terça-feira, 27 de agosto de 2024

frágil

enfermo, entenda-se
do juízo ou do querer
pois quando abres a cristaleira
copos em vidro fino brilham
como riquezas principescas
e quando a sede ataca
jogas à boca essa caneca
corrida dos anos e gasta
da tinta que lhe conferia mistério e carisma.

enfermo disparaste a caneca
contra o chão com violência
tal que sentimos o abalo
a milhas e milhas
e as pecinhas de cerâmica
cortaram as nuvens
e choveu em agosto.
quando vi o nublado 
atípico da época
já lhe sentia o cheiro a húmido
e os céus se resolveram apenas
a confirmar esta intuição.

agora escorre nas calhas
e desce pelas ruas, rumo ao rio
e desce por suas margens, rumo ao mar
e desce pelo mar, rumo à negritude do abismo.

ninguém apanhou o estilhaço
e quando abriste a copeira 
para tirar o prometido
tudo virou areia, que misturado com a chuva
fez do cristal um barro informe
sujando-te a ponta dos dedos
e escorrendo lentamente
para cima dos cacos da velha caneca.

pendurei-me na janela
nesta casa de lama
feitoria minha, construída com tempo
supus que despertavas
e bebi um copo à nossa
num cálice de ouro
que escondi de templários
do mundo das nuvens.

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