da piscina
e guarda uma sombra agradável para aqueles
que só querem descansar um pouco.
os gelados são baratos e há beirão fresco
da garrafa para os clientes mais valentes
sem limão, só uma grossa pedra de gelo
que derrete devagar
devagar
velocidade perfeita para não diluir a bebida.
há um bazar de quinquilharias e roupas em segunda mão
caso surja uma muda imprevisível
e os sorrisos são genuínos e fazes parte
deste harmonioso circuito de humanos
merecidamente repousando.

só que não posso ir à piscina, porque tenho
vergonha
nem falar com as donzelas, porque tenho
vergonha
nem ajavardar petiscos e gelados, porque tenho
vergonha
bebidas claro, porque não tenho 
vergonha
sou bom cliente
mas não há mais lugar à sombra
nem gelo que aguente este calor
e a música não se ouve, porque tenho
os meus fones
assim não sendo um harmonioso humano 
que mereça descansar.
as chinelas não me pertencem
as lojas não se abrem para fulanos com esta fronha
pois a minha face não aprendeu a desenhar um sorriso
e não podes beber água.

há um cantinho ao sol
cheio de moscas
daqui dá pra ver e cheirar
o sal de quem vem da praia
de lavar os caracóis dourados em paz.
pode-se fumar
há sempre cigarros no canto:
eis o meu pedacinho de céu.

só não posso mesmo beber água
mas se lamber as lentes dos óculos
de detective privativo
ainda roubo umas gotas salgadas
do suor e da choradeira.

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