domingo, 13 de outubro de 2024

caderno diário

é por demais evidente que esse caderno foi forjado
esses rabiscos nojentos, caligrafia asquerosa
pisando as linhas como os passos de um drogado
ora sobe, contorce-se toda em espasmos, cai
ora desaparece numa linha fina e tímida
um murmurar qualquer ou uma língua antiga
e expira, como o passado em tábuas de argila.
esse espelho não informa a minha imagem.

também fui aluno e fiz desenhos e coisas
malvadas das palavras e das imagens que trazem
mas isso era uma capa falsa e pouco humana
reiterando um sentimento infantil sobre pessoas
popular, poético, dramático, empurrado aos rapazinhos
e às miúdas pelas artes que aplaudem as massas
que vimos pela primeira vez. a redoma, um insecto,
a injustiça entre as patas, titulares referências 
de letras densas e difíceis, segredo que o poço
guarda na negra névoa que esconde o seu fim.

filho de professoras e de olhos alheios
mete pressa nesse pulso, fogo nessa página
mancha-a de vinho suor e cinzas
imagina seres amplo e claro, as meninas
cantando esta estrofe em coro, sorrisos
que a máquina agora pode curar
ou empurrar para uma lista de compras
e nos teus consumos singelos
revelas a farsa que escreveu o caderno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário