quinta-feira, 29 de agosto de 2024

filhos do corpo, pais da redoma

odiei-te à primeira e à segunda
nos teus ofícios exímios
nessa beleza boémia, a falsidade rápida
a justificação da minha suspeita.
em pouco confirmou-se quase tudo
que era vão o esforço, entregue às 
predações da morfologia citadina
arranhando os céus com uma promessa
de que tudo era possível 
se a combinação fosse certa
e a visão alta.

engolia os teus sermões entre tragos e whiskey
e os grunhidos peristálticos, quase gritos
esperando que pousasse livro e cigarro
o desagrado de um fantasma
que assombra a máquina, binária e reptil,
adversário que não treme e só hesita
perante o concreto, nunca sobre o tormento.

é assim, pronto
ensinas-me de prosa
e tantas forma de ver tecidos
e os seus padrões e como assentam 
em corpos bonitos
e eu vou anotando com desleixo
e vou guardando mais razão
e vou tentando o fantasma do sótão
que se ergue em segredo frustrado.

tolerando-te com rancor frio e analítico
predicado num geist com pouco zeit
fomos passeando pelas tuas memórias
conhecendo a família, o pai ausente
as espinhas duma rosa caprichosa.
ena, pensei eu, a meio do caminho
e quanto mais caminhávamos,
eu, tu, o fantasma, a máquina que o ata,
o pássaro escondido, 
alienados uns dos outros com uma destreza
típica de poetas e escritores,
mais percebia que andávamos em círculos
talvez pensando, talvez fugindo
e caiu-me a ficha com estrondo
um espelho no chão
plim

era uma redoma
que nos trancava cá dentro
ou nos vedava do resto
e viveste no corpo
como poucos
e como eu
e eu nunca pensei
que neste ódio que guardei
iria encontrar o meu reflexo.

és atriz e profeta
faço túneis no subsolo
todos filhos do mesmo barro
eu, tu, o fantasma, a máquina que o ata
e o pássaro escondido.

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